sexta-feira, 7 de agosto de 2009

La bonne rêve

Eu não saberia repetir a combinação exata de vodca, fadiga e rivotril que me nocauteou tão deliciosamente bem numa noite de quinta-feira, particularmente morna, no inefável começo de agosto. Sendo sensato, não adiantaria querer reproduzir tudo, pois as noites mágicas são sempre - e isso é uma lei - únicas. Uma boa vida pode ser repleta de delícias e gozos, mas sempre particularíssimos. Um bom beijo nunca se repete, a música que se solidifica em torno dos amantes não causa o mesmo efeito duas vezes, a descoberta de uma nova paixão causa, sempre, reações distintas. Os deuses, sádicos e benevolentes num misto que só a eles cabe compreender, nos agraciaram com os sonhos, único artifício (e mesmo assim, um artifício fortuito) através do qual as tênues raízes do presente podem penetram nas lembranças e trazer de volta, por breve que seja, o que ficou vitrificado na memória.

Eu o conheci no submundo - pelo menos era assim que eu pensava a masmorra vaporosa na qual me meti naquela noite. Não sei porque fui parar lá; havia saído para beber, dançar, beijar, me divertir, e é fato que fiz tudo isso. Cansado, com o corpo moído pelo álcool e pelos excessos da festa, tudo me levava para minha cama. Talvez tenha sido a brisa da madrugada, ou o miado de um gato em algum telhado, ou ainda o súbito perfume de uma flor noturna. O carro guiou-se pelas artérias cinzentas da urbe insana e súbito estávamos passando ao largo pelo Aqueronte, entrando nos domínios nebulosos do caos e do desejo - ora mais caos, ora mais desejo.

Não foi a primeira vez, e clamo aos céus que não tenha sido a última. Desci os círculos, atravessei corredores, senti o hálito morno das criaturas milenares que habitam tais profundezas. Mil vezes eu faça a travessia, mil vezes sentirei o peso do ar, a solidez da atmosfera, dos cheiros assépticos do vapor branco e dos corpos que circulam em seu interior. Não se trata de medo, nem de culpa ou pudor; mas de apreensão. Lançando-me na incerteza da escuridão do labirinto, até quando sairei triunfante disso? Quando chegará o dia em que serei destroçado e nunca mais voltarei? Prefiro não pensar.

Essa noite veio-me, ontem, em sonho - com vodca, cansaço e psicotrópico. Não exatamente a parte underground, mas o depois. Nas profundezas da escuridão, um réptil mais ou menos ancestral que eu me achou, e, juntos, emergimos do pântano. Poderia ter sido breve: tesão, orgasmo, riso sem graça; mas não foi. Tinha que ser maior, mas apaixonado, mais forte. Eu queria que fosse mais, naquele dia eu precisava que o noite me abraçasse mais apertado e um coração batesse no compasso do meu nome. Eu pedi e tive isso; seu riso largo, sua mão segurando a minha, nossas bocas se fundindo, um último beijo na veia aberta da big apple latina, em meio ao trânsito de zumbis incapazes de compreender a beleza de dois homens desconhecidos se beijando na rua.

Naquela noite, eu deveria ter ido dormir com ele, encaixado em seu corpo, sentindo o cheiro doce de sua nuca e pedindo ao infinito que aquela fosse a última coisa de que eu me lembrasse no momento da morte. A vida, porém, não colabora e não pude ir, acabei nem dormindo. Tomei um banho e peregrinei pela cidade, pensando nele, no seu corpo, na sua boca, em sua história. O que veio depois não interessa; teve sua magia e imortalizou-se por outras razões, mas não foi com o que sonhei.

Em meu sonho, vivi a noite que não tive com ele. Nessa realidade paralela, ideal, eu o levei para meu apartamento, e entre beijos e carícias, nos despimos, devastados pelo cansaço do corpo e pelo sono. Ele, meigo e risonho, deitou-se de costas para mim e pediu um copo d´água que estava no criado-mudo. Bebi do copo e passei-lhe a água em minha própria boca. Seus beijos, então, tornaram-se ávidos e suas últimas forças acabaram num abraço, mais enlace que abraço, e ele pegou no sono encostado em meu peito. Deitei-o de lado, de costas para mim, e me encaixei em seu corpo curvado, como um bebê. Estávamos deitados sobre o lado direito de nossos corpos, de modo que, antes de eu também pegar no sono, fiquei com a cabeça apoiada em meu braço, olhando seu rosto, tocando de leve o contorno pueril de seus olhos, nariz, sobrancelhas. Vencido pelo sono, aninhei-me ao seu corpo e desapareci na ternura infinita e inocente daquele abraço. Foi então que acordei.

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