quarta-feira, 5 de agosto de 2009

Crônica do escombro amoroso

Hoje, enquanto tomava o café-da-manhã, bati os olhos em velho volume de contos de Tchecov, um livro que foi difícil de encontrar. Publicado na antiga coleção Jackson, contém a única tradução em português do conto "La Cigale", talvez o melhor do autor. É uma história de adultério, algo trivial para qualquer bom autor do século XIX, mas fascinante sob vários aspectos. Já li o conto dezenas de vezes, por isso apenas perceber o livro ali foi o suficiente para me levar a pensar, uma vez mais, em algo que havia decidido deixar de lado.

Há algum tempo me fizeram uma pergunta agressiva, daquelas cujo emissor já sabe (ou acha que sabe) a resposta.Inqueriram-me se eu seria realmente capaz de amar, uma vez que sou um adúltero contumaz. Na hora eu ri da situação e não me dei ao trabalho de explicar o meu ponto de vista; não seria proveitoso diante da bestialidade de quem formulara tamanha falácia. Todavia, ficou-me a impressão de que as pessoas, em geral, não compreendem nada, ou quase, do apaixonamento e do amor. A reflexão permaneceu em minha mente por alguns dias, e agora, diante de Tchecov, e da saudade da maresia verde de olhos que me abandonaram, deixei-me levar na elaboração do que proponho ser uma crônica do escombro amoroso.

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Não me lembro ao certo o instante exato em que me apaixonei pela primeira vez, mas sei que foi aos catorze anos. Depois dessa, outras tantas paixões vieram e cada uma foi uma fratura terapêutica da alma, formando calosidades úteis que me blindaram contra as veleidades mais comuns dos amantes de primeira viagem. Quando abandonei a crisálida do amor platônica, minha armadura de frustrações impediu que eu me ferisse na maior parte das vezes. Feri-me, por certo, e a armadura endureceu, temperou-se na forja impiedosa das noites de solidão e esquecimento, das ligações sem retorno, dos olhares não correspondidos. A cada batalha perdida uma nova marca, uma nova cicatriz. Como apregoava o revolucionário argentino, endureci-me, sem, contudo, perder a ternura. Não me tornei frívolo, nem refratário; quanto mais despenquei penhascos abaixo, mais me inclino para olhar as profundezas de novos abismos e acho maravilhosa a sensação de planar na insegurança - tenho sempre a sinestésica percepção da mãe que sai do álbum de retratos e toca píano no caos.

O resultado prático disso é bem simples; conquanto seja, no mais das vezes, um problema, já que a solidão não é uma alternativa válida para homens como eu. Talvez eu seja um tolo com ares de fidalgo; talvez o erro todo seja meu e o mundo esteja pleno dessa razão insossa que chamam de bom senso. Sinceramente, não sei. O fato é que sempre me apaixonei cronicamente, vivi essas formas de amor embrionário com toda a força que me foi possível, sem critérios.

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