segunda-feira, 27 de julho de 2009

Pilares de areia

Amo as sextas-feiras. São sempre como dias chuvosos em que se pode dormir até tarde, sextas são promessas doces de amantes jovens. E naquela sexta chovia mesmo, e eu pude dormir até acordar sozinho, espreguiçando como um gato melindroso em cama de solteirona. O barulhinho da chuva na janela me acordou bem antes, e foi ele que me manteve, pensativo, entre os lençóis e cobertas. Refleti sobre como tudo na vida estava perfeito, acontecendo na hora certa, na intensidade certa. Decidi, pressupondo-me um governador de filmes de pirata, que era um bom dia para me apaixonar, e assim ganhei ânimo para me levantar e espantar a modorra com uma ducha quente.

Dia cinza, amo esses dias. Almocei entre conversas agradáveis, comi menos que o habitual, uma excitação estranha me chacoalhava por dentro. Leve e dono do mundo, foi como voltei para casa. Dentro do meu templo, sou como um deus. Posso tudo. Coloquei uma música e fiz as banalidades prazerosas de uma sexta sem compromissos: lavei a louça, aguei as plantas, pus roupa na máquina de lavar. O aroma suave de amaciante me lembra de como existir é bom.

Olhei no relógio da cozinha e ainda nem eram três horas da tarde. Coloquei livros nos seus lugares, afaguei minhas gatas, terminei capítulos de livros parados pela casa. Queria fazer tudo e nada me detinha por muito tempo. Enfim, três horas. Fui malhar.

A academia é algo, no mínimo, curioso para qualquer observador estranho. Vestido de bermuda e camiseta confortáveis, me entreguei aos rituais do corpo e da promessa de beleza. Eu já cri muito mais, hoje, porém, é mais um vício nas substâncias que o suor de o cansaço produzem em mim. Devo ter ficado lá pelo menos duas horas e, quando voltei, minha pele transbordava uma alegria líquida inexplicável, misto de ânimo acalorado e desejo pelo desconhecido. Comi, tomei banho e, ainda meio nu, meio vestido, atirei pelas janelas o chamado da selva, o sussuro sutil que perde a suavidade na dinâmica de propagação e se torna grito, uivo, berro. Assim foi, e o chamado foi respondido, como antes já fora, e não me animei nem menos nem mais do que antes, não mais do que aquela sensação especial do despertar me sugeriria fazer nessa sexta chuvosa.

Quantas vezes eu penetrei o breu da floresta escura? Quantas rodadas eu não joguei sozinho nesse fado maluco que homens como eu recebem como carga e carregam sem tristeza no coração? Estava calejado, sou calejado, por que cargas d´água deveria acontecer, a essa altura, a surpresa branca do olhar silencioso? Pois aconteceu.

Chovia aquela garoa fina dos sambinhas de Noel Rosa, tristeza gostosa no grisalho da tarde. Meu coração não batia acelerado, nem minha boca estava seca. Tudo normal, atmosfera intocada, mão firme no volante. Até então eu nunca soube o que era uma calha de roda; subitamente me veio à mente a figura, que ainda não sei reproduzir em palavras, mas é clara em minha mente.

A resposta está onde? Nos olhos, na boca, na pele, nas formas do corpo, nos músculos, nos pelos? Não sei, não adianta mais querer saber. Foi sonho e como sonho reagi. Nos labirintos da madrugada, de que adianta a verdade? A verdade é cáustica, come a beleza das coisas. Menti, bebi o fel da inverdade e vivi as horas que me foram dadas pelo desvio do inevitável, pois a droga da verdade mina como o pus de um pestilento, que é como eu deveria me sentir. Mas não sinto nada, só saudade.

Foi súbito, intenso. À deriva na solidão eufórica daquela sexta, naufraguei nos verdes mares de seus olhos e me perdi. Eu era noite e me fazia noite, então o vi e tudo, num instante, foi luz. Da luz veio a tempestade e já não fazia mais a menor diferença se era perigoso ou não, pois não havia medo algum.

Duraria quanto? Não importa; era o que eu pensava, pelo menos. Durou pouco, como um sonho bom com cheiro de casa de vó, nas férias. O estranho é que se a bonança foi tempestuosa, o fim foi plácido, um lago de calmaria. Os mesmos verdes olhos convulsos na volúpia dois dias antes, então eram esmeraldas congeladas na convicção do fim. Doeu a fria exatidão das palavras, e pelo tempo que estas ecoaram na memória. A sexta cinza, a manhã chuvosa, os beijos e delícias dos dois dias de sonho, tudo dura mais, se aviva na lembrança e me lembra, uma vez mais, que no amor e na paixão não há maiores certezas que o sentimento morno que alegra e esquenta a alma quando, adormecidos os amantes, a alma se entrega ao sono e só as coisas boas passam, por breves instantes, na mente que esvanece e some nos mistérios da noite.

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