O vento entre pela fresta da janela e sutilmente move o mármore dos lençóis, da noite que repousa na cama, ainda, perene, sempre estática no congelamento do instante, da memória. Ar rarefeito que penetra, infla. O som da tempestade antecede o cheiro que vem, sutil e sorrateiro, carregando terra e poeira e escombros de quando ainda não havia a tempestade. Os gonzos pendurados no vértice da casa balançam ferozmente, guincham anônimos, pois não há olhos que contemplem seu suplício: apenas se fazem ouvir, proféticos; a manhã não está clara, talvez nunca mais seja o tempo de sol e jardins verdejantes, talvez esse manto de cinzas pálidas seja a herança que restou, o estigma da noite que finalmente se fez última.
A saudade é uma criatura estranha, aracnídea, lenta como os vidros que escorrem nas vidraças da casa, nos compridos janelões pelos quais olho a cidade, a rua que desce, e desce, e nunca acaba, para sempre. Os rostos passam pela calçada e são como fantasmas; não distingo o ver do querer ver; e perdo-me no paganismo selvagem dos pensamentos, ainda uma vez os pensamentos. Circulo entre arvoredos centenários, milenários; mergulho até a raiz da raiz e os torrões de terra não me causam menos nojo, nem a lama suja menos meus cabelos molhados. Até quando, até que ponto? Os lambris sobem ziguezagueantes, ornando pilastras de sal e escuridão; meus olhos seguem a ascensão do templo e no alto vejo pombos em câmera lenta.
Desgarrei-me; estou sozinho na floresta e não resta mais nada do acalento das paredes em torno de mim. Deserto, gretas e langor. Não há espectros, nem brisa, nem luar; os lobos não uivam, nem as corujas chalreiam, solidão total. A manhã sem horizonte lembra a noite sem cavalgadas, sem valquírias enfurecidas; há apenas o vento que penetra o quarto e infla o lençol branco, macio; o vento que resgata o rosto perdido no infinito, que traz de volta a alvura da pele, o talhe do torso nu, perfeito. Olhos fechados, arquiteto jardins sem anjos, sem sebes; nele corremos a vastidão azulada do gramado proibido. Não há mais corredores, nem portas ou escadas; os espaços se abrem, livres em varandas eternas, desmedidas.
Deitado, acaricio o ar que o traz até mim; o vento que resvalou seus cabelos e trouxe uma molécula do teu éter, do teu suor, depositando-a na ponta do meu lençol. Fecho os olhos e venço as muralhas do dia que não queria amanhecer; uma parte de você vive energicamente colada ao meu corpo cansado. Levanto e com cuidado deposito teu átimo perfumado entre meus próprios cabelos; o tremor azul das lembrança me invade e outra vez recordo como meu corpo deslizou no seu e como minha boca buscou a sua e como não só o corpo explodiu em satisfação. Você me deu uma noite para lembrar e é com ela que entoa meu hino de guerra e é dela que faço meu escudo contra o ranço do dia.
terça-feira, 24 de março de 2009
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