sábado, 18 de julho de 2009

Insone

A noite, de repente, ficou vazia. Os sons da casa cessaram e nem mesmo o barulho bom dos carros cortando o asfalto molhado havia. Olhei o rádio-relógio de mostrador esverdeado e ainda era madrugada; eu, porém, não tinha sono e começava a ficar fatigado de me revirar na cama sem conseguir fixar um único pensamento. Nestas horas é bom estar só, poder levantar e colocar uma música para tocar,abrir e fechar armários, romper o invólucro do tédio falando sozinho, xingando, fazendo polichinelos. Levantei sem fazer barulho; eu não estava sozinho.

Na cozinha, enchi um grande copo com água da torneira e me impus o desafio de beber tudo. Costumo ficar nauseado quando acordo no meio da noite, e beber toda aquela água era já algo para quebrar a monotonia. Fiquei uns dez minutos ali, encostado no granito quebrado da pia, reparando nas migalhas acumuladas no canto da bancada e anotando mentalmente que isso era algo a se comentar com a faxineira - faço várias anotações mentais, que depois esqueço. Com o estômago um pouco embrulhado, fui para a sala e sentei no sofá. O controle da TV estava a poucos centímetros do meu alcance imediato, sobre a mesa de centro. Preferi não tocá-lo, ficar sem imagem, sem som, só na preguiça irritante da insônia. Estiquei os pés e os coloquei entre os objetos da mesinha. Poderia, facilmente, puxar o controle e trazê-lo ao meu alcance, mas me divertia pensar na ironia daquela situação. Comecei a fingir que estava petrificado e fechei os olhos, pensando como deve ser doloroso para a alma ficar cego.

Nesse exercício mental acho que perdi, talvez, meia hora ou pouco mais. A náusea da água passou e agora vinha a vontade de urinar. Lembrei de um senhor do prédio em que moro, bem idoso, que subiu comigo no elevador e era nítido o constrangimento pelo conteúdo de seu sacola de mão: fraldas geriátricas. Senti pena e fiquei profundamente deprimido com a perspectiva de um dia ser eu a entrar numa farmácia e comprar um fraldão. Sempre me assustou a decadência do tempo. O homem parece ser uma criatura moldada à imagem da ruína; mesmo no auge de nossa integridade somos obcecados pela ideia da putrefação da carne. Pensar na velhice me desola; naquele dia tomei um bom trago e deixei o arrepio do álcool subir pela garganta e levar embora a sensação ruim.

Quando sinto muita vontade de urinar, costumo fazer um jogo comigo mesmo: seguro o máximo que posso e depois simplesmente deixo o fluxo sair, numa erupção que, em alguns aspectos, supera o gozo. Tive essa ideia vendo um filme japonês em que os amantes chegam ao ápice do orgasmo sexual aliando tesão e morte. A bexiga estourando me parece análogo à morte; o mijo, ao gozo: funcionou. Agora, nessa noite que escorre lenta, como uma gota de piche, sentir a urina expandindo o espaço dentro de mim era um meio de me concentrar em outra além do tédio.

Durou pouco e precisei ir ao banheiro. Fui e voltei numa moleza estranha, o que me fez pensar que aquelas horas de sono fariam falta no dia seguinte, que, aliás, era o meu hoje de então. Na volta, aproveitei e peguei o controle da TV. Acho um pouco irritante toda a parafernalha necessária para ligar a TV: ligar conversor da TV a cabo. ligar TV, ajustar imagem, escolher o canal. Prefiro um livro, na maioria das vezes pelo menos. O primeiro canal que pensei em escolher passava uma programação alternativa, algo referente à práticas pedagógicas; percorri outros canais, mas só séries de comédia antigas, daquelas com risadas ao fundo, de quando em quando

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