Tenho em meu escritório uma foto na qual se vê um poeta imerso em sua biblioteca. O termo é realmente esse: imerso. A foto foi tirada de cima para baixo e nos dá a impressão de que o artista ali é uma espécia de caramujo, um ermitão visceralmente ligado à sua carapaça de estantes, livros e papéis. A foto, comprei-a em uma megastore de livros, já emoldurada em um plástico barato. Assim ficou, e gosto de olhá-la, contemplando um espelho inexato.
Nos dias de maior tensão, o trabalho se torna pesado, mas não carregado do peso ordinário do enfado ou do esgotamento; torna-se viscoso, como um pântano amolecido e morno. Nesses dias contemplo a foto e o poeta me estende a mão. Saio do lodaçal e durmo, embalado, geralmente, por um sonho que me vem reiteradamente, desde criança. Esse sonho começou quando me contaram o mito de Tântalo, e o que me restou na cabeça foi um guerreiro esfarrapado, ajoelhado em uma poça e chorando ante um mundo destroçado.
Como não sou dado a saídas simples, nunca tentei compreender as razões dessa imagem; detive-me na relativa beleza da insaciedade. Não querendo cair no lugar comum, sinto-me embaraçado em dizer, mas é preciso dizer... a vida nos tira tudo: a ilusão da infância, a proteção do lar paterno, a segurança de ser jovem, o controle sobre os jovens que nos seguem. Terminamos na mesma lama de antes, só que agora são nossos ossos que virarão o pó fecundo do que está por vir. Em suma, somos apenas parte inclassificável no ciclo da vida e morte, mas muito já se escreveu sobre isso. Muito, aliás, já se escreveu sobre tudo. Mas se Tântalo se alimentasse de literatura, o infinito se reinventaria constantemente. Outro fato: os homens perdem, na memória, o que já foi feito, escrito, guerreado. Somos insaciáveis porque, de certo modo, perdemos a noção da própria saciedade - isso torna a metáfora mais rica e bela, e, retoricamente, consolida o porquê desse narrador que tão precariamente se dirige à invisível plateia.
Além da fome eterna, sempre vi em Tântalo a figurativização perfeita do cansaço do mundo, do homem no mundo. Erguemos torres até D´us e ele a derrubou; calibramos na forja cultural e nas traquinagens divinais, a história rodopiou demais pelos séculos. A humanidade viveu o paradoxo como regra, ou teria vivido, se isso, por si só, não fosse paradoxal e, é claro, vieriano. Barroquismos à parte, somos uma espécie que talvez desapareça porque simplesmente cansou de existir.
Trágico? Claro que não, mas digo isso sem sobressalto - bem britânico: absolutely not! (talvez omitindo essa exclamação). Uma vez esgotado, recosto-me na cadeira e fico olhando lombadas, velhas amigas. Não tenho memória prodigiosa, mas cada livro tem a sua história (além da parte ficcional, dentro, obviamente). Um pouco para cima, à direita, uma edição antiga de Dom Casmurro. Editora Excelsior, talvez nem exista mais. Comprei-o em um sebo que ficava em um porão com cheiro de mofo bom, mofo literário. Li aos quinze anos, talvez tarde, talvez não. Nessa idade, grifei a lápis uma sentença que pareceu extraordinariamente única e perfeita. Bentinho divaga, na velhice, afirmando: "meu fim evidente era atar as duas pontas da vida, e restaurar na velhice a adolescência" (capítulo II). Não preciso pegar o livro, sei que está lá, e sei que são essas as palavras. Escrevo-as aqui e as olho, inquieto.
Com pouco menos de trinta anos, falta-me a velhice para buscar restaurar uma adolescência que, a muito custo, insisto em não permitir que acabe. A citação, portanto, não cabe a mim; não pelo menos no seu sentido imediato. Ela, além do óbvio, entrega uma outra e preciosa pista: o atar as tais pontas é puramente subjetivo e, portanto, parcial, injusto com as partes sem voz da história. Ao falar de mim, serei acometido pelo mal congênito da auto-cumplicidade; narrador problemático, neurastêmico, crápula do discurso que deveria se pretender honesto - e ressalto que dever ser é ligeiramente diferente de ser de fato.
Sendo assim, esse que vos fala foi apresentado. Não dei a conhecer tudo, porque esse jogo é para os astutos e conhecer a totalidade é, em tese, uma pretensão equivocada. Restam os fatos da vida, o que de fato acontece é se faz matéria para a existência literária. Confiarão em mim leitores? Será tudo produto de divagão? Ou a verdade apenas subjaz à neblina das metáforas?
quarta-feira, 25 de fevereiro de 2009
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