O domingo à noite é sempre de prenúncio, da semana, do tédio, do azedume que resta na boca após a ressaca resultante do consolo morno de um sábado. Hoje foi um dia de domingo como qualquer outro, com muitos planos não realizados, tarefas não cumpridas, livros lidos aos poucos. O sol que brilha no domingo é algo sem sentido, sem ruído que lhe dê autenticidade, materialidade; é o anti-brilho. Mas o dia termina e o sol vai embora. O ruído, então, é branco, leitoso; televisores, aplausos, frango requentado e macarronada seca. Tédio acrescido de asco. Meu pai engraxa os sapatos no domingo à noite. Eu achava, quando criança, que jamais faria isso, que nunca seria o adulto orquestrado pela rotina dos dias e das horas, o homem-pilha que devora a vida nas preocupações e nos relógios sujos das torres. E, sem perceber, tornei-me.
Passei a sentir o tempo penetrar minha carne e nem era um homem maduro ainda. Tomei ciência da minha não-juventude ao perceber o quão tátil é juventude alheia. Não que a minha houvesse se esvaído, muito pelo contrário; aconteceu, essa percepção, quando minha maturidade entrava nos seus anos de maior glamour, na época em que tudo brilhava ao meu redor porque eu era, de certo modo, o astro-rei de minha própria órbita. Superados os dias de aurora, do meio da escada olhei para trás e, não muito abaixo, vi, ou melhor, intuí o que estava ficando no caminho. Não a minha adolescência, não os meus anos de incerteza e medo, mas os dos outros, daqueles que eu tanto desejo e amo, dos corpos alvos e macios, da pele, do cheiro, do riso, da leveza que paira sobre os ombros sem história. O olhar do rapaz jovem, seus sonhos, seus medos bobos, tudo é beleza virginal, tem o sabor surreal das manhãs de neblina e sol fraco.
Hoje, o amor cordial e passageiro desses corpos é tangível. Na selva, eu ainda caminho seguro e não temo a escuridão; meus olhos brilham no meio do breu, anunciando minha caçada, meu salto certeiro na elegância do ataque. Haverá um dia, porém, que as árvores se fecharão sobre mim e só verei, espero que dignamente, o rio da vida escorrer; e outros, então, estarão em meu lugar. Marmorizado no jardim do esquecimento, observarei os corpos jovens e lembrarei com saudade de quando o fulgor do meu olhar bastava para trazê-los mais próximos, e como a suavidade de seus rostos contra os nós dos meus dedos me transportava para paraísos terrestres muito além do gozo.
Penso com frequência quando esse dia há de chegar. Qual será a última vez que acordarei abraçado com um corpo jovem sem me sentir ridiculamente patético? Quando tocarei a sedosidade da pele coberta de pelos loiros, penugem pueril, e ainda serei o leão a abater a presa e não o velho senil em cuja bocarra foi atirada a gazela abatida?
[perdi o fio da meada]
domingo, 12 de abril de 2009
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eu sempre me encanto com o que vc escreve...
ResponderExcluirfica com deus
Anderson.