domingo, 28 de junho de 2009

Brevidade

Eram dois estranhos apenas. Fim de tarde, tráfego leve, quase rápido; não haveria demora na volta para casa, mas mesmo assim eles se desviaram. Na verdade, o desvio foi um encontro, casual e fortuito, um encostar de ombros na entrada da farmácia. O olhar formal da desculpa, que é isso, não, eu que estava... Basta; não é preciso mais nada quando ocorre o entendimento instintivo dos corpos. Para ambos aquele relance de vistas ficará congelado nos minutos que se seguirão dentro da farmácia, entre prateleiras de cosméticos e fraldas, uma subida na balança, uma consulta ao atendente no balcão. O ritual é básico: eles devem se encontrar no caixa, devem se olhar de novo e aguardar o riso de lado, confirmando o que já perceberam desde o primeiro momento.

Para a minha casa ou para a sua? Não? Na minha, na verdade, também não. É longe, fora de mão. Está de carro? É, vou embora de metrô também. Conversa rápida, certeira. Mãos nos bolsos, ombros encolhidos. O frio vem com o soprar gelado do vento, às seis da tarde; dois estranhos parados, sem jeito, na esquina, indecisos. Um café? Tá.

Não era longe e foram caminhando, silenciosos a maior parte do tempo, trocando frases quase truncadas, perguntas tolas - porque, no final de tudo, não vai importar a resposta. Quando finalmente chegam a uma padaria, decidem sentar-se lado a lado no balcão, apesar de haver mesas vagas. Pedem seus cafés, apenas. Os dois estão com fome, mas a ansiedade corta um pouco do apetite. Querem olhar-se nos olhos, sentir seus cheiros, mas ainda é cedo, falta a brecha.

No calor do ambiente, menos tensos por causa do café e da percepção da indiferença com a qual as demais pessoas encaravam a presença deles ali, acabaram por trocar nomes, falaram de trabalho, da vida. Veio o silêncio de novo, que foi cortado pelo riso. Não se pode dizer qual abriu o sorriso primeiro, no entanto o que realmente conta é que, então, entregaram-se ao que queriam discutir de fato. É sua primeira vez? Não, e você? Também não. Eram dois estranhos curiosamente parecidos, foi a sensação que se construiu nos dois. Outro café e eles tiraram suas jaquetas e puderam se ver melhor, o contorno dos ombros, do braço. Tinham basicamente a mesma idade, vestiam-se de modo semelhante. Um estava de camiseta básica, justa; o outro, vestia uma polo, manga curta e bem alinhada no corpo definido. Eram dois homens em quase tudo comuns naquele habitat, porém nessa simplicidade residia uma beleza rara, quase bucólica.

Uma hora depois, um deles ligou para casa e disse que estava numa reunião; o outro morava com o namorado, que, naquele dia, tinha viajado a trabalho. Os olhares e essas ligações davam a um e outro a certeza do desfecho da noite. Decidiram que era melhor comerem algo, pois então a fome aumentara e a tensão fora desfeita pela empatia. Pediram lanches leves, cada qual pensando na reação do outro, no depois. Falaram de outras coisas, descobriram que iam em muitos lugares em comum, que tinham estado na mesma sessão de uma mesma peça, que tinham passado o mesmo reveillon em Copacabana e que era provável que até tivessem se cruzado. Que coisa, né? Pois é.

A essa altura, já tocavam ao longo da conversa. De início, eram apenas suaves tateamentos pelos braços, pelos ombros; depois passaram a apertões sutis nos flancos, nas coxas. Sentados próximos, suas pernas se roçavam e um clima de tensão boa foi crescendo. Um deles levantou para ir ao banheiro e deu um riso malicioso para o outro, olhando em seguida para a própria braguilha - estava excitado. Esse jogo constrangeu e excitou o outro, até então receoso se deveria ou não arriscar uma noite de sono pelo que poderia rolar com o outro.

E assim, nessa interação velada, algumas horas de passaram e foi apenas quando a televisão da padaria exibiu a abertura de um programa noturno que eles deram pela hora. O metrô já havia fechado e não restava muito o que pudessem fazer. Trágico e cômico, era a leitura que poderia fazer de seus rostos. Foram descendo uma rua movimentada e em certo ponto, numa concavidade de árvore, um deles beijou o outro. Um beijo forte, de braços fortes envolvendo a presa, ainda que não houvesse qualquer resistência.

Dali em diante não havia mais dúvidas, o beijo fora apenas o começo. De mãos enfurnadas nos bolsos de suas jaquetas, chegaram a uma praça com um hotel na esquina. No andar térreo, um boteco imundo anunciava o que devia ser o lugar; prostitutas e travestis no balcão, numa espécie de armistício até mesmo poético. Subiram um escada, tensos novamente; como pedir o quarto para dois homens? O que vão pensar? Depois até iriam rir juntos sobre como foi absurdamente natural para o velho da recepção entregar a chave sem fazer qualquer inquirição; apenas pediu o valor adiantado e disse que estavam com sorte, pois naquela noite poderiam pernoitar. Não havia café-da-manhã nem serviço de quarto. Toalhas extras custavam um certo tanto e havia preservativos no corredor.

Subiram no elevador antigo, ainda com a ruidosa porta pantográfica, e um deles fez graça com a memória de um filme de terror espanhol, algo sobre zumbis em um prédio como aquele. Chegaram ao corredor, no quinto andar, e tudo, carpete, móveis, papel de parede, absolutamente tudo era velho e desgastado, muitas vezes sujo. Entraram no quarto e após uma breve verificação das condições do lugar, deitaram-se, meio sem saber o que fazer, na cama. Na cabeça de cada um mil coisas se passavam, mas os dois sentiam que havia algo diferente, que aquela falta de traquejo não era normal. Por que não estavam se pegando e se despindo e se devorando?

Deitados na cama, que pelo menos era até bem limpa, voltaram a conversar e falaram sobre o beijo e outras coisas mais. Estavam inicialmente olhando para o teto, os dois; depois viraram-se de lado e se beijaram de novo, num beijo calmo como o silêncio da madrugada, um beijo de busca, de conhecimento. Lento e firme, foi um beijo de descoberta, de toque suave e reconhecimento da geografia do outro.

Era tão tarde que esse beijo foi o aconchego dos heróis fatigados. Dormiram abraçados e ainda vestidos, e foi apenas por milagre que um deles despertou cedo, com os olhos irritados por ter dormido com a lente de contato e com aquela sensação agoniante de estar atrasado. Logo, porém, viu que era cedo e, sem acordar o companheiro, tomou um banho e se asseou como foi possível. Era sorte ter uma camiseta extra na bolsa.

Ali, naquele quarto, após uma noite de pouco sono, barba por fazer, o que prendia sua atenção era o corpo encolhido que ainda dormia, sereno, com uma expressão de felicidade no rosto. O que seria agora? Voltariam a se ver? O pensamento foi cortado pelo som das obras na cidade. Era hora de pensar em sair e comer alguma coisa. O dia amanhecera um pouco chuvoso e o metrô, àquela hora, deveria estar caótico.

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