Há algum tempo, deixei de acreditar em coisas mágicas que simplesmente acontecem, do nada. Tornei-me calejado e um pouco insensível, talvez até mesmo desconfiado demais para perceber sutilezas do destino. Quando me dei conta disso, senti alívio: transição, mutação, evolução. Não mais decepções, não mais tardes de domingo à espera de algo desconhecido, imaterial, impalpável. Isso foi minha concepção dolorosa do amadurecimento e, como tudo que acontece inexoravelmente, acostumei-me à ideia.
Naquela noite, algo de fim de tarde, crepúsculo, desci a rua caminhando, calmo e, ao mesmo tempo, ansioso. Entraria, assim, desarmado, no labirinto do Minotauro? Era o mais plausível, afinal fora para isso que eu me preparara, era o que eu queria. Fascina-me o insólito que há nas fortes transições dos portais: de repente, da calçada penetra-se em um outro mundo, completamente estranho à vida basáltica da urbe, lá fora. Vapores, tons de vermelho mesclado à luz branca que se insinua, singela, por frestas e portas entreabertas. Penso em Dom Sebastião cavalgando através da neblina da madrugada e incorporo um tanto dessa inconsequência. Quero ser assim, sem medo, livre, imortal.
Entre o ser e o dever ser há vãos conceituais. O homem seria tão mais livre e pleno se tudo fosse claro, objetivo. Mas, não, nada é assim. O bicho primitivo é mais forte, sua cauda pesada nos arrasta para longe da superfície e acabamos transitando pelo tempo do lodo, do barro. Se não fosse tão primitiva a necessidade de entrar no incerto, nada me teria acontecido e a vida seria, ainda, como a de antes - talvez não exatamente igual, mas sem qualquer diferença realmente significativa. Por isso celebro o pântano em mim, o crocodilo e a rã, catedrais góticas da alma que, na noite do alumbramento supersticioso, dobraram sinos pela boa fortuna.
Atravessei os umbrais que separam os dois mundos e não pude deixar de pensar quão surreal era aquilo. Hesitei um instante, não mais que isso: instinto, quem sabe. Entrei. A neblina era bem menos densa que nas fantasias do jovem rei; minha madrugada crepuscular foi bem mais nítida e graças a essa nitidez meus olhos puderam achar outros olhos, mesmo quando todas as probabilidades indicavam que isso seria impossível.
O modo como aconteceu é tão vívido na minha memória como todo o resto, mas falar disso é como conspurcar uma epifania. Por outro lado, considero a possibilidade de, com o passar dos anos, a memória me trair e algo disso tudo se perder. Opto por registrar tudo e, assim, assenhorar-me da materialidade da lembrança.
Começou com um olhar de esguelho. Incrédulo parei, detive-me em contemplação e desejo: seria mesmo real, naquele espaço de interseção entre dois mundos, alguém como ele, perdido, pálido pela luz branca que rompia a escuridão? Observei por um tempo e depois me perdi. Nas incertezas do labirinto, a escuridão é o próprio caos e o que me restava senão o caos. Mas qual não foi minha surpresa quando sua mão me tocou e me disse que era de verdade, que não era sonho, que não era feito de sonho - ainda que esta última possibilidade não se tenha descartado por completo.
O que seguiu é difícil de descrever ou narrar; o fluxo onírico foi complexo - música, calor, suor, estalos, ruídos, desejo. A carne não exige reparações, não cobra os pecados que, na verdade, não são pecados. A alma dentro dela é outra coisa, e teria sido uma equação simples se, em algum instante, meus olhos não tivessem se perdido nos seus olhos. Imensidão de mar incerto; vagas marolas silenciosas; valquírias e tempestade.
O resto foi explosão e o ato em mim ecoa, rompendo uma forma de noite que se instalou quando eu perdera minha fé. Não sei se a fé voltou, mas lampejos verdes, de um verde muito claro, atravessam a escuridão.
domingo, 15 de março de 2009
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