Qual é a parte do diabo? Olhando para a projeção dos pequenos orifícios da persiana no teto, é o que eu me pergunto agora, cruzando o oceano de tédio que me separa do dia que vem caminhando, sem nunca chegar. Deitado, sem sono e sem ânimo objetivo, meu corpo entorpece-se em ondas parciais, ora uma perna, ora os lábios superiores, ora um dos olhos. É repentina e assustadora a sensação da queda, ou da iminência da queda, e me seguro na invisibilidade na madrugada, me questionando o que, disso tudo, cabe ao diabo, o que levará, afinal, a escuridão e o abismo?
Percorro cantos sombrios da mente, buscando ressuscitar sensações escondidas em memórias doces, mornas. Nem sempre foi inverno nessa câmara escura; houve o tempo da brisa açucarada que vinha do mar secreto do cerrado, tempo da chuva e do cheiro de café, do som dos sapatos de solado duro no assoalho da casa velha, do perfume de flores nas fronhas engomadas pela mulher da trouxa na cabeça. Houve um tempo, mas passou. E o que veio depois, quero saber agora, o que? Que vazio nos levou, e me levou no mais, ao vértice escuro da sede que nunca se sacia, da fome, da raiva, do ranger de dentes angustiante, da aflição?
Imóvel na cama, concentro-me na ponta de meus dedos, que tocam o tecido macio do lençol. O som do piano ancestral penetra quarto, em movimento de arremedo, como ondas de choque que vem e vão. Nos meus olhos fechados, vejo a dança caótica de pequenos pontos luminosos que vão formando espirais; sinto o gosto acre da pele suada, eriçada pelo calor de outros corpos, e meu corpo todo vibra, treme e também sua, um suor frio e viscoso, veneno destilado, expurgado. A manhã galopa e eu aqui, dando voltas na arena da saudade, desejando um tempo que não posso controlar, à mercê do acaso, preso ao fatalismo irreverente de uma paixão que me aquece e me corrói.
Um sentimento de revolta sitia minha mente; desejo louco de romper com tudo, quebrar as antigas paredes e suas infinitas camadas de tinta. Por quanto tempo pude sobreviver ao ar putrefato de tantas memórias que ainda não vivi e vão se acumulando nas teias de aranha das arestas desse quarto? Na quietude do sono que me prostra, uma revolução se processa, projetos, planos para o dia que há de nascer; serei capaz de romper a crisálida do medo, ou só me resta a modorra acinzentada da insônia secular?
Como um crocodilo, afundo na tepidez do lago, senhor majestoso dos domínios da minha própria solidão. Olho o infinito escuro das profundezas, e sinto as impressões deixadas por cada instante feliz que habitou meu mundo; cada lembrança boa, cada beijo inesquecível, cada paixão que fez os sinos tocarem, cada adeus cheio de lágrimas, cada vez que amanheci cavalgando através do véu da noite, vindo das batalhas das quais saí vitorioso. Deslizo sorrateiro por esse museu aquático e vacilo entre o lodo do fundo e a luz da margem. Valerá a pena emergir e arrastar mais e mais felicidades empalhadas para o breu da memória? Entrego-me ao fluxo e o torpor se faz mais forte que a determinação do pensamento. Vou me desligando, como se tênues fios de seda fossem se rompendo entre meu corpo imaginário e as paredes viscosas da alma. O rodopio cessa e uma água escura e fria vai subindo em direção a mim, silenciando tudo.
terça-feira, 11 de agosto de 2009
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