domingo, 4 de abril de 2010

Constrição e descompasso

Será agora a virada da maré? Terei forças para, uma vez mais, superar o desconcerto de tudo e sobrepor nova camada de tinta nas já espessas paredes desse apartamento? O que os dias me trazem é o mau presságio de notícias que não quero receber. Eu, sempre imune e trancado às intempéries, agora ouço os estalos do madeirame frágil sob o qual me escondo do que não quero aceitar. Ironia do destino, talvez. Alguns já me falaram em punição; predisseram que meu fim seria a ruína que a outros já causei (alegam que causei, pelo menos). Não posso, ainda, tomar posição quanto aos fatos, mas ponho-me atento aos sinais.

O amor é uma condição, nem uma benção, nem uma maldição, nem mal ou bem; puramente uma condição que se nos é imposta - mesmo que muitos busquem por ele, logicamente. Acontece, tal como outros acometimentos cotidianos, triviais. Vem e se instala; dia a dia se metamorfoseia, cria longos e fortes braços, sempre (invariavelmente sempre) estrangulando, envolvendo mais perigosamente, uma das partes. É assim, verdade universal, imutável; ou então, não é amor. Muito do que carrega esse nome é, em verdade, sentimento de natureza diversa. O amor, como a morte e outras casualidades que surpreendem o homem desde que fatidicamente nos levantamos de nossa bestialidade primordial, é tal e qual o incessante jogo da existência, buscando seu equilíbrio no descontínuo (para nós, mortais, incompreensível) dos acontecimentos.

A vida sucede a morte, ou o oposto; o amor, o desamor. Na superação da lira do poeta, que estranho é o amor que não sossega a coisa amada, mas por quê? De mãos dadas e rodando, os amantes marcam bem a natureza paradoxal do apaixonamento. Num instante, uma força descomunal une dois corações, mas basta um pequeno descuido e há todas as tendências do universo conspirando para que a separação seja a mais drástica possível. E mesmo que, na prática, as vidas sigam os mesmos caminhos, é raro quando os corações se mantêm unidos. Se fosse apenas o amor, pudera; mas há todo o resto.

A roda da vida é inclemente. Ora aqui, ora ali, somos sempre alguém nesse patíbulo circular. Amamos intensamente quem não merece uma querela esquálida de nós; somos, não raro, os patifes que recebem todas as expectativas apaixonadas de uma alma sinceramente amorosa e que nos seria eternamente leal, mas então não ousamos. Não se trata de sermos bons ou maus, mas sim de estarmos constantemente na latitude e longitude erradas; desajustados, colhemos e perpetuamos o sofrimento da ingratidão e do vazio, independentemente do que o esboço de qualquer ética possa nos dizer. Somos assim e, deveríamos ter um instinto de gratidão quando a ignorância disso nos afeta. De minha parte, navego nessas águas porque não há solução melhor do que seguir navegando. Antevejo cada curva perigosa que se projeta muito além ainda do meu campo de visão, e talvez por isso não possa ser leviano, agora, e me queixar. Não culpo nem mesmo o destino, eu sabia como seria desde o início. Isso me deu, e com sorte ainda me dê, meios de protelar o inevitável, ou não. Sigo adiante e não quero que absolutamente nada venha antes da hora; ao contrário. Sigo até que a noite caia sobre mim e não haja mais redenção. É possível que seja hoje, mas também pode ser que não seja. O que me tranquiliza, se é que posso pensar assim, é que no fim de tudo terei a meu favor o fato dessa dignidade desde sempre e, sob os escombros, poderei cruzar meus braços acima do coração e empunhá-la como a espada que acompanha o guerreiro em sua jornada derradeira. Então as águas se acalmarão e seremos apenas eu e as profundezas infinitas do nada.

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