As cidades provincianas talvez não existam mais. Deixou de haver alguma vantagem em viver longe das metrópoles, das big apples: as pessoas não se conhecem como antes, não destilam o veneno lento que, na sedimentação, forjava as melhores caldeiras do diabo. O que restou foi a limitação de viver onde não há nada além do básico; e o corpo é básico.
Gosto de recriar sensações que apenas intuo ter tido. Minha terapeuta disse que isso é parte de um processo obcessivo e auto-defensivo. Não creio muito e não gosto de pensar nisso; eu sei o que é defesa, e sei o que é defesa em mim - e, definitivamente, está longe do meu conceito de feng-shui. Ou não. Preciso ser honesto: não se trata de feng-shui; é algo maior, um pouco compulsivo (a louca estava certa nisso), porém plenamente consciente. É como um jogo, mas arquitetado nos meus moldes, não tenho como perder, jamais.
Eu preferia sentir remorso; ter aquele nó que, um pouco acima do estômago, faz subir um gosto de fel na boca. Não sinto. Nada. Sou meio egoísta como o crocodilo do Guimarães Rosa: quero as benesses da superfície e a exclusividade das profundezas. Não deixo espaço para reveses e não creio que isso me torne menos humano ou honesto. Há um que de competência nisso; não, porém, a sensação de superioridade. Na verdade, eu me vitimo com essa condição.
Ponderando bem, não tenho o dom para ser algoz; é mais simples ser a vítima, o injustiçado, o massacrado. A força que vem do sofrimento nos blinda, mesmo que nossa carne seja exposta pelo inimigo. Se eu tivesse descoberto isso sozinho, seria um homem rico - os judeus que me desculpem o cinismo, mas rendo louvores a eles (na minha relativa ignorância histórica de outro povo que tenha se tocado disso antes). Sarcasmo retórico à parte, pondero: é ruim sofrer, mas ainda é melhor que fazer sofrer. Paradoxo para alguém que não sente remorso? Olhando com a vista turva pela parcialidade, sim. Não é o meu caso.
Apesar de solitário por natureza, o amor me conduziu para edens de calor familiar e coletividade, e vivi isso - vivo, na verdade. Amo e deixo de ser eu. Eis o mecanismo da dor, sem mistérios. Viciei-me nesse amor do aconchego e hoje, ao mesmo tempo que ele me corrói, na medida em que destila minha essência em um refresco da minha autenticidade, parece ser a única ilha em que não há sofrimento.
Continuo na poça, insaciável e tendo diante de mim um anjo vingador. Nosso tempo não é tempo de nada, é uma era que acabou. O que está por vir é menos que mistério, é tão somente uma espécie enlouquecedora de vazio. O relógio, no entanto, se move. Vou sair: na metrópole inventada, caos de edifícios e trânsito me conduzem pelo labirinto de uma vida também inventada.
quinta-feira, 26 de fevereiro de 2009
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