quarta-feira, 18 de março de 2009

Tântalo polímata - terceiro movimento

Santa Amélia, Santa Ifigêmia, Santa Ismália. Algo assim, o nome do edifício. Construção antiga, poucos andares, com uma grande árvore na frente e jardineiras desordenadas nos estreitos corredores laterais. É apenas o que vem a memória quando penso no primeiro dia que fui visitá-lo e apertei o botão ao lado da plaquinha "o nome não importa". O teclado do interfone era também antigo, com longos e finos botões pretos saindo de um painel dourado, meio desgastado pelo tempo. Ele me atendeu e com um estalo a porta de vidro da frente se abriu. Havia apenas um elevador, daqueles velhos, ainda com porta pantográfica e carpete vermelho dentro, bastante puído e sujo. O prédio rescendia decadência, e quando a porta se abriu no terceiro andar essa impressão só piorou: as paredes tinham detalhes em gesso, com algumas partes despregadas e quebradas; o lustre original havia sido substituído por uma luminária fluorescente, o que inundava o espaço com uma implacável luz branca que, em intervalos regulares, falseava. Havia quatro portas no corredor, apenas duas iguais uma a outra. As outras haviam sido trocadas por modelos reforçados, com trancas na parte de baixo e de cima - além de decadente, o lugar deveria ser perigoso, foi o que pensei.

Tenso, considerei recuar e fugir dali; não sei explicar, hoje, a razão do vacilo, mas por um instante pensei em simplesmente voltar para a rua, entrar em meu carro e ir para qualquer lugar menos opressivo que aquele. Parei em frente à porta número 31 e bati, ignorando a campainha. Vi pelo buraco do olho mágico a sombra dele, que me observou por alguns segundos antes de abrir. Eu entrei e imediatamente relaxei. Ele sorriu quando me olhou de frente, e o seu sorriso, circundado pelo rosto magnético e mal barbeado, expulsou a angústia de antes. Ele estava especialmente alegre, e havia colocado para tocar um disco de Keith Jarrett, do qual falara em uma carta entusiasmada, semanas antes. Ele sempre ficava excessivamente alegre quando conseguia comprar algo que não era fácil de achar - algo semelhante à minha sensação diante dos objetos curiosos que eu recuperava das trevas alheias e restaurava.

O apartamento era composto por uma peça única, grande, com uma pequena cozinha que se individualizava por causa de um balcão baixo, e, ao fundo, perto da janela da varanda, um banheiro. Nesse cômodo espaçoso, havia uma cama, no lado oposto à porta do banheiro, uma mesa pequena de cozinha, um sofá surrado e estantes em todas as paredes, do chão ao teto, cobertas de livros desordenadamente distribuídos.

Nenhum comentário:

Postar um comentário