Hoje eu comprei uma cadeira nova para o meu quarto. Simples, isso. Não a cadeira em si, mas o fato de comprá-la; decidir pela liberalidade de pôr uma nova cadeira naquele canto específico, bem aquele cujo vazio sempre me incomodou.
Acordei cedo, não muito disposto, ou ao menos disposto a qualquer outra coisa que não o banal cotidiano que é o meu cotidiano. Comentei esse pensamento, outro dia mesmo, com um amigo e ele riu de mim, dessa auto-avaliação. Cotidiano banal? O meu? Bobagem. Mas eu sinto isso, esse espaço vazio precisando de uma nova cadeira. E quando acordo assim, é como se o dia não principiasse, falta algo. Élain vital, talvez? Não sei ao certo, mas reparo que as samambaias da varanda ficam mais tristes que o normal (porque as samambaias são criaturas tristes, apesar de tudo). E vê-las, assim, abatidas, me abate também.
Preparo meu café, mas o engulo sem vontade. Tomo um "ome" qualquer coisa (esqueço os sufixos corretos dos medicamentos; sou um hipocondríaco idiossincrático, o que me permite o uso de duas palavras cuja sonoridade me faz rir) e mesmo assim o nó no estômago não passa. É sempre assim.
Hoje, porém, a despeito de todos os passos previsíveis desse ritual terem se dado exatamente como das outras vezes, ao passar pelo quarto, fixei meu olhar no canto vazio. Havia um novelo que pó, desses que se formam nos dias antes da faxina semanal e são uma complexa estrutura de longos fios de cabelos de não-sei-quem (não há mulheres nessa casa), pelos de gato e pó propriamente dito. Parei, recostado no batente, e me perdi no rodopio lento do novelo, acariciando aquela esquina vazia do meu quarto; aquele espaço de semântica vaga e sintaxe inexistente. Lembrei-me da água do poço do João Cabral. Poema triste, sempre pensei. Mas dessa tristeza toda, eis que me ocorreu: a cadeira.
Não podia ser qualquer cadeira. Uma quina vazia não é obrigada a aceitar o que lhe for oferecido simplesmente porque está vaga. Não. Era preciso escolher bem, buscar a peça ideal: nem grande demais, que obstrua o espaço sinuoso entre a cama e a parece; nem modesta e estreita, que seja desconfortável quando, nas noites de tempestade, eu queira me levantar e contemplar o sono de quem esteja na cama, mesmo que esse alguém seja uma de minhas gatas.
Saí sem desespero, mas um pouco ansioso. O tempo, é claro. Sempre há pressa nessas questões de necessidade emergente. Principalmente quando elas emergem e fazem lacrimejar as samambaias da varanda. E foi assim, nesse misto de emoções, que rodei muitas lojas; todas especializadas em cadeiras, e muitas que sequer vendiam móveis. Bastava ver uma cadeira em uma vitrine (de uma boutique, por exemplo) para que eu fosse entrando. Total fracasso. Perdi uma manhã inteira e o novelo de pó ainda lá, esfregando seu corpo imundo no ângulo frágil e nu do meu quarto.
Veio o horário do almoço e perdi algum tempo (na verdade, muito dele) pensando no que comer; decidi, enfim, não comer. Tomei uma coca light e comprei chicletes. Uma coisa que me acalma é mascar chicletes. Fiz tudo isso na loja de conveniência de um posto. O dia estava muito quente e o ar-condicionado me atraiu. Mandei completar o tanque do carro, entrei na loja e fiz hora com a coca e os chicletes. Ensaiei comprar um sorvete, olhei revistas, puxei conversa com uma pessoa na fila. Quando chegou minha vez de pagar, cedi meu lugar a quem estava atrás e fui ao caixa eletrônico sacar dinheiro - não que eu precisasse realmente, mas queria ficar ali. A luz branca e o ambiente climatizado me faziam esquecer o novelo de pó e o vazio.
Como sou muito vergonhoso, logo me ocorreu que as pessoas da loja poderiam pensar que eu estava querendo fugir, sair sem pagar. Sou meio paranóico, talvez. Sempre penso na minha mãe indo me tirar da cadeia por qualquer bobagem; no olhar do meu pai, pesaroso pelo meu delito. Droga, eu tive que sair da loja. Paguei, e fui embora. De volta à questão da cadeira.
Estava muito quente e eu odeio calor. Não gosto de sol; acho, mesmo, que seria bom ir morar na Inglaterra, bem no norte, numa daquelas vilas antigas, com as senhoras de cabelos brancos e as tavernas de nomes esquisitos. Céu cinza, dia curto, longas noites a percorrer. Sim, um bom devaneio, e eu ainda precisava - não desesperadamente, mas precisava - da cadeira. E não teve jeito, cadeira que coubesse nas meticulosas especificações do meu vazia não havia.
O que me restava era me juntar às samambaias e chorar o dia perdido na busca sem sucesso. Seria necessário me acostumar ao quarto vazio; não propriamente vazio, mas com aquele vazio, aquele espacinho dolorosamente ocioso, incompleto. E quando eu já acostumava com esse destino, eis que o destino (e só pode ter sido ele) brincou comigo - ainda que, no final, a vantagem tenha sido minha; e só comento isso porque a porra do destino costuma preferir, ele, a vantagem para si em detrimento do desgosto alheio. Aquele dia foi diferente.
É um pouco complicado definir a zona de transe em que penetrei, ou mesmo como tudo se deu. Hoje, várias maneiras de déja vu me levam ao ponto exato da memória desse fato tão singular. Eu posso estar no metrô, ou em uma das galerias do Louvre, é sempre nesses espaços de transposição, de confronto, que me lembro de como achei a cadeira.
Posso dizer com segurança que era noite e chovia. Meu corpo inteiro rangia no ritmo do clamor lento das casas antigas; medo, quem sabe? Penso, às vezes, que sei exatamente como cheguei até lá, mas prefiro encobrir esse quadro, obscurecê-lo na memória. Outras vezes, acredito mesmo que me materializei ali, entre paredes carmim e vapores e escuridão. Como achar uma cadeira em lugar desses, é a pergunta natural? Pois é.
Quando se trata de falar em cadeiras, não há por que elocubrar. Ela estava lá, contra tudo que eu pudesse crer, ela estava ali. Dourada, pálida. Seguramente, não estava à venda, foi meu primeiro pensamento. O segundo, na verdade - o primeiro, antes de vê-la, foi sair correndo de lá. Mas a necessidade de esgotar todas as possibilidades em busca da cadeira foi mais forte que o medo e a repulsa causada pela medo.
Uma cadeira não é nunca apenas uma cadeira. Foi uma lição que, nesse dia, me ficou bem clara. Filosoficamente, seria bom pensar que foi uma dura lição, porém não foi. Na verdade, foi uma lição doce, sensível. Uma cadeira, na sua aparente exterioridade, esconde um universo próprio da sua natureza de cadeira; um espaço de dentro da cadeira. Por isso mesmo, não somos nós que adquirimos uma cadeira ou sequer escolhemos uma com ou sem espaldar alto; creio, hoje, que as cadeiras, por alguma razão menos óbvia que a já ululante, também nos escolhem.
Uma manhã cinza. Um espaço vazio e nem novelo de pó. Catacumbas, eu e uma cadeira que me escolheu, assim como eu a ela. Retomo a ideia do ângulo e calculo mentalmente quantas manhãs ainda passarão e eu continuarei a olhar para o canto que não pode ser preenchido senão por aquela cadeira. Sim, claro, porque se eu não contei o final da história, nem o precisaria agora. Ela foi minha, na sua totalidade. Foi. Fomos um do outro, para ser honesto; e creio que nos tornamos parte um do outro também.
Hoje, escrevo sentado no canto vazio e, apesar do desconforto, há um calor bom em pensá-la ali, dourada e branca, preenchendo esse pedaço de mim que, de vez em quando, sente o vazio e deixa cabisbaixas as samambaias da varanda. A cadeira que acabei comprando, essa era apenas um objeto invisível.
quinta-feira, 2 de abril de 2009
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