- Adeus. Adeus amigo...
Cai uma leve e suave chuva, deixo-o para sempre, descansando finalmente de sua vida amarga. Foram minhas últimas palavras a ele. Percebo agora o quanto as palavras poderiam ter mudado o rumo dos fatos, mas é tarde agora...
Um de meus maiores medos, desde a infância longínqua, sempre foi a morte. Em sonhos apocalipticos, via um cavaleiro todo de negro, do qual só conseguia enxergar os olhos avermelhados - repletos de uma expressão atemorizante de ódio, uma expressão que fazia com o sangue de meu corpo se tornasse viscoso e frio, de modo a provocar uma espécie de arrepio diabólico ao longo de minhas costas e nuca. Este, vinha montado sobre um imponente corcel, também negro; trazia uma das mãos às redeas do animal, e na outra repousava um pássaro grande e negro como o breu da noite. Nos meus sonhos, quando o cavalo chegava perto de meu corpo desfalecido, sobre um balcão de granito cinzento, a elegante ave de rapina avançava sobre meu rosto e consumia a carne deste, com bicadas firmes e decididas, inclinando sua bela cabeça para engolir os bocados... Quando o cruel animal se aproximava de meus olhos, que mesmo fechados podiam observar o espetáculo sangrento, uma onda de pavor me fazia despertar, completamente molhado por um suor gélido. Desde estes tempos, temi a morte, afastando-me, até bem pouco tempo atrás, de moribundos, cemitérios e até mesmo de pessoas queridas assombradas pelo meu cavaleiro sombrio...; o aspecto, em si, da morada de meu amigo era o da entrada do purgatório. Meu sangue se espessou, como que coagulado, minhas mãos tremiam naquele ambiente úmido e gélido, meus dentes batiam e meu coração doia-me no peito, como que anunciando algo.
Fazia muito frio na noite em que ele me chamou até seu apartamento. Era um edifício antigo, localizado num bairro pobre do subúrbio da grande e mórbida cidade. A fachada era marcada pelo tempo e pelas intempéries da natureza, podiam-se ver as marcas deixadas pelas águas das chuvas; nas tímidas janelas reinavam míseras jardineiras, de onde apontavam árbustos secos e contorcidos, mortos pelo tempo e pelo descuido, o que, sutilmente, acentuava o aspecto de desolação que reinava ali.
O elevador, nada mais do que uma caixa metálica provida de poucos e grotescos comandos mecânicos, me deixou, alguns andares acima, num corredor imundo e fétido, repleto de portas amarelecidas pelo tempo e muitas vezes danificadas pela provável violência dos moradores daquela pocilga infecta. Eu podia sentir o cheiro acre doce de uma sopa rala e gordurasa provindo de um dos apartamentos à minha esquerda, ouvia o choro de crianças ranhosas, que entre as lágrimas tossiam, eliminando uma secreção amarelada e sonora, a qual podia perceber através da fina porta de madeira barata. A morada dele ficava à minha direita. Parei em frente a porta, que me parecia um tanto quanto mais conservada do que as demais, e proferi tímidos baques, como temendo ferir a fragilidade que aquele mundo secreto - onde ele vivera isolado por anos - me inspirava.
Do outro lado escutei passadas pesadas e arrastadas, como que as de um doente ou moribundo. Naquele momento, antes que a porta se abrisse, o medo me invadiu: era algo infantil, sem nexo, porém capaz de aterrorizar um homem feito como eu;, senti um enorme vontade de sair dali, de fugir e me esquecer que aquele ser que há anos não via, do qual me esquecera quase que por completo. Porém, algo que vinha do fundo de minha alma me pedia para ficar e enfrentar a realidade que se apresentava. Permaneci imóvel até a porta se abrir. Da escuridão da pequena peça que compunha o apartamento, surgiu uma grande e comovente figura: um homem de aproximadamente quarenta e cinco anos, completamente grisalho; seu rosto cansado estava marcado por uma rústica barba de terça-feira e seus olhos denunciavam noites de vigília. Podia ver em sua expressão a tormenta que habitava sua alma, o cansaço se fazia denunciar pelas rugar em torno dos olhos; tinha a minha frente um ser completamente arruinado.
Ele se afastou um pouco e, percebendo minha reação de espanto e tristeza, me convidou a entrar. No pequeno interior de sua morada, haviam inúmeras estantes, forradas, do chão até o teto, de livros. A um canto havia um modesto sofá-cama e à frente deste, uma mesa com duas cadeiras. Havia ainda um banheiro de modestas dimensões, que compartilhava as funções de lavatório e cozinha. E só.
Uma angústia enorme me invadiu, tinha vontade de sair dali, de me refugiar no aconchego de meu próprio lar. Ele me convidou a sentar e eu obedeci, escolhendo uma das cadeiras da mesa. Ele se sentou na restante. Iniciou-se entre nós um diálogo tímido, de amigos que não se vem há muito tempo e coisas desse tipo. Num certo ponto do diálogo ele ergueu a cabeça, a qual tinha mantido abaixada durante a conversa toda, me olhou direto nos olhos e me fez um pedido, mesclado com um desabafo, que, até hoje, me faz sentir um dor aguda do lado esquerdo do peito:
_ Acabou. A vida me dá agora um ultimato e por isso eu o chamo aqui. Os anos se passaram e eu fiquei só, sem amigos ou família, sem uma amante ou filhos. É minha vontade que não morra comigo tudo o que eu passei nesta vida ingrata, que minhas memórias fiquem e que alguém, ou quem sabe muita gente, as leiam e possam descobrir na minha desgraça um caminho melhor ou um consolo, posto que o vazio que me matou aos poucos desde meus tenros anos consiste na maior infelicidade que um deus qualquer imaginou para provar seus supostos subordinados. Eu quero deixar com você, meu único amigo - e neste momento pude vislumbrar uma grossa lágrima rolando de seus olhos vermelhos de emoção - esta caixa, contendo cartas e diários organizados por datas para que o mundo possa conhecer o meu suplício e ...
A partir daí eu pouco pude ouvir de suas palavras pausadas e cansadas, como as de um ancião de cem anos, dentro de mim explodia a reação causada por aquela confissão sincera: eu sabia, de certo modo, o que ele queria me dizer e só consegui senti um sentimento profundo de arrependimento e pena que por pouco não me pûs em prantos. Ele continuava:
- Agora que você já sabe de tudo e que tem meu “legado” ao mundo, eu queria te dar um abraço, de poder sentir um pouco do calor humano do qual me esqueci há muito - e, então ele se levantou com dificuldade e me deu um abraço quente e apertado, semelhante àquele que meu pai me dera quando minha mãe morrera, no qual ele queria me consolar e ao mesmo tempo se consolar pela perda.
Eu podia sentir em meus ombros a umidade provocada pelas lágrimes dele e também chorei, não de alegria, mas por causa de um sentimento doloroso de culpa e pena ao mesmo tempo. Nos desvencilhamos do abraço e ele caiu deitado do sofá-cama, com uma respiração difícil e ofegante. Me inclinei sobre o corpo e percebi que estava inerte, morto...
Que ele descanse em paz e encontre no mundo dos mortos a felicidade que lhe negamos em vida. Volto para minha casa com aquela caixa no colo, enquanto o motorista vaga pelas ruas molhadas; aproveito para olhar o conteúdo precioso e pego um pequeno caderno com uma capa de couro puído, onde se lia uma data impressa em ouro, correspondente a nossa época de adolescente:
...e o chão sob meus pés se abriu, da fenda escura surgiu um crânio imenso, assustador. Aos poucos, muito lentamente, uma matéria brilhante, com uma espécie de tonalidade mista, semelhante a um mármore, porém brilhante como o ouro e a prata, foi tomando a forma de uma cabeça sinistra, inanimada. Passados alguns minutos - o medo fora substituído pela curiosidade - uma imensa massa brilhante pairava sobre mim, suspensa por forças invisíveis; quando criança, esta mesma imagem tomava meus sonhos e eu acreditava ser Deus querendo falar comigo, a cena em si era chocante: um menino de pijamas sobre um bloco de pedra negra e flutuante num enorme vazio, um caos de minhas parcas memórias, onde podia vislumbrar alegrias e tristezas de minha ainda breve vida. O crânio, de aspecto metálico, mas de uma consistência quase líquida, nos primeiros sonhos, permaneceu inerte, sem vida.
Não demorou muito - e este sonho projetava-se em minha mente todas as noites, como que simbolizando algo, quem sabe? - a grande cabeça abriu seus olhos e pude vislumbrar aquilo que, num primeiro momento, acreditei ser a alma da criatura metálica: além das pálpebras reinava a penumbra da escuridão, porém, lentamente, uma imagem ia crescendo do fundo das cavidades oculares em um dos olhos, pairava a imagem de um céu, carregado com nuvens que se movimentavam muito rapidamente; no outro, crepitavam chamas furiosas, num presságio seguro do inferno que me aguardava. No instante em que me assegurei de que as imagens eram realmente aquelas, o metálico do “rosto” daquele ser dividiu-se, separando a cabeça em dois hemisférios: a parte, a minha direita, assumiu uma expressão serena, amável, quase que materna, enquanto que a outra tornou-se o oposto, má, assustadora; de seu único olho eu via todo o ódio e amargura que nos últimos dias de minha vida viriam a tomar posse de minha alma. No dia em que tive este sonho - e não era mais do que uma criança de seis ou sete anos -, acordei gritando e suando, temendo algo que nem sequer sabia existir.
A Infância, época de alegria e luz para a maioria, nada mais foi do que uma sequência de pesadelos para mim, noites em claro temendo mais um sonho ou então vigílias prolongadas após um deles. A auréola luminosa que paira sobre a cabeça das crianças foi substituído, em mim, pelas olheiras e pelo medo. As sombras destes anos foram apenas o início, quisera o destino que não tivesse sucumbido para viver o meio e depois o triste fim ...
- Patrão! Patrão! O senhor está bem? _ perguntava o motorista.
- Sim!? O que? _ respondi ainda longe, ligado à leitura.
- Devo voltar para casa?
- Oh, claro. Volte logo, sim?
Naquelas primeiras páginas de pequeno diário, algum elemento, alguma palavra ou frase havia conseguido penetrar no fundo de meu subconsciente e causar um grande rebuliço. Não era compaixão nem remorso, sentimentos que me abalavam horas antes, mas sim uma lembrança há muito esquecida, presa nas profundezas do passado e que aquele texto havia puxado à tona.
A noite veio logo e não quis tocar no jantar, deixado pela criada na mesinha da biblioteca. Enquanto remexia na caixa, bebericava um cálice de conhaque para aquecer os ossos - uma necessidade da idade. Em meio aos pequenos cadernos de capa de couro, surgiu uma carta assim endereçada
Para D., amigo e quase irmão
(Devo esclarecer que D. sou eu). Rapidamente abri o lacre e pus-me a ler:
Acredite no que vai ler, é muito importante. Comemoraria hoje, caso houvesse motivo, meus exatos quarenta anos. Vivi, imerso na solidão, por também exatos quarenta anos. É triste mas é fato. Do momento em que dominei o uso de minha razão travei uma busca sem tréguas para a raiz deste mal que me corrói, o que ocorreu por volta de meus quatorze anos. De lá para cá o sofrimento foi meu pão. Minha alma secou por que não tive água.
Levei uma vida confortável, do ponto de vista material. “É um grande homem”, disseram alguns; um médico até o dia de ontem. Hoje me encontro numa pocilga mal cheirosa, sentado nesta mesa tosca, tendo a minha frente esta página de papel puramente branco e cândido e, na cadeira ao meu lado o velho revólver taurus de meu pai, com o qual tenho tentado dar fim a vida a mais de vinte e cinco anos, sem nunca conseguir ir até o fim. Um covarde? Talvez. Na verdade, um mártir - soa melhor e é mais digno.
Após terminar esta carta, pretendo começar a escrever toda a minha vida, na forma de pequenos diários, os quais quero que você leia. Eu sei que será massante, mas, por favor, leia. Há algo que nos une, apesar de não nos vermos a anos, e que nos torna homens diferentes mas com um destino igual.
Ao longo de sua leitura, espero que você consiga as armas para lutar contra o destino e vencer a solidão que eu sei que lhe persegue, tanto quanto a mim, porém, de forma imperceptível. Não quero que você reconheça em sua vida o mal que assolou, quero, ao preço da minha, livrá-lo dele.
As últimas palavras escritas numa caligrafia acidentada e desleixada, típica do grande médico que ele fora, conseguiram me abalar profundamente. O sentimento que assolara minha alma enquanto lia o pequeno diário voltara, porém de forma mais clara e ofensiva; em minha mente, as névoas do passado começavam a tomar forma, sem que eu pudesse ainda identificá-la.
Naquela noite, o tempo demorava a passar, o grande relógio do hall, dos tempos gloriosos de meus avós, soava as horas tão espassadamente que um abismo de eternidade separava as badaladas. Os pequenos cadernos estavam à minha frente e o medo me impedia de tocá-los, era como se eu temesse descobrir o que as delicadas capas de couro escondiam. Esperei a coragem, e, muito tardiamente, ela veio.
... Se a infância foi uma breve introdução da saga de infelicidades que viria a ser minha vida, a adolescência e juventude foram ainda piores. Existem vários tipos de solidão, os quais acredito ter vivido nos anos de minha existência, porém quero dividí-los em dois grupos definidos: existe o solitário, que privado do contato humano, do calor de uma amizade ou de um amor, assume um caráter recluso e infeliz; existe, não obstante, um outro tipo que consiste no oposto - é quando o indivíduo, cercado de pessoas, num convívio normal, encontra o vazio, e nada mais que o vazio. Este último tipo é muito pior que o primeiro, posto que o infeliz solitário tem uma visão muito mais aterradora da solidão - a vê como um mal sem fim, um câncer que devora a alma e o corpo, cuja única solução é a morte.
Na primeira fase de minha vida, o isolamento dominou minha existência. Vivi a solidão da ausência, sem amigos ou quem me desse o mínimo de calor humano, tornando-me frio e austero na adolescência, onde, conheci então o segundo e terrível tipo. No meio da multidão que me cercava, não conseguia encontrar um amigo verdadeiro, alguém que realmente pudesse enchergar minha alma e confortar meu espírito. Tornei-me mais infeliz e mergulhei nos estudos das ciências médicas, na esperança de que ao me ensinarem curar os males do corpo, aprendesse também a imendar almas partidas. Foi tudo em vão.
Tornei-me o melhor, tinha que o ser. Meus mestres identificavam em minha obstinação o dom supremo que poucos médicos possuiam, acreditavam que Hipócrates me abençoara de sua morada no Olimpo, fazendo de mim o que fizera. Estes julgamentos doiam-me, posto que pela primeira vez na vida eu percebia que alguém invejava minha situação, enquanto esta me causava repulsa.
Tornei-me um homem rico e respeitado. Construi um império, sempre na esperança de que isto aproximasse as pessoas de mim, mas ao contrário de meus propósitos, as afastei. Quis formar uma família, casar com uma mulher que me completasse, que me desse filhos, os quais eu poderia dar um destino diferente do meu, porém mais uma vez o fiz em vão.
Aos trinta anos me casei com C., uma mulher de beleza e posição, cobiçada e amada por muitos outros homens. O que havia na Terra que uma mulher pudesse desejar ela teve, desde roupas e jóias até viagens pelo mundo. Nosso relacionamennto, porém, era frivolo. Eu me afeiçoara a ela, sem, no entanto, conseguir que este sentimento penetrasse na alma e aquecesse meu coração. Quando ela finalmente anunciou que esperava um filho nosso, achei que meu suplício chegava ao fim.
Os oito meses que anteciparam a vinda ao mundo de meu herdeiro foram os únicos em que vive a ilusão da felicidade. Comecei a amar aquela mulher que carregava em si a semente de minha vida de modo que sentia um calor no peito, era bom, minhas lágrimas tornaram-se mornas.
Quando ainda faltava um mês para o nascimento, numa manhã ela não desceu para o café. Achei natural e mandei uma das criadas preparar uma bandeja que eu mesmo levaria para ela. A rapariga trouxe uma bela bandeija de vime trançado, com um café balanceado, o qual eu mesmo elaborara o cardápio - durante toda a gravidez de C., eu fui seu médico, sem permitir que qualquer outro se aproximasse dela.
Contente de levar sua refeição, subi as escadarias que separavam nosso pavilhão do principal e alcancei o corredor que levava ao nosso quarto. Apoiei a bandeija num dos braços e abri a porta. O quarto era imenso, totalmente revestido com peças inteiras de seda azul. O leito, imenso, conforme ela mesma me dissera que sempre sonhara, estava vazio. Pousei o café numa pequena mesinha e procurei pelo aposento. Revistei seu quarto de vestir e nada encontrei. Fui, então, até o banheiro. A porta estava trancada e bati delicadamente à porta. Sem resposta. Bati novamente e neste instante olhei para baixo, um leve fiozinho rubro escorria pelo vão da porta. Um terror súbito tomou e pus a porta abaixo, fazendo-a em pedaços. Lá dentro, caída no chão estava C., em meio a uma poça de sangue. Completamente fora de mim, aproximei-me dela e verifiquei que estava morta.
Os peritos nunca chegaram a uma conclusão clara, porém, são unanimes em afirmar que ela escorregara em alguma coisa e caíra, batendo a barriga na quina da banheira e a cabeça numa estúpida estátua de Vênus que ornava a entrava do box. Daquele dia em diante, nada mais me importou, tinha trinta e três anos de idade, uma carreira brilhante e uma fortuna que poucos profissionais de minha área poderiam conseguir em vidas inteiras.
Resolvi vender tudo o que possuia, casa, carros, uma fazendo, um pequeno avião, minha clínica e tudo o mais. Apliquei esta fortuna numa única conta e me mudei para este buraco, onde enterrei minha vida e alma numa busca incessante pela verdade.
O que a vida me reservou não foi mais do que isto. Sei que um câncer me toma o corpo e que pouco resta para mim. Como você poderá comprovar no dia que eu o chamar até aqui para buscar estas breves memórias, meus últinmos anos nada mais foram do que uma luta contra o tempo no intuito de encontrar uma resposta qualquer. E então, resolvi procurar nas lembranças alguém que, por algum motivo, se assemelhasse a mim. E você, o oposto daquilo que eu sempre fora, me pareceu o único que, em termos de solidão e infelicidade se aproximaria de mim.
Creia-me, se houvesse uma resposta melhor da que eu vou lhe dar eu a teria descoberto e não estaria morto enquanto você lê estas páginas melancólicas. Apesar disto, porém, acredito que, sabendo agora como progride o mal que nos assola, tendo conhecimento das armadilhas que este arquiteta em conchavo com o destino, você possa mudar a sua vida e clarear a existência efêmera em que subsiste. É noite avançada e a dor devora minhas vísceras, é hora de parar, talvez para sempre, até quando a morte nos fazer encontrar...
Um profundo cansaço toma meu corpo agora. Fecho o pequeno caderno, o último, e sinto uma fadiga pesada, como a de Atlas, que susteu nos ombros o peso do mundo. Passo a mão pelo rosto e sinto a barba apontando e tornando a face áspera. Os olhos cansados e pesados. Dirijo-me a um espelho e contemplo meu semblante, apesar da idade a beleza ainda não abandonou-me, porém, ao olhar dentro de meus olhos fixamente não vejo nada, somente um ponto negro que dilata-se conforme procuro ver mais fundo. Neste momento, as palavras escritas naqueles cadernos começam a fazer sentido em minha cabeça.
Volto para a poltrona, que ainda tem a marca de meu corpo incrustrada no couro surrado. Fecho os olhos e retorno a infância, passo pela adolescência e chego a minha maturidade, descobrindo que afora as transformações físicas, o vazio foi o resultado de mais de quarenta anos de existência, que apesar do dinheiro e das mulheres a vida nada mais foi do que uma bruma efêmera, sem sentido algum.
Não me acredito infeliz, mas sim vazio. De repente, tudo perde a forma e a razão, o sentido das coisas deixa de existir e puxo a caixa para meu colo. De olhos cerrados revisto seu fundo e encontro um pequeno fraso negro, com uma tampa delicadamente trabalhada a prata. Sem abrir os olhos, destampo o pequeno frasco e bebo o conteúdo líquido, cheirando a amêndoas amargas.
A vista já se torna turva e o fim não tarda a chegar. Com muito esforço arrasto-me até a secretária e escrevo estas breves frases
Sinto, muito lentamente a vida esvair de meu corpo, tal como a senti abandonar minha alma durante tempo muito maior. A vida foi para mim uma ilusão de felicidades falsas. Precisei enterrar um amigo para abrir minha cova, mas sinto-me bem; me aproximo da eternidade feliz de não deixar quem chore por mim, por deixar uma vida condenada a infelicidade. Sei que estas palavras não soaram poeticamente, mas espero que fiquem para que a humanidade se aperceba de que se não perdermos o egoísmo, com o qual os deuses nos muniram ou castigaram, estaremos todos condenados a um fim igual ao meu; que ela também tome consciência de amar e ser amado é o único modo de preencher o vazio das almas, o único modo de partirmos para o eterno conscientes de termos deixado uma semente...
A última restia de vida uso para olhar pela janela de meu escritório e ver o sol nascendo no horizonte, contemplo este fenômeno durante alguns instantes feliz por partir num momento em que o grande astro vem preencher o meu vazio...
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