Será possível falar que existe um “amor moderno”, ou um amor na modernidade, opondo-o a um suposto amor do passado? Shakespeare, Camões e outros do mesmo nível diriam que não: a natureza do sentimento amoroso é essencialmente a mesma, o que muda é o modo de encarar a diversidade de cores dele – mudam-se os tempos, mudam-se as vontades. Talvez, a hipótese mais plausível seja a de que as relações entre as pessoas tenham mudado, ora tornando mais simples falar em amor, ora não.
Quando a questão é o amor entre duas pessoas do mesmo sexo, mas principalmente entre dois homens, o assunto é ainda bastante delicado. Hoje, a existência inegável de um meio gay consolidado e de uma sociedade já maturada na tolerância ajudam um pouco a trazer essa questão à baila, porém ainda há um longo caminho entre a aceitação de que dois homens fazem sexo e a crença (porque chega a ser uma questão de fé) de que uma família homoafetiva seja uma possibilidade saudável no seio da heteronormalidade.
Um primeiro ponto a ser trabalhado é exatamente a flexibilização desse olhar padronizador que conclama os modelos patriarcais e machistas e só concebe a relação amoroso como uma dualidade relativa, na qual há sempre um pólo feminino e outro masculino. O approach entre homens e mulheres é, claro, diferente do que acontece entre dois homens ou duas mulheres; são protocolos sociais diferentes. O homem heterossexual até chega a idealizar a mulher-objeto na qual baste “chegar” e pronto, sexo na certa. Todavia, mesmo consideradas as atualizações no software da moralidade hetero, a mulher fácil demais continua sendo desprezada (não só por homens, mas também por outras mulheres – vide a polêmica do Caso Geisi) e, não raro, paga por sua liberalidade sexual. Entre gays as regras do jogo erótico são outras.
Há muitos espaços em que dois homens se encontram e podem chegar a algo a mais. Antigamente, havia as praças e banheiros públicos, em razão da clandestinidade e o repúdio ao individuo mais feminino. Hoje, a tolerância foi institucionalizada por lei e o desrespeito reduziu-se às piadinhas bestas, nunca feitas na cara, daqueles que zombam pelas costas de todos, não apenas de gays. Assim, andar de mãos dadas com o namorado num shopping pode ser, e é, perfeitamente normal; e caso haja algum comentário mais invasivo, será análogo ao que escuta aquela pessoa mais gordinha que veste roupas curtas ou justas demais – um eco da voz social querendo dizer o que é ou não adequado (mas um dizer que já não goza de nenhuma legitimidade).
Homens, portanto, podem se conhecer e travar contato em basicamente qualquer lugar, mas ainda resta uma diferença fundamental em relação aos rigores heterossexuais: a abordagem. Homens e mulheres seguem, em termos, uma cartilha de boa conduta que prescreve diversos movimentos, como uma dança de pavões e que sobrevive até hoje. Mulheres querem saber quem são os homens com quem vão sair, o que fazem, onde trabalham, de onde são. Homens querem a “capivara” da mulher, a fim de melhor avaliar as possibilidades. Em suma, entre heteros, são personagens que se enroscam, e não pessoas, com seus respectivos corpos. Entre gays, o corpo é o códice; fim e meio unidos numa única entidade que importa. Em baladas HT, é impensável, por exemplo, que uma advogada saia com um garçom que esteja ali em noite de folga; ou que um médico leve para seu apartamento uma atendente de telemarketing sem com isso achar que ela é menos séria que uma professora universitária. Héteros consideram nome e sobrenome; gays farejam corpos e é na química do desejo que esses corpos se entregam a outros corpos, numa democratização inigualável e surreal, digna das bacantes de Eurípedes.
Isso, no entanto, não pode e nem deve ser julgado como promiscuidade gratuita ou libertinagem. Gays têm suas razões de ser, em parte porque a sociedade heteronormativa erigiu muralhas que nos deixam apenas estreitos corredores de passagem na vida. Enquanto heteros contam com a vida inteira para a construção da felicidade, foi só recentemente que se começou a falar em casais homoafetivos envelhecendo juntos, com direitos e garantias, inclusive a de ter filhos. Um gay, antes, estava relegado a viver intensamente a juventude e depois esperar: a velhice solitária, a degeneração e a morte. Isso explica as loucuras das nights fervidas e a total entrega: o amor acontece onde é menos provável, deixemos então acontecer – é como muitos, depois de refletir, acabam se justificando.
Com as novas perspectivas que vão se construindo para que a sociedade acolha homens e mulheres que optam por viver com pessoas do mesmo sexo, novos discursos se constroem em torno do amor homossexual. O principal dele é o da aceitação do casal gay, e não mais apenas do gay sempre sozinho, amigo e acessório de heteros bem resolvidos. Hoje, aliás, é muito comum a situação inversa: o gay super bem casado, feliz, que carrega a tiracolo a amiga ou amigo hetero, que sofrem por não achar sua cara metade. Cabe, nesse caso, a pergunta: por que será? E a resposta, talvez, sinalize o que desde sempre foi óbvio: há uma intensidade diferente, uma coloração diferente no amor gay. Dois homens amam-se intensamente no ritmo de uma sinceridade que se mantém sempre acima das conveniências que muitas vezes juntam homens a mulheres, e vice-versa. Na última versão do Big Brother, em 2010, o participante Serginho, gay assumido, afirmou categoricamente: o amor gay é muito mais forte. Talvez nem seja uma questão de intensidade, mas de qualidade. Gays amam as pessoas por quem se apaixonam; os heterossexuais, nem sempre.
Muita polêmica ainda resta quanto às questões práticas da vida afetiva de dois homens – e nesse ponto as lésbicas já se resolveram melhor que nós – tais como o casamento (com garantias e proteções do Estado) e adoção. O burburinho em torno da mobilização do Poder Público é maior que a efetivação por parte deste de medidas efetivas que tragam alguma novidade que os gays, por si só, já não tenham conquistado sozinhos, através das brechas legais. A compreensão, a aceitação honesta (e não apenas a tolerância polida), isso talvez seja algo a se construir, mas não à base de imposições, e sim pela prática de um diálogo aberto que traga à arena de debates o quanto a convivência amistosa entre pessoas (independentemente de suas preferências sexuais) pode ser positiva. Nessa utopia, quem sabe menos distante do que se presume, não haverá mais rótulos, nem para os indivíduos, nem para o amor.
terça-feira, 13 de abril de 2010
Assinar:
Postar comentários (Atom)
Foto-A0002.jpg)
Nenhum comentário:
Postar um comentário