terça-feira, 11 de agosto de 2009

Voyage autour de ma chambre

Qual é a parte do diabo? Olhando para a projeção dos pequenos orifícios da persiana no teto, é o que eu me pergunto agora, cruzando o oceano de tédio que me separa do dia que vem caminhando, sem nunca chegar. Deitado, sem sono e sem ânimo objetivo, meu corpo entorpece-se em ondas parciais, ora uma perna, ora os lábios superiores, ora um dos olhos. É repentina e assustadora a sensação da queda, ou da iminência da queda, e me seguro na invisibilidade na madrugada, me questionando o que, disso tudo, cabe ao diabo, o que levará, afinal, a escuridão e o abismo?

Percorro cantos sombrios da mente, buscando ressuscitar sensações escondidas em memórias doces, mornas. Nem sempre foi inverno nessa câmara escura; houve o tempo da brisa açucarada que vinha do mar secreto do cerrado, tempo da chuva e do cheiro de café, do som dos sapatos de solado duro no assoalho da casa velha, do perfume de flores nas fronhas engomadas pela mulher da trouxa na cabeça. Houve um tempo, mas passou. E o que veio depois, quero saber agora, o que? Que vazio nos levou, e me levou no mais, ao vértice escuro da sede que nunca se sacia, da fome, da raiva, do ranger de dentes angustiante, da aflição?

Imóvel na cama, concentro-me na ponta de meus dedos, que tocam o tecido macio do lençol. O som do piano ancestral penetra quarto, em movimento de arremedo, como ondas de choque que vem e vão. Nos meus olhos fechados, vejo a dança caótica de pequenos pontos luminosos que vão formando espirais; sinto o gosto acre da pele suada, eriçada pelo calor de outros corpos, e meu corpo todo vibra, treme e também sua, um suor frio e viscoso, veneno destilado, expurgado. A manhã galopa e eu aqui, dando voltas na arena da saudade, desejando um tempo que não posso controlar, à mercê do acaso, preso ao fatalismo irreverente de uma paixão que me aquece e me corrói.

Um sentimento de revolta sitia minha mente; desejo louco de romper com tudo, quebrar as antigas paredes e suas infinitas camadas de tinta. Por quanto tempo pude sobreviver ao ar putrefato de tantas memórias que ainda não vivi e vão se acumulando nas teias de aranha das arestas desse quarto? Na quietude do sono que me prostra, uma revolução se processa, projetos, planos para o dia que há de nascer; serei capaz de romper a crisálida do medo, ou só me resta a modorra acinzentada da insônia secular?

Como um crocodilo, afundo na tepidez do lago, senhor majestoso dos domínios da minha própria solidão. Olho o infinito escuro das profundezas, e sinto as impressões deixadas por cada instante feliz que habitou meu mundo; cada lembrança boa, cada beijo inesquecível, cada paixão que fez os sinos tocarem, cada adeus cheio de lágrimas, cada vez que amanheci cavalgando através do véu da noite, vindo das batalhas das quais saí vitorioso. Deslizo sorrateiro por esse museu aquático e vacilo entre o lodo do fundo e a luz da margem. Valerá a pena emergir e arrastar mais e mais felicidades empalhadas para o breu da memória? Entrego-me ao fluxo e o torpor se faz mais forte que a determinação do pensamento. Vou me desligando, como se tênues fios de seda fossem se rompendo entre meu corpo imaginário e as paredes viscosas da alma. O rodopio cessa e uma água escura e fria vai subindo em direção a mim, silenciando tudo.

sexta-feira, 7 de agosto de 2009

La bonne rêve

Eu não saberia repetir a combinação exata de vodca, fadiga e rivotril que me nocauteou tão deliciosamente bem numa noite de quinta-feira, particularmente morna, no inefável começo de agosto. Sendo sensato, não adiantaria querer reproduzir tudo, pois as noites mágicas são sempre - e isso é uma lei - únicas. Uma boa vida pode ser repleta de delícias e gozos, mas sempre particularíssimos. Um bom beijo nunca se repete, a música que se solidifica em torno dos amantes não causa o mesmo efeito duas vezes, a descoberta de uma nova paixão causa, sempre, reações distintas. Os deuses, sádicos e benevolentes num misto que só a eles cabe compreender, nos agraciaram com os sonhos, único artifício (e mesmo assim, um artifício fortuito) através do qual as tênues raízes do presente podem penetram nas lembranças e trazer de volta, por breve que seja, o que ficou vitrificado na memória.

Eu o conheci no submundo - pelo menos era assim que eu pensava a masmorra vaporosa na qual me meti naquela noite. Não sei porque fui parar lá; havia saído para beber, dançar, beijar, me divertir, e é fato que fiz tudo isso. Cansado, com o corpo moído pelo álcool e pelos excessos da festa, tudo me levava para minha cama. Talvez tenha sido a brisa da madrugada, ou o miado de um gato em algum telhado, ou ainda o súbito perfume de uma flor noturna. O carro guiou-se pelas artérias cinzentas da urbe insana e súbito estávamos passando ao largo pelo Aqueronte, entrando nos domínios nebulosos do caos e do desejo - ora mais caos, ora mais desejo.

Não foi a primeira vez, e clamo aos céus que não tenha sido a última. Desci os círculos, atravessei corredores, senti o hálito morno das criaturas milenares que habitam tais profundezas. Mil vezes eu faça a travessia, mil vezes sentirei o peso do ar, a solidez da atmosfera, dos cheiros assépticos do vapor branco e dos corpos que circulam em seu interior. Não se trata de medo, nem de culpa ou pudor; mas de apreensão. Lançando-me na incerteza da escuridão do labirinto, até quando sairei triunfante disso? Quando chegará o dia em que serei destroçado e nunca mais voltarei? Prefiro não pensar.

Essa noite veio-me, ontem, em sonho - com vodca, cansaço e psicotrópico. Não exatamente a parte underground, mas o depois. Nas profundezas da escuridão, um réptil mais ou menos ancestral que eu me achou, e, juntos, emergimos do pântano. Poderia ter sido breve: tesão, orgasmo, riso sem graça; mas não foi. Tinha que ser maior, mas apaixonado, mais forte. Eu queria que fosse mais, naquele dia eu precisava que o noite me abraçasse mais apertado e um coração batesse no compasso do meu nome. Eu pedi e tive isso; seu riso largo, sua mão segurando a minha, nossas bocas se fundindo, um último beijo na veia aberta da big apple latina, em meio ao trânsito de zumbis incapazes de compreender a beleza de dois homens desconhecidos se beijando na rua.

Naquela noite, eu deveria ter ido dormir com ele, encaixado em seu corpo, sentindo o cheiro doce de sua nuca e pedindo ao infinito que aquela fosse a última coisa de que eu me lembrasse no momento da morte. A vida, porém, não colabora e não pude ir, acabei nem dormindo. Tomei um banho e peregrinei pela cidade, pensando nele, no seu corpo, na sua boca, em sua história. O que veio depois não interessa; teve sua magia e imortalizou-se por outras razões, mas não foi com o que sonhei.

Em meu sonho, vivi a noite que não tive com ele. Nessa realidade paralela, ideal, eu o levei para meu apartamento, e entre beijos e carícias, nos despimos, devastados pelo cansaço do corpo e pelo sono. Ele, meigo e risonho, deitou-se de costas para mim e pediu um copo d´água que estava no criado-mudo. Bebi do copo e passei-lhe a água em minha própria boca. Seus beijos, então, tornaram-se ávidos e suas últimas forças acabaram num abraço, mais enlace que abraço, e ele pegou no sono encostado em meu peito. Deitei-o de lado, de costas para mim, e me encaixei em seu corpo curvado, como um bebê. Estávamos deitados sobre o lado direito de nossos corpos, de modo que, antes de eu também pegar no sono, fiquei com a cabeça apoiada em meu braço, olhando seu rosto, tocando de leve o contorno pueril de seus olhos, nariz, sobrancelhas. Vencido pelo sono, aninhei-me ao seu corpo e desapareci na ternura infinita e inocente daquele abraço. Foi então que acordei.

quarta-feira, 5 de agosto de 2009

Crônica do escombro amoroso

Hoje, enquanto tomava o café-da-manhã, bati os olhos em velho volume de contos de Tchecov, um livro que foi difícil de encontrar. Publicado na antiga coleção Jackson, contém a única tradução em português do conto "La Cigale", talvez o melhor do autor. É uma história de adultério, algo trivial para qualquer bom autor do século XIX, mas fascinante sob vários aspectos. Já li o conto dezenas de vezes, por isso apenas perceber o livro ali foi o suficiente para me levar a pensar, uma vez mais, em algo que havia decidido deixar de lado.

Há algum tempo me fizeram uma pergunta agressiva, daquelas cujo emissor já sabe (ou acha que sabe) a resposta.Inqueriram-me se eu seria realmente capaz de amar, uma vez que sou um adúltero contumaz. Na hora eu ri da situação e não me dei ao trabalho de explicar o meu ponto de vista; não seria proveitoso diante da bestialidade de quem formulara tamanha falácia. Todavia, ficou-me a impressão de que as pessoas, em geral, não compreendem nada, ou quase, do apaixonamento e do amor. A reflexão permaneceu em minha mente por alguns dias, e agora, diante de Tchecov, e da saudade da maresia verde de olhos que me abandonaram, deixei-me levar na elaboração do que proponho ser uma crônica do escombro amoroso.

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Não me lembro ao certo o instante exato em que me apaixonei pela primeira vez, mas sei que foi aos catorze anos. Depois dessa, outras tantas paixões vieram e cada uma foi uma fratura terapêutica da alma, formando calosidades úteis que me blindaram contra as veleidades mais comuns dos amantes de primeira viagem. Quando abandonei a crisálida do amor platônica, minha armadura de frustrações impediu que eu me ferisse na maior parte das vezes. Feri-me, por certo, e a armadura endureceu, temperou-se na forja impiedosa das noites de solidão e esquecimento, das ligações sem retorno, dos olhares não correspondidos. A cada batalha perdida uma nova marca, uma nova cicatriz. Como apregoava o revolucionário argentino, endureci-me, sem, contudo, perder a ternura. Não me tornei frívolo, nem refratário; quanto mais despenquei penhascos abaixo, mais me inclino para olhar as profundezas de novos abismos e acho maravilhosa a sensação de planar na insegurança - tenho sempre a sinestésica percepção da mãe que sai do álbum de retratos e toca píano no caos.

O resultado prático disso é bem simples; conquanto seja, no mais das vezes, um problema, já que a solidão não é uma alternativa válida para homens como eu. Talvez eu seja um tolo com ares de fidalgo; talvez o erro todo seja meu e o mundo esteja pleno dessa razão insossa que chamam de bom senso. Sinceramente, não sei. O fato é que sempre me apaixonei cronicamente, vivi essas formas de amor embrionário com toda a força que me foi possível, sem critérios.

segunda-feira, 27 de julho de 2009

Pilares de areia

Amo as sextas-feiras. São sempre como dias chuvosos em que se pode dormir até tarde, sextas são promessas doces de amantes jovens. E naquela sexta chovia mesmo, e eu pude dormir até acordar sozinho, espreguiçando como um gato melindroso em cama de solteirona. O barulhinho da chuva na janela me acordou bem antes, e foi ele que me manteve, pensativo, entre os lençóis e cobertas. Refleti sobre como tudo na vida estava perfeito, acontecendo na hora certa, na intensidade certa. Decidi, pressupondo-me um governador de filmes de pirata, que era um bom dia para me apaixonar, e assim ganhei ânimo para me levantar e espantar a modorra com uma ducha quente.

Dia cinza, amo esses dias. Almocei entre conversas agradáveis, comi menos que o habitual, uma excitação estranha me chacoalhava por dentro. Leve e dono do mundo, foi como voltei para casa. Dentro do meu templo, sou como um deus. Posso tudo. Coloquei uma música e fiz as banalidades prazerosas de uma sexta sem compromissos: lavei a louça, aguei as plantas, pus roupa na máquina de lavar. O aroma suave de amaciante me lembra de como existir é bom.

Olhei no relógio da cozinha e ainda nem eram três horas da tarde. Coloquei livros nos seus lugares, afaguei minhas gatas, terminei capítulos de livros parados pela casa. Queria fazer tudo e nada me detinha por muito tempo. Enfim, três horas. Fui malhar.

A academia é algo, no mínimo, curioso para qualquer observador estranho. Vestido de bermuda e camiseta confortáveis, me entreguei aos rituais do corpo e da promessa de beleza. Eu já cri muito mais, hoje, porém, é mais um vício nas substâncias que o suor de o cansaço produzem em mim. Devo ter ficado lá pelo menos duas horas e, quando voltei, minha pele transbordava uma alegria líquida inexplicável, misto de ânimo acalorado e desejo pelo desconhecido. Comi, tomei banho e, ainda meio nu, meio vestido, atirei pelas janelas o chamado da selva, o sussuro sutil que perde a suavidade na dinâmica de propagação e se torna grito, uivo, berro. Assim foi, e o chamado foi respondido, como antes já fora, e não me animei nem menos nem mais do que antes, não mais do que aquela sensação especial do despertar me sugeriria fazer nessa sexta chuvosa.

Quantas vezes eu penetrei o breu da floresta escura? Quantas rodadas eu não joguei sozinho nesse fado maluco que homens como eu recebem como carga e carregam sem tristeza no coração? Estava calejado, sou calejado, por que cargas d´água deveria acontecer, a essa altura, a surpresa branca do olhar silencioso? Pois aconteceu.

Chovia aquela garoa fina dos sambinhas de Noel Rosa, tristeza gostosa no grisalho da tarde. Meu coração não batia acelerado, nem minha boca estava seca. Tudo normal, atmosfera intocada, mão firme no volante. Até então eu nunca soube o que era uma calha de roda; subitamente me veio à mente a figura, que ainda não sei reproduzir em palavras, mas é clara em minha mente.

A resposta está onde? Nos olhos, na boca, na pele, nas formas do corpo, nos músculos, nos pelos? Não sei, não adianta mais querer saber. Foi sonho e como sonho reagi. Nos labirintos da madrugada, de que adianta a verdade? A verdade é cáustica, come a beleza das coisas. Menti, bebi o fel da inverdade e vivi as horas que me foram dadas pelo desvio do inevitável, pois a droga da verdade mina como o pus de um pestilento, que é como eu deveria me sentir. Mas não sinto nada, só saudade.

Foi súbito, intenso. À deriva na solidão eufórica daquela sexta, naufraguei nos verdes mares de seus olhos e me perdi. Eu era noite e me fazia noite, então o vi e tudo, num instante, foi luz. Da luz veio a tempestade e já não fazia mais a menor diferença se era perigoso ou não, pois não havia medo algum.

Duraria quanto? Não importa; era o que eu pensava, pelo menos. Durou pouco, como um sonho bom com cheiro de casa de vó, nas férias. O estranho é que se a bonança foi tempestuosa, o fim foi plácido, um lago de calmaria. Os mesmos verdes olhos convulsos na volúpia dois dias antes, então eram esmeraldas congeladas na convicção do fim. Doeu a fria exatidão das palavras, e pelo tempo que estas ecoaram na memória. A sexta cinza, a manhã chuvosa, os beijos e delícias dos dois dias de sonho, tudo dura mais, se aviva na lembrança e me lembra, uma vez mais, que no amor e na paixão não há maiores certezas que o sentimento morno que alegra e esquenta a alma quando, adormecidos os amantes, a alma se entrega ao sono e só as coisas boas passam, por breves instantes, na mente que esvanece e some nos mistérios da noite.

sábado, 18 de julho de 2009

Insone

A noite, de repente, ficou vazia. Os sons da casa cessaram e nem mesmo o barulho bom dos carros cortando o asfalto molhado havia. Olhei o rádio-relógio de mostrador esverdeado e ainda era madrugada; eu, porém, não tinha sono e começava a ficar fatigado de me revirar na cama sem conseguir fixar um único pensamento. Nestas horas é bom estar só, poder levantar e colocar uma música para tocar,abrir e fechar armários, romper o invólucro do tédio falando sozinho, xingando, fazendo polichinelos. Levantei sem fazer barulho; eu não estava sozinho.

Na cozinha, enchi um grande copo com água da torneira e me impus o desafio de beber tudo. Costumo ficar nauseado quando acordo no meio da noite, e beber toda aquela água era já algo para quebrar a monotonia. Fiquei uns dez minutos ali, encostado no granito quebrado da pia, reparando nas migalhas acumuladas no canto da bancada e anotando mentalmente que isso era algo a se comentar com a faxineira - faço várias anotações mentais, que depois esqueço. Com o estômago um pouco embrulhado, fui para a sala e sentei no sofá. O controle da TV estava a poucos centímetros do meu alcance imediato, sobre a mesa de centro. Preferi não tocá-lo, ficar sem imagem, sem som, só na preguiça irritante da insônia. Estiquei os pés e os coloquei entre os objetos da mesinha. Poderia, facilmente, puxar o controle e trazê-lo ao meu alcance, mas me divertia pensar na ironia daquela situação. Comecei a fingir que estava petrificado e fechei os olhos, pensando como deve ser doloroso para a alma ficar cego.

Nesse exercício mental acho que perdi, talvez, meia hora ou pouco mais. A náusea da água passou e agora vinha a vontade de urinar. Lembrei de um senhor do prédio em que moro, bem idoso, que subiu comigo no elevador e era nítido o constrangimento pelo conteúdo de seu sacola de mão: fraldas geriátricas. Senti pena e fiquei profundamente deprimido com a perspectiva de um dia ser eu a entrar numa farmácia e comprar um fraldão. Sempre me assustou a decadência do tempo. O homem parece ser uma criatura moldada à imagem da ruína; mesmo no auge de nossa integridade somos obcecados pela ideia da putrefação da carne. Pensar na velhice me desola; naquele dia tomei um bom trago e deixei o arrepio do álcool subir pela garganta e levar embora a sensação ruim.

Quando sinto muita vontade de urinar, costumo fazer um jogo comigo mesmo: seguro o máximo que posso e depois simplesmente deixo o fluxo sair, numa erupção que, em alguns aspectos, supera o gozo. Tive essa ideia vendo um filme japonês em que os amantes chegam ao ápice do orgasmo sexual aliando tesão e morte. A bexiga estourando me parece análogo à morte; o mijo, ao gozo: funcionou. Agora, nessa noite que escorre lenta, como uma gota de piche, sentir a urina expandindo o espaço dentro de mim era um meio de me concentrar em outra além do tédio.

Durou pouco e precisei ir ao banheiro. Fui e voltei numa moleza estranha, o que me fez pensar que aquelas horas de sono fariam falta no dia seguinte, que, aliás, era o meu hoje de então. Na volta, aproveitei e peguei o controle da TV. Acho um pouco irritante toda a parafernalha necessária para ligar a TV: ligar conversor da TV a cabo. ligar TV, ajustar imagem, escolher o canal. Prefiro um livro, na maioria das vezes pelo menos. O primeiro canal que pensei em escolher passava uma programação alternativa, algo referente à práticas pedagógicas; percorri outros canais, mas só séries de comédia antigas, daquelas com risadas ao fundo, de quando em quando

domingo, 28 de junho de 2009

Brevidade

Eram dois estranhos apenas. Fim de tarde, tráfego leve, quase rápido; não haveria demora na volta para casa, mas mesmo assim eles se desviaram. Na verdade, o desvio foi um encontro, casual e fortuito, um encostar de ombros na entrada da farmácia. O olhar formal da desculpa, que é isso, não, eu que estava... Basta; não é preciso mais nada quando ocorre o entendimento instintivo dos corpos. Para ambos aquele relance de vistas ficará congelado nos minutos que se seguirão dentro da farmácia, entre prateleiras de cosméticos e fraldas, uma subida na balança, uma consulta ao atendente no balcão. O ritual é básico: eles devem se encontrar no caixa, devem se olhar de novo e aguardar o riso de lado, confirmando o que já perceberam desde o primeiro momento.

Para a minha casa ou para a sua? Não? Na minha, na verdade, também não. É longe, fora de mão. Está de carro? É, vou embora de metrô também. Conversa rápida, certeira. Mãos nos bolsos, ombros encolhidos. O frio vem com o soprar gelado do vento, às seis da tarde; dois estranhos parados, sem jeito, na esquina, indecisos. Um café? Tá.

Não era longe e foram caminhando, silenciosos a maior parte do tempo, trocando frases quase truncadas, perguntas tolas - porque, no final de tudo, não vai importar a resposta. Quando finalmente chegam a uma padaria, decidem sentar-se lado a lado no balcão, apesar de haver mesas vagas. Pedem seus cafés, apenas. Os dois estão com fome, mas a ansiedade corta um pouco do apetite. Querem olhar-se nos olhos, sentir seus cheiros, mas ainda é cedo, falta a brecha.

No calor do ambiente, menos tensos por causa do café e da percepção da indiferença com a qual as demais pessoas encaravam a presença deles ali, acabaram por trocar nomes, falaram de trabalho, da vida. Veio o silêncio de novo, que foi cortado pelo riso. Não se pode dizer qual abriu o sorriso primeiro, no entanto o que realmente conta é que, então, entregaram-se ao que queriam discutir de fato. É sua primeira vez? Não, e você? Também não. Eram dois estranhos curiosamente parecidos, foi a sensação que se construiu nos dois. Outro café e eles tiraram suas jaquetas e puderam se ver melhor, o contorno dos ombros, do braço. Tinham basicamente a mesma idade, vestiam-se de modo semelhante. Um estava de camiseta básica, justa; o outro, vestia uma polo, manga curta e bem alinhada no corpo definido. Eram dois homens em quase tudo comuns naquele habitat, porém nessa simplicidade residia uma beleza rara, quase bucólica.

Uma hora depois, um deles ligou para casa e disse que estava numa reunião; o outro morava com o namorado, que, naquele dia, tinha viajado a trabalho. Os olhares e essas ligações davam a um e outro a certeza do desfecho da noite. Decidiram que era melhor comerem algo, pois então a fome aumentara e a tensão fora desfeita pela empatia. Pediram lanches leves, cada qual pensando na reação do outro, no depois. Falaram de outras coisas, descobriram que iam em muitos lugares em comum, que tinham estado na mesma sessão de uma mesma peça, que tinham passado o mesmo reveillon em Copacabana e que era provável que até tivessem se cruzado. Que coisa, né? Pois é.

A essa altura, já tocavam ao longo da conversa. De início, eram apenas suaves tateamentos pelos braços, pelos ombros; depois passaram a apertões sutis nos flancos, nas coxas. Sentados próximos, suas pernas se roçavam e um clima de tensão boa foi crescendo. Um deles levantou para ir ao banheiro e deu um riso malicioso para o outro, olhando em seguida para a própria braguilha - estava excitado. Esse jogo constrangeu e excitou o outro, até então receoso se deveria ou não arriscar uma noite de sono pelo que poderia rolar com o outro.

E assim, nessa interação velada, algumas horas de passaram e foi apenas quando a televisão da padaria exibiu a abertura de um programa noturno que eles deram pela hora. O metrô já havia fechado e não restava muito o que pudessem fazer. Trágico e cômico, era a leitura que poderia fazer de seus rostos. Foram descendo uma rua movimentada e em certo ponto, numa concavidade de árvore, um deles beijou o outro. Um beijo forte, de braços fortes envolvendo a presa, ainda que não houvesse qualquer resistência.

Dali em diante não havia mais dúvidas, o beijo fora apenas o começo. De mãos enfurnadas nos bolsos de suas jaquetas, chegaram a uma praça com um hotel na esquina. No andar térreo, um boteco imundo anunciava o que devia ser o lugar; prostitutas e travestis no balcão, numa espécie de armistício até mesmo poético. Subiram um escada, tensos novamente; como pedir o quarto para dois homens? O que vão pensar? Depois até iriam rir juntos sobre como foi absurdamente natural para o velho da recepção entregar a chave sem fazer qualquer inquirição; apenas pediu o valor adiantado e disse que estavam com sorte, pois naquela noite poderiam pernoitar. Não havia café-da-manhã nem serviço de quarto. Toalhas extras custavam um certo tanto e havia preservativos no corredor.

Subiram no elevador antigo, ainda com a ruidosa porta pantográfica, e um deles fez graça com a memória de um filme de terror espanhol, algo sobre zumbis em um prédio como aquele. Chegaram ao corredor, no quinto andar, e tudo, carpete, móveis, papel de parede, absolutamente tudo era velho e desgastado, muitas vezes sujo. Entraram no quarto e após uma breve verificação das condições do lugar, deitaram-se, meio sem saber o que fazer, na cama. Na cabeça de cada um mil coisas se passavam, mas os dois sentiam que havia algo diferente, que aquela falta de traquejo não era normal. Por que não estavam se pegando e se despindo e se devorando?

Deitados na cama, que pelo menos era até bem limpa, voltaram a conversar e falaram sobre o beijo e outras coisas mais. Estavam inicialmente olhando para o teto, os dois; depois viraram-se de lado e se beijaram de novo, num beijo calmo como o silêncio da madrugada, um beijo de busca, de conhecimento. Lento e firme, foi um beijo de descoberta, de toque suave e reconhecimento da geografia do outro.

Era tão tarde que esse beijo foi o aconchego dos heróis fatigados. Dormiram abraçados e ainda vestidos, e foi apenas por milagre que um deles despertou cedo, com os olhos irritados por ter dormido com a lente de contato e com aquela sensação agoniante de estar atrasado. Logo, porém, viu que era cedo e, sem acordar o companheiro, tomou um banho e se asseou como foi possível. Era sorte ter uma camiseta extra na bolsa.

Ali, naquele quarto, após uma noite de pouco sono, barba por fazer, o que prendia sua atenção era o corpo encolhido que ainda dormia, sereno, com uma expressão de felicidade no rosto. O que seria agora? Voltariam a se ver? O pensamento foi cortado pelo som das obras na cidade. Era hora de pensar em sair e comer alguma coisa. O dia amanhecera um pouco chuvoso e o metrô, àquela hora, deveria estar caótico.

quinta-feira, 18 de junho de 2009

Serenata azul

Eu queria lhe dizer tudo agora, de uma vez, mas não consigo. Antes, nos momentos antes de começar tudo isso e me colocar na sua frente (!) e fingir que abro meu coração, tenho os pensamentos tumultuados e toda a coragem de despejar verdades, dores, medos. Mas, assim, diante da iminente resposta, do soco que não é soco, o novelo se forma na boca do estômago e minha covardia solidifica essas ideias anárquicas que vão se acumulando dentro de mim.

Na última vez que o vi, não havia paz no céu, nem em nenhum lugar ao meu redor. Quando olhei para cima em busca de uma calma que não viria, a manhã estava cinza e não havia consolo em nenhum ponto. Seus olhos mareados pela azul mais verde ou pelo verde mais azulado só me davam vontade de chorar, porque uma vez mais eu sabia que o sono viria e com ele o meu esquecimento. Você me deixaria para trás, mesmo sem querer; sozinho, com frio e ódio, eu ficaria no meio da névoa obscena, na toca imunda dos meus pecados.

Foi lento como um sonho: você me beijou e disse algo que soou adeus, algo indefinido, mas que só poderia ser lido como adeus. Não tive forças, só ânsia de vômito, calafrios e mal-estar. Da massa morta de nuvens, um raio de sol acendeu minha raiva, me pôs louco. Fui embora revoltado, amaldiçoando cada escolha errada, cada excesso. Será a última vez, eu juro; mas é uma promessa sem convicção, você já sabe.

Não houve tempo desta vez, e quando digo isso quero dizer que não houve intervalo para as lamentações de sempre, para aquela fossa mansa que corrói a semana e só passa na próxima boca com que você vem me beijar, atravessando a cortina da noite e invadindo minha calmaria de bêbado. Não, dessa vez uma alegria repentina já me acometeu de pronto e a despeito das previsões astrológicas você veio rápido, com passos graciosos, envolvido pela beleza mística do intangível, aquela luz azul que perpassa as sombras da floresta imaginária em meu coração, e traz um sopro adocicado de esperança.

Você me puxou com força para dentro do seu mar, e eu mergulhei. Segurei sua mão e quis ouvir uma música especial, cuja letra eu não compreendia muito bem, mas falava de amor e perda. Meu corpo vibrou na sua sintonia e meu véu de luto foi soprado para cima; no caos do abraço, eu me fundi a você e, juntos, forjamos um instante, um rio atemporal que explodiu em espumas claras ao encontro de nossos rochedos. Foi diferente da primeira vez; eu queria ficar ali com você para sempre, mas não pude, você também não pode.

Esperei ansioso o dia seguinte e ele veio, mas já era o prenúncio da solidão. Você dançou para mim, mas foi apenas ilusão que fosse realmente para mim. Eu estava ali, transgredindo a ordem natural das coisas. O amor veio e me deu uma suave réstia, que continua aqui, doendo um pouquinho. Agora é tempo de me recolher e sonhar. Com sorte, uma memória de um tempo que já passou, um tempo em que os desejos eram outros.

domingo, 12 de abril de 2009

A penugem do patinho

O domingo à noite é sempre de prenúncio, da semana, do tédio, do azedume que resta na boca após a ressaca resultante do consolo morno de um sábado. Hoje foi um dia de domingo como qualquer outro, com muitos planos não realizados, tarefas não cumpridas, livros lidos aos poucos. O sol que brilha no domingo é algo sem sentido, sem ruído que lhe dê autenticidade, materialidade; é o anti-brilho. Mas o dia termina e o sol vai embora. O ruído, então, é branco, leitoso; televisores, aplausos, frango requentado e macarronada seca. Tédio acrescido de asco. Meu pai engraxa os sapatos no domingo à noite. Eu achava, quando criança, que jamais faria isso, que nunca seria o adulto orquestrado pela rotina dos dias e das horas, o homem-pilha que devora a vida nas preocupações e nos relógios sujos das torres. E, sem perceber, tornei-me.

Passei a sentir o tempo penetrar minha carne e nem era um homem maduro ainda. Tomei ciência da minha não-juventude ao perceber o quão tátil é juventude alheia. Não que a minha houvesse se esvaído, muito pelo contrário; aconteceu, essa percepção, quando minha maturidade entrava nos seus anos de maior glamour, na época em que tudo brilhava ao meu redor porque eu era, de certo modo, o astro-rei de minha própria órbita. Superados os dias de aurora, do meio da escada olhei para trás e, não muito abaixo, vi, ou melhor, intuí o que estava ficando no caminho. Não a minha adolescência, não os meus anos de incerteza e medo, mas os dos outros, daqueles que eu tanto desejo e amo, dos corpos alvos e macios, da pele, do cheiro, do riso, da leveza que paira sobre os ombros sem história. O olhar do rapaz jovem, seus sonhos, seus medos bobos, tudo é beleza virginal, tem o sabor surreal das manhãs de neblina e sol fraco.

Hoje, o amor cordial e passageiro desses corpos é tangível. Na selva, eu ainda caminho seguro e não temo a escuridão; meus olhos brilham no meio do breu, anunciando minha caçada, meu salto certeiro na elegância do ataque. Haverá um dia, porém, que as árvores se fecharão sobre mim e só verei, espero que dignamente, o rio da vida escorrer; e outros, então, estarão em meu lugar. Marmorizado no jardim do esquecimento, observarei os corpos jovens e lembrarei com saudade de quando o fulgor do meu olhar bastava para trazê-los mais próximos, e como a suavidade de seus rostos contra os nós dos meus dedos me transportava para paraísos terrestres muito além do gozo.

Penso com frequência quando esse dia há de chegar. Qual será a última vez que acordarei abraçado com um corpo jovem sem me sentir ridiculamente patético? Quando tocarei a sedosidade da pele coberta de pelos loiros, penugem pueril, e ainda serei o leão a abater a presa e não o velho senil em cuja bocarra foi atirada a gazela abatida?

[perdi o fio da meada]

quinta-feira, 9 de abril de 2009

Laissez-faire

Eu estava no sofá, confortavelmente ébrio do conforto morno de um assento após longa jornada, longo dia. O sofá pode ser meu melhor amigo num dia como hoje; um sofá e um copo sextavado com vodca e energético. O que eu digo não se escreve, é a frase que ecoa, mas quem disse isso mesmo? É a vodca fazendo efeito. Não tomo qualquer vodca, aliás. Gosto e compro aquele importada, cara, que vem na embalagem de lantejoulas vermelhas. Dizendo o óbvio: Pois sim, quem liga? Tenho para mim, nesse instante, que só o álcool traz a verdade. Bandeira disse que não queria um lirismo que não fosse libertação; eu quero ser livre, porra. E mande-me outra dose; se houvesse garçom. Garçom não há... ah, fico drummondiando e que é da dose? Levanto e constato que o energético acabou. Pena, refrigerante light serve. Amanhã será dia de ressaca. Hang over, né? Rio comigo. Lembro que aprendi essa expressão inglesa quando atravessava a linha do trem em Santos Dumont, Minas. Há alguma relevância a geografia da memória? Não sei, os ébrios, bêbados mesmo, devem ter alguma teoria. Eu fico com a memória. Hang over, Santos Dumont, Jorge, linha do trem. Assim eu lembro e construo alguma história. Por que foi mesmo que ele me ensinou essa expressão?... Ah, foi por causa do engov. Por que o engov entrou na história? Sei lá. Sei lá pra tanta coisa, ainda mais agora, com a vodca me inspirando.

Só penso em ser livre e esse paradoxo de merda me corrói. Corrói perdeu o acento? Acho que não, e rio desse achar. Peraí, rir é defectivo, porra? Ops, vão me acusar de metalinguagem gratuita. Esquece o Jabuti. Falou do Jabuti já era o Jabuti. Agora há dois eus? O sóbrio e o de quinta-feira santa, chapado de vodca? Rará. Ok, falando sério: há dois eus?

Voltando ao paradoxo: que porra é essa que estou vivendo? Para quem não sabe, eu sou um homem casado. Tudo bem, casado é uma expressãop forte, mas é assim mesmo. Cidadão respeitável, elite intelectual. Merda nenhuma, é isso que eu sou. Meu pai estava certo, devia ter feito medicina e me afogado na ganância. Greed, greedy; saco, o Jorge sempre me vem pelo inglês, o inglês que eu nunca falarei como ele. Não é inveja; é admiração, mas como dizer isso agora? Veio o tempo do soco e que eu fiz? Tomei a porrada, oras, o que mais eu poderia ter feito? Tomar porrada é genial, é subversivo.

Ethos ébrio ou ethos bêbado? Meu chapa Bukowski me sussurrou em sonho que preferia engolir um de seus gagalhões (péssima tradução) a ser referido assim. Eu, quando limpo dessa vodca toda, gosto do ethos, estudo o ethos. Para quê? Ora... não, eu já usei "ora"... vou escrever "pois bem". Pois bem, estudo o ethos porque é... lícito? Acadêmico?... Bof... estudo porque é o meu jeito "feggish" de gritar eu, de escancarar minhas feridas úmidas de pus e lágrimas... poesia carnal.

A mão esquerda vai errando mais que a direita. Por um breve momento, o lado direito do cérebro genializa deixar as grafias embrigadas pelo caminho. Não me julguem; nem julguem meu pobre hemisfério cerebral. Em tempos de crocodilos filósofos, tirados sei bem da sessão das dez do SBT (perdão, amigo), é imperativo essa viés new, plural, criativo, inventivo...ivos aí. A filosofia da cachaça é melhor que a do crocodilo, ou jacaré... era um jacaré nos esgotos de são paulo? Para ser sincero. só li a crítica. O pai da "obra"... ops, sorry again... é conhecido de longa data, não valia a pena lê-lo. Espero que ele não me mortifique por isso; juro que não há melindre literário algum. Eu, na verdade, escrevo para esbofetear, mas que merece o tabefe nunca me lê, jamais lerá.

Se eu falar da minha vida nesse exato instante, seria excesso de pedantismo (e veja, leitor, que eu já reconheço meu pedantismo, antes que você de vire para o lado e comente que eu sou pedante). Gosto dos entornos. O copo quase vazio é básico. Eu já disse que é sextavado? Creia-me, é importante. Eu já disse que sou a reencarnação de Tito Lívio? Pois é, inventei essa mentalmente; gosto de provocar os espíritas só na minha cabeça para ver se eles me sacam; eles nunca sacam.

quinta-feira, 2 de abril de 2009

Coup de foudre

Hoje eu comprei uma cadeira nova para o meu quarto. Simples, isso. Não a cadeira em si, mas o fato de comprá-la; decidir pela liberalidade de pôr uma nova cadeira naquele canto específico, bem aquele cujo vazio sempre me incomodou.

Acordei cedo, não muito disposto, ou ao menos disposto a qualquer outra coisa que não o banal cotidiano que é o meu cotidiano. Comentei esse pensamento, outro dia mesmo, com um amigo e ele riu de mim, dessa auto-avaliação. Cotidiano banal? O meu? Bobagem. Mas eu sinto isso, esse espaço vazio precisando de uma nova cadeira. E quando acordo assim, é como se o dia não principiasse, falta algo. Élain vital, talvez? Não sei ao certo, mas reparo que as samambaias da varanda ficam mais tristes que o normal (porque as samambaias são criaturas tristes, apesar de tudo). E vê-las, assim, abatidas, me abate também.

Preparo meu café, mas o engulo sem vontade. Tomo um "ome" qualquer coisa (esqueço os sufixos corretos dos medicamentos; sou um hipocondríaco idiossincrático, o que me permite o uso de duas palavras cuja sonoridade me faz rir) e mesmo assim o nó no estômago não passa. É sempre assim.

Hoje, porém, a despeito de todos os passos previsíveis desse ritual terem se dado exatamente como das outras vezes, ao passar pelo quarto, fixei meu olhar no canto vazio. Havia um novelo que pó, desses que se formam nos dias antes da faxina semanal e são uma complexa estrutura de longos fios de cabelos de não-sei-quem (não há mulheres nessa casa), pelos de gato e pó propriamente dito. Parei, recostado no batente, e me perdi no rodopio lento do novelo, acariciando aquela esquina vazia do meu quarto; aquele espaço de semântica vaga e sintaxe inexistente. Lembrei-me da água do poço do João Cabral. Poema triste, sempre pensei. Mas dessa tristeza toda, eis que me ocorreu: a cadeira.

Não podia ser qualquer cadeira. Uma quina vazia não é obrigada a aceitar o que lhe for oferecido simplesmente porque está vaga. Não. Era preciso escolher bem, buscar a peça ideal: nem grande demais, que obstrua o espaço sinuoso entre a cama e a parece; nem modesta e estreita, que seja desconfortável quando, nas noites de tempestade, eu queira me levantar e contemplar o sono de quem esteja na cama, mesmo que esse alguém seja uma de minhas gatas.

Saí sem desespero, mas um pouco ansioso. O tempo, é claro. Sempre há pressa nessas questões de necessidade emergente. Principalmente quando elas emergem e fazem lacrimejar as samambaias da varanda. E foi assim, nesse misto de emoções, que rodei muitas lojas; todas especializadas em cadeiras, e muitas que sequer vendiam móveis. Bastava ver uma cadeira em uma vitrine (de uma boutique, por exemplo) para que eu fosse entrando. Total fracasso. Perdi uma manhã inteira e o novelo de pó ainda lá, esfregando seu corpo imundo no ângulo frágil e nu do meu quarto.

Veio o horário do almoço e perdi algum tempo (na verdade, muito dele) pensando no que comer; decidi, enfim, não comer. Tomei uma coca light e comprei chicletes. Uma coisa que me acalma é mascar chicletes. Fiz tudo isso na loja de conveniência de um posto. O dia estava muito quente e o ar-condicionado me atraiu. Mandei completar o tanque do carro, entrei na loja e fiz hora com a coca e os chicletes. Ensaiei comprar um sorvete, olhei revistas, puxei conversa com uma pessoa na fila. Quando chegou minha vez de pagar, cedi meu lugar a quem estava atrás e fui ao caixa eletrônico sacar dinheiro - não que eu precisasse realmente, mas queria ficar ali. A luz branca e o ambiente climatizado me faziam esquecer o novelo de pó e o vazio.

Como sou muito vergonhoso, logo me ocorreu que as pessoas da loja poderiam pensar que eu estava querendo fugir, sair sem pagar. Sou meio paranóico, talvez. Sempre penso na minha mãe indo me tirar da cadeia por qualquer bobagem; no olhar do meu pai, pesaroso pelo meu delito. Droga, eu tive que sair da loja. Paguei, e fui embora. De volta à questão da cadeira.

Estava muito quente e eu odeio calor. Não gosto de sol; acho, mesmo, que seria bom ir morar na Inglaterra, bem no norte, numa daquelas vilas antigas, com as senhoras de cabelos brancos e as tavernas de nomes esquisitos. Céu cinza, dia curto, longas noites a percorrer. Sim, um bom devaneio, e eu ainda precisava - não desesperadamente, mas precisava - da cadeira. E não teve jeito, cadeira que coubesse nas meticulosas especificações do meu vazia não havia.

O que me restava era me juntar às samambaias e chorar o dia perdido na busca sem sucesso. Seria necessário me acostumar ao quarto vazio; não propriamente vazio, mas com aquele vazio, aquele espacinho dolorosamente ocioso, incompleto. E quando eu já acostumava com esse destino, eis que o destino (e só pode ter sido ele) brincou comigo - ainda que, no final, a vantagem tenha sido minha; e só comento isso porque a porra do destino costuma preferir, ele, a vantagem para si em detrimento do desgosto alheio. Aquele dia foi diferente.

É um pouco complicado definir a zona de transe em que penetrei, ou mesmo como tudo se deu. Hoje, várias maneiras de déja vu me levam ao ponto exato da memória desse fato tão singular. Eu posso estar no metrô, ou em uma das galerias do Louvre, é sempre nesses espaços de transposição, de confronto, que me lembro de como achei a cadeira.

Posso dizer com segurança que era noite e chovia. Meu corpo inteiro rangia no ritmo do clamor lento das casas antigas; medo, quem sabe? Penso, às vezes, que sei exatamente como cheguei até lá, mas prefiro encobrir esse quadro, obscurecê-lo na memória. Outras vezes, acredito mesmo que me materializei ali, entre paredes carmim e vapores e escuridão. Como achar uma cadeira em lugar desses, é a pergunta natural? Pois é.

Quando se trata de falar em cadeiras, não há por que elocubrar. Ela estava lá, contra tudo que eu pudesse crer, ela estava ali. Dourada, pálida. Seguramente, não estava à venda, foi meu primeiro pensamento. O segundo, na verdade - o primeiro, antes de vê-la, foi sair correndo de lá. Mas a necessidade de esgotar todas as possibilidades em busca da cadeira foi mais forte que o medo e a repulsa causada pela medo.

Uma cadeira não é nunca apenas uma cadeira. Foi uma lição que, nesse dia, me ficou bem clara. Filosoficamente, seria bom pensar que foi uma dura lição, porém não foi. Na verdade, foi uma lição doce, sensível. Uma cadeira, na sua aparente exterioridade, esconde um universo próprio da sua natureza de cadeira; um espaço de dentro da cadeira. Por isso mesmo, não somos nós que adquirimos uma cadeira ou sequer escolhemos uma com ou sem espaldar alto; creio, hoje, que as cadeiras, por alguma razão menos óbvia que a já ululante, também nos escolhem.

Uma manhã cinza. Um espaço vazio e nem novelo de pó. Catacumbas, eu e uma cadeira que me escolheu, assim como eu a ela. Retomo a ideia do ângulo e calculo mentalmente quantas manhãs ainda passarão e eu continuarei a olhar para o canto que não pode ser preenchido senão por aquela cadeira. Sim, claro, porque se eu não contei o final da história, nem o precisaria agora. Ela foi minha, na sua totalidade. Foi. Fomos um do outro, para ser honesto; e creio que nos tornamos parte um do outro também.

Hoje, escrevo sentado no canto vazio e, apesar do desconforto, há um calor bom em pensá-la ali, dourada e branca, preenchendo esse pedaço de mim que, de vez em quando, sente o vazio e deixa cabisbaixas as samambaias da varanda. A cadeira que acabei comprando, essa era apenas um objeto invisível.

terça-feira, 24 de março de 2009

O vento entre pela fresta da janela e sutilmente move o mármore dos lençóis, da noite que repousa na cama, ainda, perene, sempre estática no congelamento do instante, da memória. Ar rarefeito que penetra, infla. O som da tempestade antecede o cheiro que vem, sutil e sorrateiro, carregando terra e poeira e escombros de quando ainda não havia a tempestade. Os gonzos pendurados no vértice da casa balançam ferozmente, guincham anônimos, pois não há olhos que contemplem seu suplício: apenas se fazem ouvir, proféticos; a manhã não está clara, talvez nunca mais seja o tempo de sol e jardins verdejantes, talvez esse manto de cinzas pálidas seja a herança que restou, o estigma da noite que finalmente se fez última.

A saudade é uma criatura estranha, aracnídea, lenta como os vidros que escorrem nas vidraças da casa, nos compridos janelões pelos quais olho a cidade, a rua que desce, e desce, e nunca acaba, para sempre. Os rostos passam pela calçada e são como fantasmas; não distingo o ver do querer ver; e perdo-me no paganismo selvagem dos pensamentos, ainda uma vez os pensamentos. Circulo entre arvoredos centenários, milenários; mergulho até a raiz da raiz e os torrões de terra não me causam menos nojo, nem a lama suja menos meus cabelos molhados. Até quando, até que ponto? Os lambris sobem ziguezagueantes, ornando pilastras de sal e escuridão; meus olhos seguem a ascensão do templo e no alto vejo pombos em câmera lenta.

Desgarrei-me; estou sozinho na floresta e não resta mais nada do acalento das paredes em torno de mim. Deserto, gretas e langor. Não há espectros, nem brisa, nem luar; os lobos não uivam, nem as corujas chalreiam, solidão total. A manhã sem horizonte lembra a noite sem cavalgadas, sem valquírias enfurecidas; há apenas o vento que penetra o quarto e infla o lençol branco, macio; o vento que resgata o rosto perdido no infinito, que traz de volta a alvura da pele, o talhe do torso nu, perfeito. Olhos fechados, arquiteto jardins sem anjos, sem sebes; nele corremos a vastidão azulada do gramado proibido. Não há mais corredores, nem portas ou escadas; os espaços se abrem, livres em varandas eternas, desmedidas.

Deitado, acaricio o ar que o traz até mim; o vento que resvalou seus cabelos e trouxe uma molécula do teu éter, do teu suor, depositando-a na ponta do meu lençol. Fecho os olhos e venço as muralhas do dia que não queria amanhecer; uma parte de você vive energicamente colada ao meu corpo cansado. Levanto e com cuidado deposito teu átimo perfumado entre meus próprios cabelos; o tremor azul das lembrança me invade e outra vez recordo como meu corpo deslizou no seu e como minha boca buscou a sua e como não só o corpo explodiu em satisfação. Você me deu uma noite para lembrar e é com ela que entoa meu hino de guerra e é dela que faço meu escudo contra o ranço do dia.

quarta-feira, 18 de março de 2009

Tântalo polímata - terceiro movimento

Santa Amélia, Santa Ifigêmia, Santa Ismália. Algo assim, o nome do edifício. Construção antiga, poucos andares, com uma grande árvore na frente e jardineiras desordenadas nos estreitos corredores laterais. É apenas o que vem a memória quando penso no primeiro dia que fui visitá-lo e apertei o botão ao lado da plaquinha "o nome não importa". O teclado do interfone era também antigo, com longos e finos botões pretos saindo de um painel dourado, meio desgastado pelo tempo. Ele me atendeu e com um estalo a porta de vidro da frente se abriu. Havia apenas um elevador, daqueles velhos, ainda com porta pantográfica e carpete vermelho dentro, bastante puído e sujo. O prédio rescendia decadência, e quando a porta se abriu no terceiro andar essa impressão só piorou: as paredes tinham detalhes em gesso, com algumas partes despregadas e quebradas; o lustre original havia sido substituído por uma luminária fluorescente, o que inundava o espaço com uma implacável luz branca que, em intervalos regulares, falseava. Havia quatro portas no corredor, apenas duas iguais uma a outra. As outras haviam sido trocadas por modelos reforçados, com trancas na parte de baixo e de cima - além de decadente, o lugar deveria ser perigoso, foi o que pensei.

Tenso, considerei recuar e fugir dali; não sei explicar, hoje, a razão do vacilo, mas por um instante pensei em simplesmente voltar para a rua, entrar em meu carro e ir para qualquer lugar menos opressivo que aquele. Parei em frente à porta número 31 e bati, ignorando a campainha. Vi pelo buraco do olho mágico a sombra dele, que me observou por alguns segundos antes de abrir. Eu entrei e imediatamente relaxei. Ele sorriu quando me olhou de frente, e o seu sorriso, circundado pelo rosto magnético e mal barbeado, expulsou a angústia de antes. Ele estava especialmente alegre, e havia colocado para tocar um disco de Keith Jarrett, do qual falara em uma carta entusiasmada, semanas antes. Ele sempre ficava excessivamente alegre quando conseguia comprar algo que não era fácil de achar - algo semelhante à minha sensação diante dos objetos curiosos que eu recuperava das trevas alheias e restaurava.

O apartamento era composto por uma peça única, grande, com uma pequena cozinha que se individualizava por causa de um balcão baixo, e, ao fundo, perto da janela da varanda, um banheiro. Nesse cômodo espaçoso, havia uma cama, no lado oposto à porta do banheiro, uma mesa pequena de cozinha, um sofá surrado e estantes em todas as paredes, do chão ao teto, cobertas de livros desordenadamente distribuídos.

terça-feira, 17 de março de 2009

Tântalo polímata - segundo movimento

Quando eu era criança, tinha certeza absoluta que minha vida seria extraordinária, em todos os sentidos. Emprego perfeito, casa dos sonhos, carro de luxo, dinheiro para fazer extravagâncias e deixar as pessoas felizes. Foi assim que eu vi o mundo ajustado, sem ranhuras. Era assim que meu tio vivia, sóbrio, responsável, sério e, ao mesmo tempo, sempre bem, contente. Ele era advogado, tinha um carro bonito e sempre me dava uma nota gorda nos domingos que visitava nossa casa. Minha família não ia mal, nunca foi, mas também não éramos ricos - nos reuníamos aos fins de semana, fazíamos macarrão, maionese, carne assada, e simplesmente falávamos das mesmas coisas. As crianças, como eu, então, dos brinquedos, da escola, das encrencas; eles, os adultos, do passado, dos parentes, dos escândalos triviais de vizinhança. Cresci querendo ser meu tio e romper a mediocridade; em parte, construí essa vontade, em parte, imbuiram esse sonho em mim.

Eu cresci, e como a lógica da vida não respeita planos de pessoas absurdamente comuns, meu caso, as coisas não aconteceram exatamente como eu queria que acontecessem. Não há nada excepcional a ser mencionado: aspirações literárias frustradas, curso de Direito frustrado, concurso público de nivel médio, salário médio. Tudo mais que se possa falar de mim é vergonhoso e irrelevante. Preciso apenas reconstruir uns poucos passos que me levaram até ele, naquela sexta-feira chuvosa, no café de uma livraria.

Apesar das amarguras do não-ser, ou do "não-ter sido", eu me conformara em crer-me um homem feliz. Família por perto, apartamento próprio, trabalho estável, tempo livre para me dedicar às minhas paixões: ler, pedalar e garimpar objetos antigos. Relendo essa descrição, chego a rir de mim mesmo: que tipo de pessoa busca coisas velhas, sem valor, e as coleciona? Sei lá. Acostumei-me com os olhares de reprovação da faxineira e de minha mãe; depois de um tempo, elas pararam de reprovar e, até mesmo, de questionar sobre as novas aquisições. Pouco tempo ainda depois, a faxineira deixou de limpar os objetos menores e essa tarefa foi acrescentada aos meus hobbies. No geral, portanto, eu era um homem ilusoriamente pleno e, ao menos diante dos poucos amigos, um tremendo sortudo: sem crianças, sem esposa gorda, gastos menores que o salário, saúde e poucos problemas maiores que um chefe de seção neurótico e uma certa inveja de poucas pessoas - algo sobre o que não quero comentar. Assim eu vivia e assim me achava realizado. Até encontrá-lo na livraria.

Como não tivesse grandes compromissos financeiros, eu estabelecera um complexo sistema de premiação para mim mesmo, baseado no cumprimento de certas metas e, é claro, no intervalo de tempo entre um prêmio e outro, bem como na disponibilidade de recursos. Com meu salário, acrescido por pequenos serviços de revisão e tradução de textos, eu me presentava com um fim de semana por mês em alguma cidade maior, geralmente São Paulo. O bônus incluia viagem de carro, hotel em local central, almoço módico, porém jantar em local refinado. Cinema, talvez teatro; e uma visita à livraria com um polpudo limite de crédito, o que me garantia a leitura do mês todo, às vezes um pouco menos. Metodicamente, esperava a primeira sexta-feira após o pagamento, acertava minhas contas, comprava um presente para minha mãe e, do restante, retirava uma quantia razoável para fazer meu passeio sem peso na consciência. A semana em questão era sempre tensa, os dias não passavam, nem as horas. Eu mandava lavar o carro, calibrar os pneus; separava as roupas dois dias antes, pois na sexta, pela manhã, pedia para a faxineira passar as calças, camisas e camisetas de novo, de modo que ao sair do trabalho, por volta das quatro da tarde, bastava chegar em casa, tomar banho, pôr a mala no carro e cair na estrada. Alguns poucos amigos, sabendo desse hábito, já tinham se aventurado a insinuar um pedido de carona, ou mesmo a ideia de partilhar o quarto do hotel e algum programa noturno. Quando mais jovem, eu topava, até gostava; com os anos, tornei-me mais sistemático e repeli qualquer investida: era meu tempo, meu prêmio.

O dia em que o conheci começou como outro qualquer: gente demais na repartição, telefone tocando repetidamente, calor abafado, insinuando chuva. Almocei sozinho, dei alguns telefonemas que devia fazia algum tempo, liguei para minha mãe, perguntando se ela tinha gostado do elefante de porcelana que eu comprara numa loja exotérica. Comi uma bobagem qualquer em uma lanchonete, assim teria tempo para sacar dinheiro, passar em casa para pagar a faxineira e fazer a mala, alimentar minhas gatas e aguar as plantas. Fiz tudo de modo cronometrado e voltei à repartição cinco minutos antes do horário certo. Dei um jeito do chefe me ver pouco mais cedo, banquei o funcionário solícito, falei alto, circulei com passo firme, pareci nervoso e tenso. À hora do café, por volta das três da tarde, fingi dor de cabeça e estômago embrulhado. "Deve ser o calor e essas porcarias que você come", palpitou uma colega gorducha e solteira, talvez desejosa de cozinhar para mim por todo o sempre, amém. O fato é que colou: o chefe deu um tapinha nas minhas costas, me mandou embora e disse que traria folhas de sei lá o quê de sua chácara, para meu mal-estar. Agradeci com o melhor riso amarelo de minha boca ansiosa e saí, coração levemente acelerado.

Tomei banho, fiz a barba, arrumei o cabelo com mais cuidado que o normal. Revisei carteira, mala, bolsa de remédios (apesar da saúde perfeita, preciso andar sempre com certas drogas lícitas, apenas por segurança). O relógio marcava três e quarenta. Quase uma hora de antecedência. Desci para a garagem, deixei a chave na portaria para que a mulher do zelador cuidasse de minhas gatas no sábado e no domingo e, finalmente, lancei-me à estrada. Eu pensava sempre em tudo: viagem direta, sem paradas. Dois CDs especialmente gravados: cento e quarenta minutos de música até eu chegar no destino. Obcecado pelo gerenciamento do tempo, eu tinha mandado instalar um daqueles aparelhinhos que permitem passar diretamente pelos pedágios; era assim que eu garantia que, na última música do segundo CD eu já avistaria o Pico do Jaraguá, quando seria já possível sintonizar as rádios de São Paulo e receber notícias do trãnsito. Com o tempo, tornei-me perito em evitar engarrafamento e aprendi como me esgueirar por ruelas estratégicas até meu destino, perto da Avenida Paulista.

Cheguei precisamente às sete e meia na garagem do hotel. Fiz o check-in, deixei a mala no quarto, pendurei uma camisa que vestiria no sábado e saí de novo, a pé. Meu roteiro incluia cinema ou livraria na sexta-feira à noite, antes do jantar. Por razões misteriosas, mesmo passando vários filmes de meu interesse, preferi a livraria. Peguei uma folha cuidadosamente dobrada, na qual eu digitara os nomes do livros de que, ao longo do mês anterior, ouvi falar por amigos, ou sobre os quais havia lido em jornais e revistas. Minha cota quantitativa eram dez livros; nem sempre o dinheiro destinado a eles era suficiente e em nenhuma ocasião foi o bastante para exceder a marca dos dez.

Quando eu deixei o hotel, uma leve garoa começada a cair. O céu róseo, não sei se de nuvens, ou de poluição, me deixou feliz, bem-humorado. Eram apenas quatro quadras até a livraria. As próximas horas seriam decisivas, mas a vibração da cidade não deixou que eu intuísse isso; fui caminhando inocente do destino e, de certo modo, penso hoje que não podia escapar dele, de um jeito ou de outro.

segunda-feira, 16 de março de 2009

Tântalo polímata - primeiro movimento

O nome não importa. Era isso que estava escrito na papeleta ao lado do botão do interfone, na rua. O edifício era bem localizado, rua valorizada, muitas árvores, sinagoga, pessoas bem vestidas, homens de terno preto e gravatas douradas, sempre douradas. Havia sempre o cheiro da urina dos mendigos no ponto de ônibus, e é claro, a urina dos gatos - mas essa tinha algo de poético dos telhados, do musgo, do tempo. Diante disso, o nome realmente não importa; e foi assim que nossa relação - não sei de de amizade, não se de ódio ou cumplicidade, começou quando fui encontrá-lo pela primeira vez em seu apartamento.

Tínhamos nos conhecido meses antes, no café de uma livraria, por mais implausível que isso possa parecer. Dois estranhos, gostos diferentes, livros diferentes, mesas diferentes; simplesmente aconteceu. Ele sorriu, balançou um livro do Bataille (que, de certo modo, dialogava com outro que estava na minha mesa) e eu sorri de volta, sem jeito. Nossa cumplicidade começou assim, literária, requintada. Tomamos nossos cafés e discutimos banalidades de vestíbulo; depois falamos muito de livros, de filmes, de trabalho. Ficou claro, desde logo, que seríamos amigos, mas amigos camaradas, e que trocaríamos cartas, mandaríamos livros com dedicatórias um para o outro, partilharíamos o que não podíamos partilhar com mais ninguém. E ficou claro que nossa amizade seria nosso segredo. No começo achei estranho, porque foi tacitamente que essa cláusula se unstaurou entre nós; depois de muito tempo entendi.

Conversamos à distância por meses, mas muito pouco por e-mail ou telefone. Ele falava pouco sem ser tête-a-tête (ele gosta esta palavra, gosta de dizê-la estalando a língua e rindo); preferia as cartas a qualquer outro meio, e assim nos correspondíamos tão estranhamente. Suas cartas vinham sempre em um envelope do Banco do Brasil, com meu nome digitado no papel por trás do plástico na face do envelope. Não lembro se ele me disse alguma vez como fazia isso, mas sempre ri dessa brincadeira - era o modo que ele achara de manter a confidencialidade de nossas cartas.

Semanalmente, trocávamos ideias sobre tudo que nos interessava, de livros a programas de televisão, de culinária a futilidades domésticas - nós dois temos gatos, e esse era nosso assunto fútil por excelência. Demorou até que ele se abrisse um pouco comigo e dissesse algo sobre sua vida pessoal - amor, sexo, angústias, medos. Uma tarde, antes de sair para meu treino diário na academia, recebi um envelope de outro banco, não me recordo qual, e havia uma carta muito breve, falando sobre um pulga descoberta em um edredon. Achei graça na hora, guardei a carta no meu escaninho de correspondência e fui treinar. Quando voltei, havia ligações dele em meu celular, várias. Liguei de volta e não obtive resposta. Liguei a noite toda, mas só no dia seguinte consegui falar com ele.

De fato, uma pulga aparecera do nada em seu edredon. Magra, sem sangue algum dentro (ele a estourara entre as unhas dos dedões). Fiquei mudo no telefone, pensando no que dizer e, de certo modo, duvidando de sua sanidade, mas ele logo desviou meu silêncio e disse que a pulga fizera com ele percebesse que estava muito sozinho, que sua existência era como a da pulga, perdida e faminta na imensidão de tecido branco, do vazio. Ele, então, fez uma pausa, pediu desculpas pela desabafo e disse que precisava sair, algo refenrente ao trabalho, e desligou.

Eu, que já ouvira coisas bem piores de amigos muito mais próximos e queridos, permaneci sentado na sala de meu apartamento uns bons trinta minutos, pensando na metáfora da pulga. Primeiro, a achei boba; depois, ponderei que para ele se expressar assim, de fato havia algo fora dos eixos - o que não me pareceu surpresa alguma em se tratando de quem era. Saí de minha inércia para ir trabalhar, mas antes fui cuidar de minhas gatas (só tenho fêmeas, coisa do acaso). Limpei a caixa de areia, troquei a água da vasilha e pus um pouco mais de ração. Parei na cozinha, conferi o que precisava ser comprado - pão, requeijão, granola, biscoito de chocolate, algo salgado para comer vendo tevê - e peguei minha pasta. Sobre minha mesa, entre a bagunça habitual de papéis, provas, livros, um volume amarelado que ele me enviara umas semanas antes, todo grifado, com o título "American drama". No dia que o recebi, coloquei na pilha sobre a mesa apenas vi que havia grifos - eu já conhecia o livro e sabia que era uma antologia do teatro norte-americano básico, Tenessee Williams, Eugene O'Neill, Arthur Miller. Agora, com a história da pulga, peguei o livro e decidi olhar.

Os grifos foram feitos a lápis, inicialmente, e destacavam falas angustiadas de diversas personagens. Por um instante considerei deixar para mais tarde a leitura, mas então vi uma página bastante rabiscada com várias setas, feitas com tinta vermelha. Um dos grifos chegara a rasgar um pouco a página de papel-jornal, bem abaixo do nome Blanche. Na fala em questão, Mitch, uma personagem da peça, tira um anteparo de papel ordinário de uma lâmpada e aponta a luz para o rosto de Blanche. A luz revela a pele envelhecida, a mocidade perdida; Mitch fica chocado e diz que ela deve ser realista e não fugir dos fatos, ao que ela responde odiar o realismo. Os grifos paravam nessa página, em cujo canto inferior ele rabiscara o homenzinho desesperado do Münch. Foi nesse dia que resolvi ir vê-lo, e foi quando descobri que o nome que eu nunca soube de verdade não importava.

domingo, 15 de março de 2009

Traumnovelle em microescala

Há algum tempo, deixei de acreditar em coisas mágicas que simplesmente acontecem, do nada. Tornei-me calejado e um pouco insensível, talvez até mesmo desconfiado demais para perceber sutilezas do destino. Quando me dei conta disso, senti alívio: transição, mutação, evolução. Não mais decepções, não mais tardes de domingo à espera de algo desconhecido, imaterial, impalpável. Isso foi minha concepção dolorosa do amadurecimento e, como tudo que acontece inexoravelmente, acostumei-me à ideia.

Naquela noite, algo de fim de tarde, crepúsculo, desci a rua caminhando, calmo e, ao mesmo tempo, ansioso. Entraria, assim, desarmado, no labirinto do Minotauro? Era o mais plausível, afinal fora para isso que eu me preparara, era o que eu queria. Fascina-me o insólito que há nas fortes transições dos portais: de repente, da calçada penetra-se em um outro mundo, completamente estranho à vida basáltica da urbe, lá fora. Vapores, tons de vermelho mesclado à luz branca que se insinua, singela, por frestas e portas entreabertas. Penso em Dom Sebastião cavalgando através da neblina da madrugada e incorporo um tanto dessa inconsequência. Quero ser assim, sem medo, livre, imortal.

Entre o ser e o dever ser há vãos conceituais. O homem seria tão mais livre e pleno se tudo fosse claro, objetivo. Mas, não, nada é assim. O bicho primitivo é mais forte, sua cauda pesada nos arrasta para longe da superfície e acabamos transitando pelo tempo do lodo, do barro. Se não fosse tão primitiva a necessidade de entrar no incerto, nada me teria acontecido e a vida seria, ainda, como a de antes - talvez não exatamente igual, mas sem qualquer diferença realmente significativa. Por isso celebro o pântano em mim, o crocodilo e a rã, catedrais góticas da alma que, na noite do alumbramento supersticioso, dobraram sinos pela boa fortuna.

Atravessei os umbrais que separam os dois mundos e não pude deixar de pensar quão surreal era aquilo. Hesitei um instante, não mais que isso: instinto, quem sabe. Entrei. A neblina era bem menos densa que nas fantasias do jovem rei; minha madrugada crepuscular foi bem mais nítida e graças a essa nitidez meus olhos puderam achar outros olhos, mesmo quando todas as probabilidades indicavam que isso seria impossível.

O modo como aconteceu é tão vívido na minha memória como todo o resto, mas falar disso é como conspurcar uma epifania. Por outro lado, considero a possibilidade de, com o passar dos anos, a memória me trair e algo disso tudo se perder. Opto por registrar tudo e, assim, assenhorar-me da materialidade da lembrança.

Começou com um olhar de esguelho. Incrédulo parei, detive-me em contemplação e desejo: seria mesmo real, naquele espaço de interseção entre dois mundos, alguém como ele, perdido, pálido pela luz branca que rompia a escuridão? Observei por um tempo e depois me perdi. Nas incertezas do labirinto, a escuridão é o próprio caos e o que me restava senão o caos. Mas qual não foi minha surpresa quando sua mão me tocou e me disse que era de verdade, que não era sonho, que não era feito de sonho - ainda que esta última possibilidade não se tenha descartado por completo.

O que seguiu é difícil de descrever ou narrar; o fluxo onírico foi complexo - música, calor, suor, estalos, ruídos, desejo. A carne não exige reparações, não cobra os pecados que, na verdade, não são pecados. A alma dentro dela é outra coisa, e teria sido uma equação simples se, em algum instante, meus olhos não tivessem se perdido nos seus olhos. Imensidão de mar incerto; vagas marolas silenciosas; valquírias e tempestade.

O resto foi explosão e o ato em mim ecoa, rompendo uma forma de noite que se instalou quando eu perdera minha fé. Não sei se a fé voltou, mas lampejos verdes, de um verde muito claro, atravessam a escuridão.

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2009

Breve passagem antes do caos

As cidades provincianas talvez não existam mais. Deixou de haver alguma vantagem em viver longe das metrópoles, das big apples: as pessoas não se conhecem como antes, não destilam o veneno lento que, na sedimentação, forjava as melhores caldeiras do diabo. O que restou foi a limitação de viver onde não há nada além do básico; e o corpo é básico.

Gosto de recriar sensações que apenas intuo ter tido. Minha terapeuta disse que isso é parte de um processo obcessivo e auto-defensivo. Não creio muito e não gosto de pensar nisso; eu sei o que é defesa, e sei o que é defesa em mim - e, definitivamente, está longe do meu conceito de feng-shui. Ou não. Preciso ser honesto: não se trata de feng-shui; é algo maior, um pouco compulsivo (a louca estava certa nisso), porém plenamente consciente. É como um jogo, mas arquitetado nos meus moldes, não tenho como perder, jamais.

Eu preferia sentir remorso; ter aquele nó que, um pouco acima do estômago, faz subir um gosto de fel na boca. Não sinto. Nada. Sou meio egoísta como o crocodilo do Guimarães Rosa: quero as benesses da superfície e a exclusividade das profundezas. Não deixo espaço para reveses e não creio que isso me torne menos humano ou honesto. Há um que de competência nisso; não, porém, a sensação de superioridade. Na verdade, eu me vitimo com essa condição.

Ponderando bem, não tenho o dom para ser algoz; é mais simples ser a vítima, o injustiçado, o massacrado. A força que vem do sofrimento nos blinda, mesmo que nossa carne seja exposta pelo inimigo. Se eu tivesse descoberto isso sozinho, seria um homem rico - os judeus que me desculpem o cinismo, mas rendo louvores a eles (na minha relativa ignorância histórica de outro povo que tenha se tocado disso antes). Sarcasmo retórico à parte, pondero: é ruim sofrer, mas ainda é melhor que fazer sofrer. Paradoxo para alguém que não sente remorso? Olhando com a vista turva pela parcialidade, sim. Não é o meu caso.

Apesar de solitário por natureza, o amor me conduziu para edens de calor familiar e coletividade, e vivi isso - vivo, na verdade. Amo e deixo de ser eu. Eis o mecanismo da dor, sem mistérios. Viciei-me nesse amor do aconchego e hoje, ao mesmo tempo que ele me corrói, na medida em que destila minha essência em um refresco da minha autenticidade, parece ser a única ilha em que não há sofrimento.

Continuo na poça, insaciável e tendo diante de mim um anjo vingador. Nosso tempo não é tempo de nada, é uma era que acabou. O que está por vir é menos que mistério, é tão somente uma espécie enlouquecedora de vazio. O relógio, no entanto, se move. Vou sair: na metrópole inventada, caos de edifícios e trânsito me conduzem pelo labirinto de uma vida também inventada.

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2009

Reinventando Pátroclo - apenas um esboço caótico

O cheiro de seu corpo era doce como a juventude que transbordava para longe de mim, dia a dia. Mais do que a beleza dos traços, do desenho dos músculos sob a camiseta, o frescor da pele levemente morena, o sorriso de quem ainda não teve desilusões, havia uma espécie de perfume imaculado que me lembrava das primeiras vezes que tive outro corpo junto ao meu e o amor era tão mais simples e forte e bom. Subitamente, a presença de um estranho me transportou para uma outra era, passado tão próximo em anos e, ao mesmo tempo, tão intangível, perdido, implausível agora, que os rumos da minha vida me trouxeram até aqui.
Estar ali fez com que eu me sentisse ancestral e calcinado no jardim de estátuas da minha geração, coberto por uma espécie de musgo mais transcendental que o tempo. Eu envelhecia, era inegável, e a juventude dele era ainda mais dolorosa porque, ao dialogar caoticamente com a minha ainda jovem idade, me lembrava não o que eu era, mas tão somente do que acabara de passar por mim.
O tempo teria menos significado se nós fôssemos outros, creio. Caminho pelas ruas da cidade e o fato de ser esta cidade não muda nada; qualquer cidade seria ainda a minha cidade, ou talvez a questão não seja a cidade. Caminho e me deixo guiar pelo olhar, algumas vezes pelo tato. Ando sem objetivos sólidos e busco ruas desertas, com árvores velhas e casas em cujo interior só haja memórias, não vida. Mas as casas infelizmente sempre têm alguma vida; não raro uma ou mais vidas, hoje tão sem sentido, ínfimas, vazias e tristes.
*****
Gosto, ao encontrar uma velha residência de uma época mais glamourosa que esta nossa, de me deter diante do muro ou das grades, quando ainda os há, e olhar, sem pressa e, na medida das minhas fraquezas, sem paixão. Toco algo de sua matéria decrépita, um pedaço de sua madeira ressequida ou podre, uma lasca da tinta que já descasca, um caco de vidro, e me deixo invadir pela lembrança imaginária das histórias contidas ali. Imagino a aurora do prédio, quando pela primeira vez os primeiros habitantes penetraram seu interior e sentiram o cheiro do verniz e da tinta novos, e correram seus dedos pela textura ainda virgem das paredes e ladrilhos, tão puros e sem cancros que poderiam toca-los com a ponta da língua.
Transporto-me para dentro dessa casa que já fora e de repente sou eu que sinto, sinto tudo, o cheiro da cambraia fina das cortinas novas, a finura da laca nos móveis da sala, o frescor do linho nos lençóis trazidos da Ilha da Madeira e que foram presente de uma tia já defunta. Percorro corredores em busca de sensações, percebendo a feminilidade confortável das reentrâncias da casa, algo outrora já cantado pelo poetas das arestas e que agora não passa de mais um fantasma que me habita.
Como me alegra o ranger do assoalho novo, tão mais leve e sibilante que o grito de desespero das taboas da casa velha. Caminho e quem eu sou contrasta com o que foram as pessoas que devem ter morado ali. Atravesso cômodos e, como um fantasma, me alimento dos sonhos dessa gente que desconhece o que virá e que não imagina, ou não quer imaginar, o que será de seus sonhos, sua felicidade.
Forço meus sentidos e já é possível sentir o cheiro da lenha no fogão, o perfume do café e do bolo, o tilintar das xícaras e dos talheres. Sobre a mesa de uma copa imensa, vejo espectros acinzentados de crianças comendo e rindo, servidas pela matrona gorda e sorridente, orgulhosa das manchas em seu avental e das panelas ariadas e brilhantes penduradas na janela. Estendo minha mão suavemente em direção de seu rosto e me compadeço da inocência e simplicidade; na rendinha já gasta da gola de sua camisa, uma medalhinha de São José, evidência de uma fé que certamente vai desaparecer, talvez no dia em que o primeiro filho for velado naquela mesma mesa? Talvez no dia em que o marido for embora e não houver guerra ou manto sobre o qual descontar as tristezas da solidão? Ou talvez, quem sabe, se o coração dessa mulher for menos nobre do que se imagina, no dia em que seu fogão for cimentado e der lugar a uma caixa de lata e botões? Ou mesmo quando não houver mais lençóis e toalhas da Ilha da Madeira e tudo o que restar nos baús seja apenas a lembrança, mofada e decrépita lembrança daquele primeiro dia quando tudo, ela e a casa eram jovens e não desconfiavam de nada.
*****
Volto da vertigem e estou parado na rua, mais triste do que antes, com o coração pesado e angustiado. O drama do tempo me atravessa, me mastiga. Minha mortalidade é ofensiva e me desespera menos pela perspectiva da morte que pela idéia do processo de infelicidade, tão cruelmente oposto ao do nascimento de uma casa. O tempo que nos despovoa me assusta e o frio do cair da tarde me faz colocar as mãos nos bolsos e me apressar. O céu de inverno se pinta de cores indefiníveis e traz consigo a noite; é hora de voltar, mas para onde?
Minha geração não constrói mais templos, ainda que alguns de nós tentem, devo confessar. Tudo o que temos é imediato, é o que está mais próximo. Somos, quando muito, caracóis de uma época de caos e incertezas, habitando conchas conceituais. Volto e o retorno me soa tão metafórico e desesperador... Meu templo é este corpo, minha moeda e minha espada, minha clave de crueldade e poder sobre todos os outros e também sobre mim, por mais paradoxal que pareça.
O destino ao qual os passos me levam é menos o lar que o refúgio. Escondo-me por sob os escombros de um mundo projetado apenas em mim mesmo, razão pela qual me sinto mais honesto em considerá-lo minha toca que minha casa. Nesse lugar onde deposito os produtos de meus crimes, habito em constante capitulação, negando e negando tudo através da busca pelo que já não é mais, pelo que já não pode me pertencer mais. E foi ao retornar a este universo paralelo dentro de meu apartamento que entrei no elevador com Pátroclo e subitamente reencontrei as razões da minha guerra.
Este foi meu ponto naquele momento, nada mais. Ao entrar naquele elevador, numa tarde qualquer, não importa, esse foi o pensamento que me veio, simples: o cheiro do seu corpo. É aqui que começa minha história, ou talvez termine a minha verdadeira história, não posso dizer ao certo.

Primeiro movimento – hino dos mortos

Apesar de ser março e o calor dos dias anteriores não permitir nenhuma evidência do outono, o frio chegou com a neblina noturna e a chuva da manhã. O barulho das gotas metálicas na janela do quarto despertou primeiro A., que dormira com a cabeça voltada para os pés da cama e pôde sentir o ar fresco que passava pelas frestas quando o vento soprava com mais força. A luz no quarto era cinza, talvez azul, mas seus pensamentos o levaram a considera-la especialmente triste naquela manhã. P. enrolara-se no edredon e seus pés, descobertos, estavam frios. A. tocou-os com a ponta do nariz e teve vontade de não estar ali, simplesmente desaparecer. Lamentando não ter hábitos escapistas, como o cigarro ou o álcool pela manhã, levantou da cama sem fazer barulho e foi ao banheiro.

Era incrível como a sensação de frêmito nos flancos causado pela mijada matutina tinha o poder de lhe dar sanidade e paz. “Eu existo porque mijo”. Pensava e ria sozinho. Bobagens. A pia e o aparador bagunçados, frascos abertos, restos de coisas indecifráveis coladas na superfície de cerâmica manchada da pia, pêlos, fiapos de algodão. A. preferiu não pensar nisso hoje, talvez nunca mais.

Não gostava de andar nu pela casa, mas não era ainda hora de se vestir. Caçou uma bermuda no mancebo atolado de roupas – outra coisa sobre a qual não pensar – e desceu para a cozinha. “Descer” é uma tremenda força de expressão, mas ele, que fora criado em um sobrado antigo, numa rua em ladeira, em algum lugar distante, sentia-se reconfortado em pronunciar, ainda que apenas em sua mente, tais palavras. Descer para a cozinha. Foi, provavelmente, a primeira evidência que P. teve sobre as idiossincrasias de A., mas a esta altura P. não sabia o que era uma idiossincrasia, tampouco A. se importava com as opiniões do amante.

No apartamento compacto, a cozinha limitava-se a uma faixa funcional e A. buscava apenas a mesma caneca de sempre e o vidro de café solúvel. Em outros tempos, sua dignidade pessoal o levaria a uma padaria, ou mesmo em uma dessas lojas de fast coisas que hoje servem algo curiosamente designado como café. Hoje, porém, era diferente e o vidro de café solúvel, mesmo com a validade expirada, teria que servir.

De volta ao quarto, A. recostou-se no batente, espreguiçando-se enquanto tomava a lavagem amarronzada na sua xícara de estimação. O apartamento era antigo e sobre a porta ainda havia uma espécie de abertura com treliças cobertas de pó. “Preciso de outra faxineira”, pensou A., esfregando os dedos sujos de pó na parte interna da bermuda. Seus olhos, então, encontraram o corpo de P. se contorcendo em despertar lento, felino, lascivo. A. apaixonara-se meses antes por este modo de se contorcer com que P. se alongava depois dos exercícios. Viram-se pela primeira vez em um parque, e depois os encontros tornaram-se mais e mais freqüentes, em lugares diferentes, inusitados. No saguão de um edifício comercial trocaram olhares de cumplicidade e os telefonemas vieram depois, coisa intermediada por uma amiga. Natural, ambos eram, cada um a seu modo, estranhamente tímidos e reservados com relação a essas coisas de aproximação e relacionamentos.

A primeira vez que o celular tocou, A. estava dirigindo e não quis atender, não sabia quem era e a música que estava tocando no rádio era mais envolvente que a perspectiva de uma chamada por engano ou algum serviço de telemarketing. Sua cabeça dividia-se entre a mínima atenção necessária ao trânsito e algo que estava lendo. Muito tempo depois, pensando sobre o episódio, lembrou-se que o livro em questão era Morte em Veneza, e que ao tocar o telefone um certo arrepio lhe percorreu as costas. E então tudo fez sentido, como tinha que ser.

P. entrou na vida de A., e não o contrário. O contrário, aliás, jamais aconteceu ou viria a acontecer. Não houve muita discussão quando P. mudou-se para o apartamento do amante, gradativamente, como o avanço de uma febre que amolece o corpo; A., distante das questões banais do cotidiano, sempre imerso nas coisas maiores, viu a metástase do amor nas coisas novas que, dia após dia, passaram a dividir lugar com as suas. A invasão era paga com a graça do espreguiçar de gato safado de P., seu sorriso alvo de quem ainda não tem assombrações e seus olhos... seus olhos.

P. era, quando mais jovem, atlético, não forte ou musculoso demais, mas apenas atlético. Seu corpo refletia a beleza equilibrada de um dançarino, com braços e pernas proporcionalmente definidos e que se desenhavam sob a calça jeans e a camiseta que costumava usar. Ao contrário dos pares de sua geração, P. exercia sua cota de futilidade em outras coisas, pequenas delicadezas consigo mesmo e com as pessoas mais próximas. A., no entanto, achava que era a graça de seus movimentos, nem másculos demais, nem afetados, que o destacava na multidão. Ao se aproximarem pela primeira vez, no entanto, P., tímido, manteve a cabeça baixa, olhando de lado e apenas rindo abafado. A., menos nervoso, talvez pela experiência da vida, achou curioso o gesto do outro e carinhosamente ergueu seu queixo com as pontas dos dedos. O que emergiu foi um rosto cândido como A. jamais vira antes em outro homem; algo intraduzível que mesclava uma claridade angelical a traços comuns, nem grossos, nem finos. Os olhos, no entanto, azuis como o céu de julho no cerrado, atravessaram A. de ponta a ponta. Acostumado a ser guiado pelo desejo, A. sentiu uma vontade imensa de abraçar o rapaz e nunca mais solta-lo, como se retê-lo entre seus braços fosse trazer algum tipo de redenção ou paz. Os olhos de P. foram, assim, a ponte para o amor entre eles.

A. tentou defini-los em um parágrafo, certa vez, quando conversavam sobre outras definições de olhar. P. ressentia-se de certa indiferença de A., um constante isolamento e sisudez que não permitia que o amor fosse, mesmo em situações mais afetuosas, traduzido em palavras. A., ante o comentário, ergueu os olhos de um livro e disse, mais doce do que jamais fora com o outro antes: “seus olhos sempre foram poesia para mim, só não sei tirar esses versos do meu coração, mas eles estão lá, sei disso”. P. contentou-se e pediu para que A. falasse mais, ainda que não fosse sobre ele. Deitou-se ao lado dele no tapete da sala e, de olhos fechados, ouviu A. falar sobre os mistérios e a magia do olhar.

Assim era que se amavam e se doavam um ao outro. Naquele dia, no entanto, A. observava o amante, namorado, marido – os rótulos eram tão sem sentido quanto o foram desde o começo – e sentia apenas um grande vazio no peito. Depois de todos os anos que passaram juntos, o que restara de P. deitado naquela cama eram apenas lembranças de um amor que passara e não fora capaz de tirar A. de sua letargia amaldiçoada, de sua esfera de egoísmo eterno na qual a matéria parecia sempre transcender o espírito e que esteve sempre fechada a P. Com os anos, vieram os efeitos de tempo e os olhos de P. se embaciaram, ou A. se fechou para sua magia, não é possível saber; o fato é que e a poesia desapareceu – a única razão para dividirem o mesmo teto desapareceu e somente A. sabia disso.

A névoa da manhã, chuva fina e constante e fria do outro lado da janela. P. imóvel, plácido e ignorante, alienado em sonhos que A. jamais quis penetrar. Os sons do lado de fora não ousavam invadir o labirinto de dentro e nada se mexia. Roupas espalhadas pelo chão, almofadas jogadas sobre o tapete, uma xícara adormecida sobre a mesa. O cenário convidava a imobilidade e A. recostado na porta, olhava para o longo caminho de pêlos que subiam de seu púbis até o umbigo, lisos e grossos, ordenados. Os pensamentos não se firmavam, assim como as vontades e as decisões, e a sensação de impotência transmutava-se em mantra, junto com a chuva e a imobilidade do quarto. Quadros dentro de quadros e as múltiplas formas desse feitiço dançavam com os dedos a brincar no rastro de pêlos.

A. pensava em gatos nesses momentos. A imagem da firmeza felina diante do antigo muro encimado por cacos de vidro verde, o caminhar elegante, determinado e, ao mesmo tempo insano. D. Sebastião cavalgando pelo nevoeiro em Mafra, olhos fechados e braços abertos. De volta aos gatos, apenas lembranças. Já não havia mais gatos na casa e isso era triste. A. parava, então de pensar neles e se sentia obrigado a retomar o curso da vida. Era hora de acordar P.

Aproximando-se da cama, A. via a curva das costas de P. que desciam, como um rio constante e robusto, dividindo-se em um delta de poucos e louros pêlos, formando as duas covinhas acima dos glúteos, ainda firmes como anos antes. A mão fria de A. percorreu a coluna, sutilmente massageando os músculos lombares do amante adormecido. P. espreguiçou-se e, incomodado, pedia por mais tempo, mais sono. A. subiu a mão fria e apertou mais fortemente os músculos dos ombros de P., como um consolo ou uma condolência. Instintivamente, talvez, P. abriu os olhos e toda a dormência tinha ido embora, algo nele dizia que o assunto era sério.

- Bom dia – disse A. suave, mas sem carinho – quer café?
- Hum? Café? Não, não. Quero água, por favor.

A. entregou o copo que estava no criado-mudo e massageando a própria nuca, continuou.

- Preciso conversar com você. Quer tomar um banho primeiro?
- Que foi? Aconteceu alguma coisa? Minha mãe ligou?
- Não, fica tranqüilo, não é nada com a sua família, nem com ninguém. É comigo.
- Aconteceu alguma coisa com você? Ta tudo bem?
- Toma seu banho, eu vou fazer algo pra gente comer, ta?
- Você... você vai terminar comigo?
A. nesse instante sentiu a determinação esvair-se e tudo o que restava de pé em seu templo de determinação e verdades eram os olhos de P., sem doçura, mas também não mais embaciados como antes; apenas os mesmos olhos de quando, alguns anos antes, o cão deles morrera.
- Não, claro que não. Toma seu banho e desce para comer algo. Quero te levar a um lugar.
Nesse momento, P. abraçou A. e lhe dando um beijo no pescoço, apertou seu corpo com tanta força que alguns ossos estalaram. Não havia como não ceder e a chuva fina deixava a manhã ainda mais fria. A. foi para a cozinha, mas não quis fazer nada. Iriam sair e comer algo em uma padaria. Olhando no canto vazio onde antes ficava a tigela de comida do último gato, pensou que apenas eles, os gatos, eram capazes de coabitar sua solidão. E decidiu-se: era hora de sair e trazer outro gato. P. certamente não faria objeção, não agora.

Fim do primeiro movimento.


Segundo movimento – flor de carne em sábado sagrado

O som da serra elétrica cortando a madeira era como um canto desesperado que se tornada mais e mais agudo até que a taboa finalmente estivesse partida. O mesmo ruído, repetidas vezes, ecoava por toda a casa e foi o que despertou A. em seu escritório. Por todos os lados, empilhados ou em caixas de papelão, seus livros e demais pertences que ficavam adstritos àquele espaço sagrado no qual ninguém mais era admitido para uma estada maior que uma conversa ou um breve recado.

No começo, mas apenas no começo, não havia esse ciúme pelo espaço privado dessa Alexandria reencontrada no cômodo menos iluminado da casa velha que A. comprara logo quando se mudou para *****. Já naquele tempo, os vizinhos tentaram alertá-lo de que não era um bom negócio. “Muito cupim”, “encanamentos e fiação que são uma tristeza!”, “assombrada”. A. ignorou tudo isso, queria a casa desde o momento em que a vira por dentro.

A vinda para a cidade tinha sido algo inesperado. Depois de anos lecionando, a editora que publicou seu livro lhe fez a proposta. O editor-chefe, décadas de carreira sólida, estava muito doente – câncer no fígado. Não havia corporativismo nesse negócio, nem dinastias a serem respeitadas. A. fora indicado por razões que não vêm ao caso e a direção do grupo administrador da editora aceitou de pronto. O salário era bom e as condições de serviço idem. A. não titubeou; era mesmo hora de deixar São Paulo para trás e, apesar de sua juventude ainda estar longe do fim, a sensação de velhice diante de tudo pedia esta retirada estratégica.

A nova cidade remetia a um tempo de antes, antigo, não apenas em anos de história como também em sua alma de cidade. Ruas, praças, igrejas, edifícios, tudo exalava um odor mofento que lembrava a A. o porão encantado da casa de seus avós em Minas. No pé da serra, os dias de sol pleno eram raros, e toda manhã um manto leitoso se espalhava pela cidade, invadindo cada frincha com o toque da umidade e do frio trazidos quem sabe de que mundo mágico distante ou próximo.

A. viera um mês antes de assumir na editora, essa fora uma exigência que fizera para poder de desligar dos compromissos anteriores e fazer os devidos ajustes de sua mudança. O primeiro plano era uma casa pequena, talvez um desses chalés pré-moldados que se multiplicam hoje pelas cercanias de cidades serranas, e que já naquele tempo apareciam como alternativa para os desgarrados como A. Tirando os livros e outras pequenas concessões materiais, não havia muito o que acomodar, nem grandes exigências além da tranqüilidade e de um certo isolamento.

As opções não eram muitas, mas A., de fato, não se preocupava. Queria andar pelas ruas e captar os odores de tudo, das árvores, do musgo que cobria os muros, das pedras antigas dos calçamentos de paralelepípedos que ainda resistiam perto da igreja e do mercado. As pessoas, essas não o interessavam particularmente, ainda que fosse enigmático o modo como parecessem ignorar a aura mística de imobilidade que cercava cada objeto imóvel por ali. Impressionou-o, particularmente, a inexistência de qualquer referência material à contemporaneidade dos tempos, nenhuma edificação que tenha sido erguida nos últimos cinqüenta anos pelo menos, nenhum letreiro luminoso, nada de estruturas metálicas ou telhas de zinco. O único sinal que evidenciava a coerência temporal eram os postes de concreto unidos em seus topos por fios de aspecto oleado negro, grossos e paralelos. No mais, mesmo o posto de gasolina ainda funcionava em uma esquina cortada angularmente por uma edificação bizarra, semelhante a uma bocarra na qual os carros, um a um, entravam e eram atendidos em bombas de aspecto bastante antigo. Padarias, açougues, “pharmacias”, o hospital e as duas unidades escolares ainda se pareciam bastante com a imagem dos filmes antigos.

Todo o resto de necessidades modernas, de aparelhos celulares a supermercados e clínicas de ortodontia, ficava ao lado, em uma outra cidade, maior e sem charme algum. A editora de A., inclusive, ficava neste outro centro, mas a maioria dos empregados morava em *****, fosse por questões de comodidade e tranqüilidade, fosse porque a cidade moderna não parecesse em nada com um lar.

A. tinha pouco menos de trinta dias para resolver pendências de aluguel, coisas velhas no apartamento a serem jogadas fora ou doadas, questões trabalhistas na universidade, despedidas e outras formalidades que o desanimavam um pouco. Optara por uma saída bem simples com relação ao seu apartamento: reuniu tudo o que pretendia manter de seus bens dentro do escritório conjugado com a biblioteca – peça que compunha o maior cômodo do apartamento – e contratou uma empresa de pequenos serviços domésticos que iria se incumbir de jogar fora ou dar o restante das coisas, pintar, realizar os pequenos concertos e limpar tudo. A mesma empresa iria, ao sinal de A., encaixotar suas coisas e livros e fazer o transporte até *****. O tempo que lhe sobrava, então, era para aderir sua existência peculiar e solitária ao novo lar, ainda indefinido.

Algumas coisas se acertaram desde o início, como a padaria (na verdade confeitaria) que ficava ao lado da Agência dos Correios e que guardava o charme particular de um Tortoni, algo bastante incomum em uma cidade de dimensões tão modestas no interior. A. entrou pela primeira vez no lugar e logo se sentiu como uma espécie de Borges arrastado das malhas do tempo. Externamente, era uma edificação antiga, dois andares em pé direito alto, sendo o primeiro todo envidraçado, e o segundo marcado pelos janelões altos, de madeira pintada de branco e verde, com vidros transparentes e detalhes de vidros coloridos no alto. Na parte inferior, os vidros não mostravam muito da parte interna, pois cortinas de renda e tecido branco bloqueavam a visão. Entrando, porém, pela porta de folha larga e maçaneta de bronze impecavelmente polido, dava-se em um salão amplo, de mesas pequenas e redondas que ficavam mais ao fundo. Na frente, o espaço vazio servia aos clientes que entravam para comprar pão, leite e outros gêneros de padaria [continuar]



Terceiro movimento – Réquiem

O reflexo dos faróis dos carros no asfalto molhado formava uma imagem caótica e alucinante aos olhos de quem viesse andando de olhos baixos pelo calçamento largo da Oscar Freire. Era sábado e a chuva dera uma breve trégua nessa noite de final de março. Frio calmo na transição do outono, não há anjos que sigam mais ninguém pelas copas das árvores de antes. A matéria sólida transporta-se em blocos também sólidos e flui nos trilhos imaginários da rua. Uma música que vem de uma loja curiosamente aberta remete a sonhos frenéticos de delírios noturnos e éter. Outro carro passa e o arremedar da consciência se torna mais e mais intenso.

A. emerge misterioso e sozinho de uma esquina suspeita, como, aliás, as são todas em uma cidade crivada de Bacamartes menos ciosos que o mais notório deles. Ele caminha com a mesma atitude de derrota de um certo ex-janota décadas antes, sujeito distinto que se suicidou no Trianon porque lera em algum lugar que os americanos não iriam mais comprar o precioso café de suas fazendas. Raciocínio já agudo e curiosa opção pelo local. Não existe meio de se viver em São Paulo sem um puto no bolso – muitos putos, melhor expondo a questão. Pena que ninguém tenha visto seu cadáver, que foi devorado por abutres tebanos, reminiscências de reis ilegítimos e profanos que perderam a razão nos labirintos do próprio poder. Hoje, uma única árvore em todo o parque ainda guarda a lembrança desse dândi imaculado, paria antecipado dos dias atuais. O resto de nós, apenas sentimos esse sopro funesto que se confunde com o cheiro de musgo das pedras e nos conformamos com a possibilidade do asco, sempre.

O fluxo de pessoas leva-o para a frente e para trás e as vitrines luxuosas são apenas emblemas de seu mundo de escuridão. Havia um sebo na transversal seguinte, mas A. sabia que já dera lugar a um instituto de depilação. Sebos na Augusta não são raros, mas a pornografia barata chocava-o. O melhor talvez fosse comprar uma cueca nova, sensual e ostensiva. Antes ele não imaginava que uma cueca pudesse ser ostensiva; depois de uma noite de anfetaminas e uísque nacional, já sem camisa em uma boate, ouviu de um rapaz musculoso que a sua cueca era quente e que seria legal descobrir o que ela guardava. A. terminou aquela noite em um quarto e sala no Arouche, feliz apesar de tudo, por descobrir que mesmo depois de tantos anos ainda podia acordar ao lado de um garoto daqueles. Estudante de jornalismo, politizado, tatuagem do Che no deltóide (em seu tempo não se usavam essas terminologias) e iPod ao lado da cama. Anos antes, muitos mais do que A. queria lembrar, naquele mesmo bairro, talvez passando pela frente desse mesmo edifício, ele lutou por um país melhor e nem fazia idéia de que seus sonhos morreriam, que ele se tornaria um capitalista do pensamento e que após deixar quase um salário mínimo no caixa da boate, faria sexo com um rapaz quase dez anos mais jovem.

Sem arrependimento, vestiu a cueca, a dita, e se olhou no espelho do banheiro. De fato, era excitante para ele mesmo descobrir que a linha subindo do púbis ao umbigo continuava no mesmo lugar, sem barriga, pele firme, poucos pêlos, peito quadrado de nadador. Era ainda um homem atraente, talvez um pouco cansado no rosto, nos olhos, mas ainda assim bastante capaz de se divertir.

No banheiro, espalhados sobre uma prateleira estreita de vidro, vários frascos com elixires mágicos para A. Cremes com efeito lifting, para o contorno dos olhos, controle disso e daquilo; e o rapaz não tinha nem 25 anos. Não havia por que reprovar; A. sentiu ternura pelo consumismo narcisista do outro e decidiu que ele mesmo se cuidaria mais. Precisa de mais cosméticos e mais cuecas sensuais. Ir às boates e tirar a camisa foram aquisições mais antigas.

Em plena Oscar Freire, não era fácil escolher em que loja entrar para comprar a cueca adequada. Buscou qualquer uma, mas havia um nome em sua cabeça. Algo lido em uma revista, já não se recordava – nem era um hábito seu fixar-se nestes aspectos da vida prática: que marca de cueca é o blockbuster do underwear world. Lembrava que era algo relacionado à Austrália e a modelos lindíssimos cobertos de areia. Pensando bem, areia era repugnante.

Parou na loja da Calvin Klein e suspirou. Anos antes, em Nova Iorque, vira esse nome pela primeira vez, em um mega letreiro na Broadway. O modelo, musculoso – da Era pré-musos anoréxicos – ostentava uma descomunal potência sexual adormecida sob o tecido branco, mais evidente que a nudez. Nunca usara uma cueca dessas, mas sabia o impacto que o barrado insinuado um pouco acima do cós da calça tinha. Em algum lugar lera um texto de Marx dizendo que o feio, revestido de poder econômico, deixa de ser feio – e esse nem era o caso de A. A feiúra, para o famigerado barbudo, não é senão o elemento que impede que o possuidor deste atributo seja bem recebido por outras pessoas. Nesse sentido, o dinheiro (e como uma cueca pode representar isso, meu D´us) quebra a barreira e o suposto feio não suscita mais, pelo menos na prática a mesma repugnância. O feio deixa de ser feio.

A. escolheu um dos modelos mais caros – e nem era tão caro assim – e decidiu que seria seu único investimento. A mesma calça Levis velhona, surrada de tantas raladas que alegra-lhe a memória; a mesma camiseta cinza, presente infeliz para alguém que sua muito, mas que naquela noite seria de pouca valia. A noite era de hora em diante uma nova noite. Uma noite sem amanhã realmente amanhã. Para um homem dos seus trinta e poucos anos, essa era uma perspectiva ousada. Mas o que havia ainda a perder?

Dez anos de ideologias falsas que foram ruindo sem qualquer pudor. Nem mesmo os livros estagnados na estante ainda dizem o mesmo de antes. Aquela brochura do Sade, presente de um tio libidinoso e fanfarrão, ficara anos sem ser lida, apenas uma referência necessária, mas nunca realmente lida. Com a degeneração de seus sonhos, A. abriu a porra da brochura e se espantou com a dedicatória, não a do tio, mas a um anônimo (homem pela letra) que dedicara o volume ao homem. “Depois do que passamos nesse fim-de-semana, não posso mais te ocultar a verdade; demorei a concluir isso, mas Sade estava certo: o homem moderno assume essa triste condição quando se dá conta de que há o sexo, e mais nada”. Foi uma leitura reveladora: na semana seguinte, Alfredo Sirkis, Eduardo Galeano, Gilberto Dimenstein e até mesmo o Sérgio Buarque de Holanda estavam em uma caixa de papelão (A. fez questão de escolher uma caixa de um produto com nome em inglês), no maleiro do quarto menor. Em seu lugar, a literatura erótica coletada dos recantos ocultos de armários, guarda-roupas e baús. Política, putaria, porra, pau, pussy, podrear, pelado, pêlos, púbis, pica, pinto, perversão, piranha, todos itens lexicais iniciados por “P”, a mesma consoante de pão, Pôncio Pilatos, pedra, Pedro, Paulo, Palestina, Paz. Nesse rumo, voltar para o hotel, raspar os pêlos, vestir a roupa sensual e buscar sexo anônimo em um templo de beleza física era apenas uma tendência natural.

Uma da manhã, na Consolação, há disputa por táxis. Gays perfumados e empoados de masculinidade muscular convergiam trejeitos em frente ao saguão do hotel. A. viera com seu carro, mas não sente piedade alguma a ponto de oferecer carona. Uma leve garoa cai sobre a cidade (continua)

Conto: Só

- Adeus. Adeus amigo...

Cai uma leve e suave chuva, deixo-o para sempre, descansando finalmente de sua vida amarga. Foram minhas últimas palavras a ele. Percebo agora o quanto as palavras poderiam ter mudado o rumo dos fatos, mas é tarde agora...

Um de meus maiores medos, desde a infância longínqua, sempre foi a morte. Em sonhos apocalipticos, via um cavaleiro todo de negro, do qual só conseguia enxergar os olhos avermelhados - repletos de uma expressão atemorizante de ódio, uma expressão que fazia com o sangue de meu corpo se tornasse viscoso e frio, de modo a provocar uma espécie de arrepio diabólico ao longo de minhas costas e nuca. Este, vinha montado sobre um imponente corcel, também negro; trazia uma das mãos às redeas do animal, e na outra repousava um pássaro grande e negro como o breu da noite. Nos meus sonhos, quando o cavalo chegava perto de meu corpo desfalecido, sobre um balcão de granito cinzento, a elegante ave de rapina avançava sobre meu rosto e consumia a carne deste, com bicadas firmes e decididas, inclinando sua bela cabeça para engolir os bocados... Quando o cruel animal se aproximava de meus olhos, que mesmo fechados podiam observar o espetáculo sangrento, uma onda de pavor me fazia despertar, completamente molhado por um suor gélido. Desde estes tempos, temi a morte, afastando-me, até bem pouco tempo atrás, de moribundos, cemitérios e até mesmo de pessoas queridas assombradas pelo meu cavaleiro sombrio...; o aspecto, em si, da morada de meu amigo era o da entrada do purgatório. Meu sangue se espessou, como que coagulado, minhas mãos tremiam naquele ambiente úmido e gélido, meus dentes batiam e meu coração doia-me no peito, como que anunciando algo.

Fazia muito frio na noite em que ele me chamou até seu apartamento. Era um edifício antigo, localizado num bairro pobre do subúrbio da grande e mórbida cidade. A fachada era marcada pelo tempo e pelas intempéries da natureza, podiam-se ver as marcas deixadas pelas águas das chuvas; nas tímidas janelas reinavam míseras jardineiras, de onde apontavam árbustos secos e contorcidos, mortos pelo tempo e pelo descuido, o que, sutilmente, acentuava o aspecto de desolação que reinava ali.

O elevador, nada mais do que uma caixa metálica provida de poucos e grotescos comandos mecânicos, me deixou, alguns andares acima, num corredor imundo e fétido, repleto de portas amarelecidas pelo tempo e muitas vezes danificadas pela provável violência dos moradores daquela pocilga infecta. Eu podia sentir o cheiro acre doce de uma sopa rala e gordurasa provindo de um dos apartamentos à minha esquerda, ouvia o choro de crianças ranhosas, que entre as lágrimas tossiam, eliminando uma secreção amarelada e sonora, a qual podia perceber através da fina porta de madeira barata. A morada dele ficava à minha direita. Parei em frente a porta, que me parecia um tanto quanto mais conservada do que as demais, e proferi tímidos baques, como temendo ferir a fragilidade que aquele mundo secreto - onde ele vivera isolado por anos - me inspirava.

Do outro lado escutei passadas pesadas e arrastadas, como que as de um doente ou moribundo. Naquele momento, antes que a porta se abrisse, o medo me invadiu: era algo infantil, sem nexo, porém capaz de aterrorizar um homem feito como eu;, senti um enorme vontade de sair dali, de fugir e me esquecer que aquele ser que há anos não via, do qual me esquecera quase que por completo. Porém, algo que vinha do fundo de minha alma me pedia para ficar e enfrentar a realidade que se apresentava. Permaneci imóvel até a porta se abrir. Da escuridão da pequena peça que compunha o apartamento, surgiu uma grande e comovente figura: um homem de aproximadamente quarenta e cinco anos, completamente grisalho; seu rosto cansado estava marcado por uma rústica barba de terça-feira e seus olhos denunciavam noites de vigília. Podia ver em sua expressão a tormenta que habitava sua alma, o cansaço se fazia denunciar pelas rugar em torno dos olhos; tinha a minha frente um ser completamente arruinado.

Ele se afastou um pouco e, percebendo minha reação de espanto e tristeza, me convidou a entrar. No pequeno interior de sua morada, haviam inúmeras estantes, forradas, do chão até o teto, de livros. A um canto havia um modesto sofá-cama e à frente deste, uma mesa com duas cadeiras. Havia ainda um banheiro de modestas dimensões, que compartilhava as funções de lavatório e cozinha. E só.

Uma angústia enorme me invadiu, tinha vontade de sair dali, de me refugiar no aconchego de meu próprio lar. Ele me convidou a sentar e eu obedeci, escolhendo uma das cadeiras da mesa. Ele se sentou na restante. Iniciou-se entre nós um diálogo tímido, de amigos que não se vem há muito tempo e coisas desse tipo. Num certo ponto do diálogo ele ergueu a cabeça, a qual tinha mantido abaixada durante a conversa toda, me olhou direto nos olhos e me fez um pedido, mesclado com um desabafo, que, até hoje, me faz sentir um dor aguda do lado esquerdo do peito:

_ Acabou. A vida me dá agora um ultimato e por isso eu o chamo aqui. Os anos se passaram e eu fiquei só, sem amigos ou família, sem uma amante ou filhos. É minha vontade que não morra comigo tudo o que eu passei nesta vida ingrata, que minhas memórias fiquem e que alguém, ou quem sabe muita gente, as leiam e possam descobrir na minha desgraça um caminho melhor ou um consolo, posto que o vazio que me matou aos poucos desde meus tenros anos consiste na maior infelicidade que um deus qualquer imaginou para provar seus supostos subordinados. Eu quero deixar com você, meu único amigo ­- e neste momento pude vislumbrar uma grossa lágrima rolando de seus olhos vermelhos de emoção - esta caixa, contendo cartas e diários organizados por datas para que o mundo possa conhecer o meu suplício e ...

A partir daí eu pouco pude ouvir de suas palavras pausadas e cansadas, como as de um ancião de cem anos, dentro de mim explodia a reação causada por aquela confissão sincera: eu sabia, de certo modo, o que ele queria me dizer e só consegui senti um sentimento profundo de arrependimento e pena que por pouco não me pûs em prantos. Ele continuava:

­- Agora que você já sabe de tudo e que tem meu “legado” ao mundo, eu queria te dar um abraço, de poder sentir um pouco do calor humano do qual me esqueci há muito ­- e, então ele se levantou com dificuldade e me deu um abraço quente e apertado, semelhante àquele que meu pai me dera quando minha mãe morrera, no qual ele queria me consolar e ao mesmo tempo se consolar pela perda.

Eu podia sentir em meus ombros a umidade provocada pelas lágrimes dele e também chorei, não de alegria, mas por causa de um sentimento doloroso de culpa e pena ao mesmo tempo. Nos desvencilhamos do abraço e ele caiu deitado do sofá-cama, com uma respiração difícil e ofegante. Me inclinei sobre o corpo e percebi que estava inerte, morto...

Que ele descanse em paz e encontre no mundo dos mortos a felicidade que lhe negamos em vida. Volto para minha casa com aquela caixa no colo, enquanto o motorista vaga pelas ruas molhadas; aproveito para olhar o conteúdo precioso e pego um pequeno caderno com uma capa de couro puído, onde se lia uma data impressa em ouro, correspondente a nossa época de adolescente:

...e o chão sob meus pés se abriu, da fenda escura surgiu um crânio imenso, assustador. Aos poucos, muito lentamente, uma matéria brilhante, com uma espécie de tonalidade mista, semelhante a um mármore, porém brilhante como o ouro e a prata, foi tomando a forma de uma cabeça sinistra, inanimada. Passados alguns minutos ­- o medo fora substituído pela curiosidade - uma imensa massa brilhante pairava sobre mim, suspensa por forças invisíveis; quando criança, esta mesma imagem tomava meus sonhos e eu acreditava ser Deus querendo falar comigo, a cena em si era chocante: um menino de pijamas sobre um bloco de pedra negra e flutuante num enorme vazio, um caos de minhas parcas memórias, onde podia vislumbrar alegrias e tristezas de minha ainda breve vida. O crânio, de aspecto metálico, mas de uma consistência quase líquida, nos primeiros sonhos, permaneceu inerte, sem vida.

Não demorou muito - e este sonho projetava-se em minha mente todas as noites, como que simbolizando algo, quem sabe? ­ - a grande cabeça abriu seus olhos e pude vislumbrar aquilo que, num primeiro momento, acreditei ser a alma da criatura metálica: além das pálpebras reinava a penumbra da escuridão, porém, lentamente, uma imagem ia crescendo do fundo das cavidades oculares ­ em um dos olhos, pairava a imagem de um céu, carregado com nuvens que se movimentavam muito rapidamente; no outro, crepitavam chamas furiosas, num presságio seguro do inferno que me aguardava. No instante em que me assegurei de que as imagens eram realmente aquelas, o metálico do “rosto” daquele ser dividiu-se, separando a cabeça em dois hemisférios: a parte, a minha direita, assumiu uma expressão serena, amável, quase que materna, enquanto que a outra tornou-se o oposto, má, assustadora; de seu único olho eu via todo o ódio e amargura que nos últimos dias de minha vida viriam a tomar posse de minha alma. No dia em que tive este sonho ­- e não era mais do que uma criança de seis ou sete anos -, acordei gritando e suando, temendo algo que nem sequer sabia existir.

A Infância, época de alegria e luz para a maioria, nada mais foi do que uma sequência de pesadelos para mim, noites em claro temendo mais um sonho ou então vigílias prolongadas após um deles. A auréola luminosa que paira sobre a cabeça das crianças foi substituído, em mim, pelas olheiras e pelo medo. As sombras destes anos foram apenas o início, quisera o destino que não tivesse sucumbido para viver o meio e depois o triste fim ...

- Patrão! Patrão! O senhor está bem? _ perguntava o motorista.

- Sim!? O que? _ respondi ainda longe, ligado à leitura.

- Devo voltar para casa?

­- Oh, claro. Volte logo, sim?

Naquelas primeiras páginas de pequeno diário, algum elemento, alguma palavra ou frase havia conseguido penetrar no fundo de meu subconsciente e causar um grande rebuliço. Não era compaixão nem remorso, sentimentos que me abalavam horas antes, mas sim uma lembrança há muito esquecida, presa nas profundezas do passado e que aquele texto havia puxado à tona.

A noite veio logo e não quis tocar no jantar, deixado pela criada na mesinha da biblioteca. Enquanto remexia na caixa, bebericava um cálice de conhaque para aquecer os ossos ­- uma necessidade da idade. Em meio aos pequenos cadernos de capa de couro, surgiu uma carta assim endereçada

Para D., amigo e quase irmão

(Devo esclarecer que D. sou eu). Rapidamente abri o lacre e pus-me a ler:

Acredite no que vai ler, é muito importante. Comemoraria hoje, caso houvesse motivo, meus exatos quarenta anos. Vivi, imerso na solidão, por também exatos quarenta anos. É triste mas é fato. Do momento em que dominei o uso de minha razão travei uma busca sem tréguas para a raiz deste mal que me corrói, o que ocorreu por volta de meus quatorze anos. De lá para cá o sofrimento foi meu pão. Minha alma secou por que não tive água.

Levei uma vida confortável, do ponto de vista material. “É um grande homem”, disseram alguns; um médico até o dia de ontem. Hoje me encontro numa pocilga mal cheirosa, sentado nesta mesa tosca, tendo a minha frente esta página de papel puramente branco e cândido e, na cadeira ao meu lado o velho revólver taurus de meu pai, com o qual tenho tentado dar fim a vida a mais de vinte e cinco anos, sem nunca conseguir ir até o fim. Um covarde? Talvez. Na verdade, um mártir - soa melhor e é mais digno.

Após terminar esta carta, pretendo começar a escrever toda a minha vida, na forma de pequenos diários, os quais quero que você leia. Eu sei que será massante, mas, por favor, leia. Há algo que nos une, apesar de não nos vermos a anos, e que nos torna homens diferentes mas com um destino igual.

Ao longo de sua leitura, espero que você consiga as armas para lutar contra o destino e vencer a solidão que eu sei que lhe persegue, tanto quanto a mim, porém, de forma imperceptível. Não quero que você reconheça em sua vida o mal que assolou, quero, ao preço da minha, livrá-lo dele.

As últimas palavras escritas numa caligrafia acidentada e desleixada, típica do grande médico que ele fora, conseguiram me abalar profundamente. O sentimento que assolara minha alma enquanto lia o pequeno diário voltara, porém de forma mais clara e ofensiva; em minha mente, as névoas do passado começavam a tomar forma, sem que eu pudesse ainda identificá-la.

Naquela noite, o tempo demorava a passar, o grande relógio do hall, dos tempos gloriosos de meus avós, soava as horas tão espassadamente que um abismo de eternidade separava as badaladas. Os pequenos cadernos estavam à minha frente e o medo me impedia de tocá-los, era como se eu temesse descobrir o que as delicadas capas de couro escondiam. Esperei a coragem, e, muito tardiamente, ela veio.

... Se a infância foi uma breve introdução da saga de infelicidades que viria a ser minha vida, a adolescência e juventude foram ainda piores. Existem vários tipos de solidão, os quais acredito ter vivido nos anos de minha existência, porém quero dividí-los em dois grupos definidos: existe o solitário, que privado do contato humano, do calor de uma amizade ou de um amor, assume um caráter recluso e infeliz; existe, não obstante, um outro tipo que consiste no oposto - é quando o indivíduo, cercado de pessoas, num convívio normal, encontra o vazio, e nada mais que o vazio. Este último tipo é muito pior que o primeiro, posto que o infeliz solitário tem uma visão muito mais aterradora da solidão - a vê como um mal sem fim, um câncer que devora a alma e o corpo, cuja única solução é a morte.

Na primeira fase de minha vida, o isolamento dominou minha existência. Vivi a solidão da ausência, sem amigos ou quem me desse o mínimo de calor humano, tornando-me frio e austero na adolescência, onde, conheci então o segundo e terrível tipo. No meio da multidão que me cercava, não conseguia encontrar um amigo verdadeiro, alguém que realmente pudesse enchergar minha alma e confortar meu espírito. Tornei-me mais infeliz e mergulhei nos estudos das ciências médicas, na esperança de que ao me ensinarem curar os males do corpo, aprendesse também a imendar almas partidas. Foi tudo em vão.

Tornei-me o melhor, tinha que o ser. Meus mestres identificavam em minha obstinação o dom supremo que poucos médicos possuiam, acreditavam que Hipócrates me abençoara de sua morada no Olimpo, fazendo de mim o que fizera. Estes julgamentos doiam-me, posto que pela primeira vez na vida eu percebia que alguém invejava minha situação, enquanto esta me causava repulsa.

Tornei-me um homem rico e respeitado. Construi um império, sempre na esperança de que isto aproximasse as pessoas de mim, mas ao contrário de meus propósitos, as afastei. Quis formar uma família, casar com uma mulher que me completasse, que me desse filhos, os quais eu poderia dar um destino diferente do meu, porém mais uma vez o fiz em vão.

Aos trinta anos me casei com C., uma mulher de beleza e posição, cobiçada e amada por muitos outros homens. O que havia na Terra que uma mulher pudesse desejar ela teve, desde roupas e jóias até viagens pelo mundo. Nosso relacionamennto, porém, era frivolo. Eu me afeiçoara a ela, sem, no entanto, conseguir que este sentimento penetrasse na alma e aquecesse meu coração. Quando ela finalmente anunciou que esperava um filho nosso, achei que meu suplício chegava ao fim.

Os oito meses que anteciparam a vinda ao mundo de meu herdeiro foram os únicos em que vive a ilusão da felicidade. Comecei a amar aquela mulher que carregava em si a semente de minha vida de modo que sentia um calor no peito, era bom, minhas lágrimas tornaram-se mornas.

Quando ainda faltava um mês para o nascimento, numa manhã ela não desceu para o café. Achei natural e mandei uma das criadas preparar uma bandeja que eu mesmo levaria para ela. A rapariga trouxe uma bela bandeija de vime trançado, com um café balanceado, o qual eu mesmo elaborara o cardápio - durante toda a gravidez de C., eu fui seu médico, sem permitir que qualquer outro se aproximasse dela.

Contente de levar sua refeição, subi as escadarias que separavam nosso pavilhão do principal e alcancei o corredor que levava ao nosso quarto. Apoiei a bandeija num dos braços e abri a porta. O quarto era imenso, totalmente revestido com peças inteiras de seda azul. O leito, imenso, conforme ela mesma me dissera que sempre sonhara, estava vazio. Pousei o café numa pequena mesinha e procurei pelo aposento. Revistei seu quarto de vestir e nada encontrei. Fui, então, até o banheiro. A porta estava trancada e bati delicadamente à porta. Sem resposta. Bati novamente e neste instante olhei para baixo, um leve fiozinho rubro escorria pelo vão da porta. Um terror súbito tomou e pus a porta abaixo, fazendo-a em pedaços. Lá dentro, caída no chão estava C., em meio a uma poça de sangue. Completamente fora de mim, aproximei-me dela e verifiquei que estava morta.

Os peritos nunca chegaram a uma conclusão clara, porém, são unanimes em afirmar que ela escorregara em alguma coisa e caíra, batendo a barriga na quina da banheira e a cabeça numa estúpida estátua de Vênus que ornava a entrava do box. Daquele dia em diante, nada mais me importou, tinha trinta e três anos de idade, uma carreira brilhante e uma fortuna que poucos profissionais de minha área poderiam conseguir em vidas inteiras.

Resolvi vender tudo o que possuia, casa, carros, uma fazendo, um pequeno avião, minha clínica e tudo o mais. Apliquei esta fortuna numa única conta e me mudei para este buraco, onde enterrei minha vida e alma numa busca incessante pela verdade.

O que a vida me reservou não foi mais do que isto. Sei que um câncer me toma o corpo e que pouco resta para mim. Como você poderá comprovar no dia que eu o chamar até aqui para buscar estas breves memórias, meus últinmos anos nada mais foram do que uma luta contra o tempo no intuito de encontrar uma resposta qualquer. E então, resolvi procurar nas lembranças alguém que, por algum motivo, se assemelhasse a mim. E você, o oposto daquilo que eu sempre fora, me pareceu o único que, em termos de solidão e infelicidade se aproximaria de mim.

Creia-me, se houvesse uma resposta melhor da que eu vou lhe dar eu a teria descoberto e não estaria morto enquanto você lê estas páginas melancólicas. Apesar disto, porém, acredito que, sabendo agora como progride o mal que nos assola, tendo conhecimento das armadilhas que este arquiteta em conchavo com o destino, você possa mudar a sua vida e clarear a existência efêmera em que subsiste. É noite avançada e a dor devora minhas vísceras, é hora de parar, talvez para sempre, até quando a morte nos fazer encontrar...

Um profundo cansaço toma meu corpo agora. Fecho o pequeno caderno, o último, e sinto uma fadiga pesada, como a de Atlas, que susteu nos ombros o peso do mundo. Passo a mão pelo rosto e sinto a barba apontando e tornando a face áspera. Os olhos cansados e pesados. Dirijo-me a um espelho e contemplo meu semblante, apesar da idade a beleza ainda não abandonou-me, porém, ao olhar dentro de meus olhos fixamente não vejo nada, somente um ponto negro que dilata-se conforme procuro ver mais fundo. Neste momento, as palavras escritas naqueles cadernos começam a fazer sentido em minha cabeça.

Volto para a poltrona, que ainda tem a marca de meu corpo incrustrada no couro surrado. Fecho os olhos e retorno a infância, passo pela adolescência e chego a minha maturidade, descobrindo que afora as transformações físicas, o vazio foi o resultado de mais de quarenta anos de existência, que apesar do dinheiro e das mulheres a vida nada mais foi do que uma bruma efêmera, sem sentido algum.

Não me acredito infeliz, mas sim vazio. De repente, tudo perde a forma e a razão, o sentido das coisas deixa de existir e puxo a caixa para meu colo. De olhos cerrados revisto seu fundo e encontro um pequeno fraso negro, com uma tampa delicadamente trabalhada a prata. Sem abrir os olhos, destampo o pequeno frasco e bebo o conteúdo líquido, cheirando a amêndoas amargas.

A vista já se torna turva e o fim não tarda a chegar. Com muito esforço arrasto-me até a secretária e escrevo estas breves frases

Sinto, muito lentamente a vida esvair de meu corpo, tal como a senti abandonar minha alma durante tempo muito maior. A vida foi para mim uma ilusão de felicidades falsas. Precisei enterrar um amigo para abrir minha cova, mas sinto-me bem; me aproximo da eternidade feliz de não deixar quem chore por mim, por deixar uma vida condenada a infelicidade. Sei que estas palavras não soaram poeticamente, mas espero que fiquem para que a humanidade se aperceba de que se não perdermos o egoísmo, com o qual os deuses nos muniram ou castigaram, estaremos todos condenados a um fim igual ao meu; que ela também tome consciência de amar e ser amado é o único modo de preencher o vazio das almas, o único modo de partirmos para o eterno conscientes de termos deixado uma semente...

A última restia de vida uso para olhar pela janela de meu escritório e ver o sol nascendo no horizonte, contemplo este fenômeno durante alguns instantes feliz por partir num momento em que o grande astro vem preencher o meu vazio...