Eu queria lhe dizer tudo agora, de uma vez, mas não consigo. Antes, nos momentos antes de começar tudo isso e me colocar na sua frente (!) e fingir que abro meu coração, tenho os pensamentos tumultuados e toda a coragem de despejar verdades, dores, medos. Mas, assim, diante da iminente resposta, do soco que não é soco, o novelo se forma na boca do estômago e minha covardia solidifica essas ideias anárquicas que vão se acumulando dentro de mim.
Na última vez que o vi, não havia paz no céu, nem em nenhum lugar ao meu redor. Quando olhei para cima em busca de uma calma que não viria, a manhã estava cinza e não havia consolo em nenhum ponto. Seus olhos mareados pela azul mais verde ou pelo verde mais azulado só me davam vontade de chorar, porque uma vez mais eu sabia que o sono viria e com ele o meu esquecimento. Você me deixaria para trás, mesmo sem querer; sozinho, com frio e ódio, eu ficaria no meio da névoa obscena, na toca imunda dos meus pecados.
Foi lento como um sonho: você me beijou e disse algo que soou adeus, algo indefinido, mas que só poderia ser lido como adeus. Não tive forças, só ânsia de vômito, calafrios e mal-estar. Da massa morta de nuvens, um raio de sol acendeu minha raiva, me pôs louco. Fui embora revoltado, amaldiçoando cada escolha errada, cada excesso. Será a última vez, eu juro; mas é uma promessa sem convicção, você já sabe.
Não houve tempo desta vez, e quando digo isso quero dizer que não houve intervalo para as lamentações de sempre, para aquela fossa mansa que corrói a semana e só passa na próxima boca com que você vem me beijar, atravessando a cortina da noite e invadindo minha calmaria de bêbado. Não, dessa vez uma alegria repentina já me acometeu de pronto e a despeito das previsões astrológicas você veio rápido, com passos graciosos, envolvido pela beleza mística do intangível, aquela luz azul que perpassa as sombras da floresta imaginária em meu coração, e traz um sopro adocicado de esperança.
Você me puxou com força para dentro do seu mar, e eu mergulhei. Segurei sua mão e quis ouvir uma música especial, cuja letra eu não compreendia muito bem, mas falava de amor e perda. Meu corpo vibrou na sua sintonia e meu véu de luto foi soprado para cima; no caos do abraço, eu me fundi a você e, juntos, forjamos um instante, um rio atemporal que explodiu em espumas claras ao encontro de nossos rochedos. Foi diferente da primeira vez; eu queria ficar ali com você para sempre, mas não pude, você também não pode.
Esperei ansioso o dia seguinte e ele veio, mas já era o prenúncio da solidão. Você dançou para mim, mas foi apenas ilusão que fosse realmente para mim. Eu estava ali, transgredindo a ordem natural das coisas. O amor veio e me deu uma suave réstia, que continua aqui, doendo um pouquinho. Agora é tempo de me recolher e sonhar. Com sorte, uma memória de um tempo que já passou, um tempo em que os desejos eram outros.
quinta-feira, 18 de junho de 2009
Assinar:
Postar comentários (Atom)
Foto-A0002.jpg)
Nenhum comentário:
Postar um comentário