terça-feira, 17 de março de 2009

Tântalo polímata - segundo movimento

Quando eu era criança, tinha certeza absoluta que minha vida seria extraordinária, em todos os sentidos. Emprego perfeito, casa dos sonhos, carro de luxo, dinheiro para fazer extravagâncias e deixar as pessoas felizes. Foi assim que eu vi o mundo ajustado, sem ranhuras. Era assim que meu tio vivia, sóbrio, responsável, sério e, ao mesmo tempo, sempre bem, contente. Ele era advogado, tinha um carro bonito e sempre me dava uma nota gorda nos domingos que visitava nossa casa. Minha família não ia mal, nunca foi, mas também não éramos ricos - nos reuníamos aos fins de semana, fazíamos macarrão, maionese, carne assada, e simplesmente falávamos das mesmas coisas. As crianças, como eu, então, dos brinquedos, da escola, das encrencas; eles, os adultos, do passado, dos parentes, dos escândalos triviais de vizinhança. Cresci querendo ser meu tio e romper a mediocridade; em parte, construí essa vontade, em parte, imbuiram esse sonho em mim.

Eu cresci, e como a lógica da vida não respeita planos de pessoas absurdamente comuns, meu caso, as coisas não aconteceram exatamente como eu queria que acontecessem. Não há nada excepcional a ser mencionado: aspirações literárias frustradas, curso de Direito frustrado, concurso público de nivel médio, salário médio. Tudo mais que se possa falar de mim é vergonhoso e irrelevante. Preciso apenas reconstruir uns poucos passos que me levaram até ele, naquela sexta-feira chuvosa, no café de uma livraria.

Apesar das amarguras do não-ser, ou do "não-ter sido", eu me conformara em crer-me um homem feliz. Família por perto, apartamento próprio, trabalho estável, tempo livre para me dedicar às minhas paixões: ler, pedalar e garimpar objetos antigos. Relendo essa descrição, chego a rir de mim mesmo: que tipo de pessoa busca coisas velhas, sem valor, e as coleciona? Sei lá. Acostumei-me com os olhares de reprovação da faxineira e de minha mãe; depois de um tempo, elas pararam de reprovar e, até mesmo, de questionar sobre as novas aquisições. Pouco tempo ainda depois, a faxineira deixou de limpar os objetos menores e essa tarefa foi acrescentada aos meus hobbies. No geral, portanto, eu era um homem ilusoriamente pleno e, ao menos diante dos poucos amigos, um tremendo sortudo: sem crianças, sem esposa gorda, gastos menores que o salário, saúde e poucos problemas maiores que um chefe de seção neurótico e uma certa inveja de poucas pessoas - algo sobre o que não quero comentar. Assim eu vivia e assim me achava realizado. Até encontrá-lo na livraria.

Como não tivesse grandes compromissos financeiros, eu estabelecera um complexo sistema de premiação para mim mesmo, baseado no cumprimento de certas metas e, é claro, no intervalo de tempo entre um prêmio e outro, bem como na disponibilidade de recursos. Com meu salário, acrescido por pequenos serviços de revisão e tradução de textos, eu me presentava com um fim de semana por mês em alguma cidade maior, geralmente São Paulo. O bônus incluia viagem de carro, hotel em local central, almoço módico, porém jantar em local refinado. Cinema, talvez teatro; e uma visita à livraria com um polpudo limite de crédito, o que me garantia a leitura do mês todo, às vezes um pouco menos. Metodicamente, esperava a primeira sexta-feira após o pagamento, acertava minhas contas, comprava um presente para minha mãe e, do restante, retirava uma quantia razoável para fazer meu passeio sem peso na consciência. A semana em questão era sempre tensa, os dias não passavam, nem as horas. Eu mandava lavar o carro, calibrar os pneus; separava as roupas dois dias antes, pois na sexta, pela manhã, pedia para a faxineira passar as calças, camisas e camisetas de novo, de modo que ao sair do trabalho, por volta das quatro da tarde, bastava chegar em casa, tomar banho, pôr a mala no carro e cair na estrada. Alguns poucos amigos, sabendo desse hábito, já tinham se aventurado a insinuar um pedido de carona, ou mesmo a ideia de partilhar o quarto do hotel e algum programa noturno. Quando mais jovem, eu topava, até gostava; com os anos, tornei-me mais sistemático e repeli qualquer investida: era meu tempo, meu prêmio.

O dia em que o conheci começou como outro qualquer: gente demais na repartição, telefone tocando repetidamente, calor abafado, insinuando chuva. Almocei sozinho, dei alguns telefonemas que devia fazia algum tempo, liguei para minha mãe, perguntando se ela tinha gostado do elefante de porcelana que eu comprara numa loja exotérica. Comi uma bobagem qualquer em uma lanchonete, assim teria tempo para sacar dinheiro, passar em casa para pagar a faxineira e fazer a mala, alimentar minhas gatas e aguar as plantas. Fiz tudo de modo cronometrado e voltei à repartição cinco minutos antes do horário certo. Dei um jeito do chefe me ver pouco mais cedo, banquei o funcionário solícito, falei alto, circulei com passo firme, pareci nervoso e tenso. À hora do café, por volta das três da tarde, fingi dor de cabeça e estômago embrulhado. "Deve ser o calor e essas porcarias que você come", palpitou uma colega gorducha e solteira, talvez desejosa de cozinhar para mim por todo o sempre, amém. O fato é que colou: o chefe deu um tapinha nas minhas costas, me mandou embora e disse que traria folhas de sei lá o quê de sua chácara, para meu mal-estar. Agradeci com o melhor riso amarelo de minha boca ansiosa e saí, coração levemente acelerado.

Tomei banho, fiz a barba, arrumei o cabelo com mais cuidado que o normal. Revisei carteira, mala, bolsa de remédios (apesar da saúde perfeita, preciso andar sempre com certas drogas lícitas, apenas por segurança). O relógio marcava três e quarenta. Quase uma hora de antecedência. Desci para a garagem, deixei a chave na portaria para que a mulher do zelador cuidasse de minhas gatas no sábado e no domingo e, finalmente, lancei-me à estrada. Eu pensava sempre em tudo: viagem direta, sem paradas. Dois CDs especialmente gravados: cento e quarenta minutos de música até eu chegar no destino. Obcecado pelo gerenciamento do tempo, eu tinha mandado instalar um daqueles aparelhinhos que permitem passar diretamente pelos pedágios; era assim que eu garantia que, na última música do segundo CD eu já avistaria o Pico do Jaraguá, quando seria já possível sintonizar as rádios de São Paulo e receber notícias do trãnsito. Com o tempo, tornei-me perito em evitar engarrafamento e aprendi como me esgueirar por ruelas estratégicas até meu destino, perto da Avenida Paulista.

Cheguei precisamente às sete e meia na garagem do hotel. Fiz o check-in, deixei a mala no quarto, pendurei uma camisa que vestiria no sábado e saí de novo, a pé. Meu roteiro incluia cinema ou livraria na sexta-feira à noite, antes do jantar. Por razões misteriosas, mesmo passando vários filmes de meu interesse, preferi a livraria. Peguei uma folha cuidadosamente dobrada, na qual eu digitara os nomes do livros de que, ao longo do mês anterior, ouvi falar por amigos, ou sobre os quais havia lido em jornais e revistas. Minha cota quantitativa eram dez livros; nem sempre o dinheiro destinado a eles era suficiente e em nenhuma ocasião foi o bastante para exceder a marca dos dez.

Quando eu deixei o hotel, uma leve garoa começada a cair. O céu róseo, não sei se de nuvens, ou de poluição, me deixou feliz, bem-humorado. Eram apenas quatro quadras até a livraria. As próximas horas seriam decisivas, mas a vibração da cidade não deixou que eu intuísse isso; fui caminhando inocente do destino e, de certo modo, penso hoje que não podia escapar dele, de um jeito ou de outro.

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