O nome não importa. Era isso que estava escrito na papeleta ao lado do botão do interfone, na rua. O edifício era bem localizado, rua valorizada, muitas árvores, sinagoga, pessoas bem vestidas, homens de terno preto e gravatas douradas, sempre douradas. Havia sempre o cheiro da urina dos mendigos no ponto de ônibus, e é claro, a urina dos gatos - mas essa tinha algo de poético dos telhados, do musgo, do tempo. Diante disso, o nome realmente não importa; e foi assim que nossa relação - não sei de de amizade, não se de ódio ou cumplicidade, começou quando fui encontrá-lo pela primeira vez em seu apartamento.
Tínhamos nos conhecido meses antes, no café de uma livraria, por mais implausível que isso possa parecer. Dois estranhos, gostos diferentes, livros diferentes, mesas diferentes; simplesmente aconteceu. Ele sorriu, balançou um livro do Bataille (que, de certo modo, dialogava com outro que estava na minha mesa) e eu sorri de volta, sem jeito. Nossa cumplicidade começou assim, literária, requintada. Tomamos nossos cafés e discutimos banalidades de vestíbulo; depois falamos muito de livros, de filmes, de trabalho. Ficou claro, desde logo, que seríamos amigos, mas amigos camaradas, e que trocaríamos cartas, mandaríamos livros com dedicatórias um para o outro, partilharíamos o que não podíamos partilhar com mais ninguém. E ficou claro que nossa amizade seria nosso segredo. No começo achei estranho, porque foi tacitamente que essa cláusula se unstaurou entre nós; depois de muito tempo entendi.
Conversamos à distância por meses, mas muito pouco por e-mail ou telefone. Ele falava pouco sem ser tête-a-tête (ele gosta esta palavra, gosta de dizê-la estalando a língua e rindo); preferia as cartas a qualquer outro meio, e assim nos correspondíamos tão estranhamente. Suas cartas vinham sempre em um envelope do Banco do Brasil, com meu nome digitado no papel por trás do plástico na face do envelope. Não lembro se ele me disse alguma vez como fazia isso, mas sempre ri dessa brincadeira - era o modo que ele achara de manter a confidencialidade de nossas cartas.
Semanalmente, trocávamos ideias sobre tudo que nos interessava, de livros a programas de televisão, de culinária a futilidades domésticas - nós dois temos gatos, e esse era nosso assunto fútil por excelência. Demorou até que ele se abrisse um pouco comigo e dissesse algo sobre sua vida pessoal - amor, sexo, angústias, medos. Uma tarde, antes de sair para meu treino diário na academia, recebi um envelope de outro banco, não me recordo qual, e havia uma carta muito breve, falando sobre um pulga descoberta em um edredon. Achei graça na hora, guardei a carta no meu escaninho de correspondência e fui treinar. Quando voltei, havia ligações dele em meu celular, várias. Liguei de volta e não obtive resposta. Liguei a noite toda, mas só no dia seguinte consegui falar com ele.
De fato, uma pulga aparecera do nada em seu edredon. Magra, sem sangue algum dentro (ele a estourara entre as unhas dos dedões). Fiquei mudo no telefone, pensando no que dizer e, de certo modo, duvidando de sua sanidade, mas ele logo desviou meu silêncio e disse que a pulga fizera com ele percebesse que estava muito sozinho, que sua existência era como a da pulga, perdida e faminta na imensidão de tecido branco, do vazio. Ele, então, fez uma pausa, pediu desculpas pela desabafo e disse que precisava sair, algo refenrente ao trabalho, e desligou.
Eu, que já ouvira coisas bem piores de amigos muito mais próximos e queridos, permaneci sentado na sala de meu apartamento uns bons trinta minutos, pensando na metáfora da pulga. Primeiro, a achei boba; depois, ponderei que para ele se expressar assim, de fato havia algo fora dos eixos - o que não me pareceu surpresa alguma em se tratando de quem era. Saí de minha inércia para ir trabalhar, mas antes fui cuidar de minhas gatas (só tenho fêmeas, coisa do acaso). Limpei a caixa de areia, troquei a água da vasilha e pus um pouco mais de ração. Parei na cozinha, conferi o que precisava ser comprado - pão, requeijão, granola, biscoito de chocolate, algo salgado para comer vendo tevê - e peguei minha pasta. Sobre minha mesa, entre a bagunça habitual de papéis, provas, livros, um volume amarelado que ele me enviara umas semanas antes, todo grifado, com o título "American drama". No dia que o recebi, coloquei na pilha sobre a mesa apenas vi que havia grifos - eu já conhecia o livro e sabia que era uma antologia do teatro norte-americano básico, Tenessee Williams, Eugene O'Neill, Arthur Miller. Agora, com a história da pulga, peguei o livro e decidi olhar.
Os grifos foram feitos a lápis, inicialmente, e destacavam falas angustiadas de diversas personagens. Por um instante considerei deixar para mais tarde a leitura, mas então vi uma página bastante rabiscada com várias setas, feitas com tinta vermelha. Um dos grifos chegara a rasgar um pouco a página de papel-jornal, bem abaixo do nome Blanche. Na fala em questão, Mitch, uma personagem da peça, tira um anteparo de papel ordinário de uma lâmpada e aponta a luz para o rosto de Blanche. A luz revela a pele envelhecida, a mocidade perdida; Mitch fica chocado e diz que ela deve ser realista e não fugir dos fatos, ao que ela responde odiar o realismo. Os grifos paravam nessa página, em cujo canto inferior ele rabiscara o homenzinho desesperado do Münch. Foi nesse dia que resolvi ir vê-lo, e foi quando descobri que o nome que eu nunca soube de verdade não importava.
segunda-feira, 16 de março de 2009
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