O cheiro de seu corpo era doce como a juventude que transbordava para longe de mim, dia a dia. Mais do que a beleza dos traços, do desenho dos músculos sob a camiseta, o frescor da pele levemente morena, o sorriso de quem ainda não teve desilusões, havia uma espécie de perfume imaculado que me lembrava das primeiras vezes que tive outro corpo junto ao meu e o amor era tão mais simples e forte e bom. Subitamente, a presença de um estranho me transportou para uma outra era, passado tão próximo em anos e, ao mesmo tempo, tão intangível, perdido, implausível agora, que os rumos da minha vida me trouxeram até aqui.
Estar ali fez com que eu me sentisse ancestral e calcinado no jardim de estátuas da minha geração, coberto por uma espécie de musgo mais transcendental que o tempo. Eu envelhecia, era inegável, e a juventude dele era ainda mais dolorosa porque, ao dialogar caoticamente com a minha ainda jovem idade, me lembrava não o que eu era, mas tão somente do que acabara de passar por mim.
O tempo teria menos significado se nós fôssemos outros, creio. Caminho pelas ruas da cidade e o fato de ser esta cidade não muda nada; qualquer cidade seria ainda a minha cidade, ou talvez a questão não seja a cidade. Caminho e me deixo guiar pelo olhar, algumas vezes pelo tato. Ando sem objetivos sólidos e busco ruas desertas, com árvores velhas e casas em cujo interior só haja memórias, não vida. Mas as casas infelizmente sempre têm alguma vida; não raro uma ou mais vidas, hoje tão sem sentido, ínfimas, vazias e tristes.
*****
Gosto, ao encontrar uma velha residência de uma época mais glamourosa que esta nossa, de me deter diante do muro ou das grades, quando ainda os há, e olhar, sem pressa e, na medida das minhas fraquezas, sem paixão. Toco algo de sua matéria decrépita, um pedaço de sua madeira ressequida ou podre, uma lasca da tinta que já descasca, um caco de vidro, e me deixo invadir pela lembrança imaginária das histórias contidas ali. Imagino a aurora do prédio, quando pela primeira vez os primeiros habitantes penetraram seu interior e sentiram o cheiro do verniz e da tinta novos, e correram seus dedos pela textura ainda virgem das paredes e ladrilhos, tão puros e sem cancros que poderiam toca-los com a ponta da língua.
Transporto-me para dentro dessa casa que já fora e de repente sou eu que sinto, sinto tudo, o cheiro da cambraia fina das cortinas novas, a finura da laca nos móveis da sala, o frescor do linho nos lençóis trazidos da Ilha da Madeira e que foram presente de uma tia já defunta. Percorro corredores em busca de sensações, percebendo a feminilidade confortável das reentrâncias da casa, algo outrora já cantado pelo poetas das arestas e que agora não passa de mais um fantasma que me habita.
Como me alegra o ranger do assoalho novo, tão mais leve e sibilante que o grito de desespero das taboas da casa velha. Caminho e quem eu sou contrasta com o que foram as pessoas que devem ter morado ali. Atravesso cômodos e, como um fantasma, me alimento dos sonhos dessa gente que desconhece o que virá e que não imagina, ou não quer imaginar, o que será de seus sonhos, sua felicidade.
Forço meus sentidos e já é possível sentir o cheiro da lenha no fogão, o perfume do café e do bolo, o tilintar das xícaras e dos talheres. Sobre a mesa de uma copa imensa, vejo espectros acinzentados de crianças comendo e rindo, servidas pela matrona gorda e sorridente, orgulhosa das manchas em seu avental e das panelas ariadas e brilhantes penduradas na janela. Estendo minha mão suavemente em direção de seu rosto e me compadeço da inocência e simplicidade; na rendinha já gasta da gola de sua camisa, uma medalhinha de São José, evidência de uma fé que certamente vai desaparecer, talvez no dia em que o primeiro filho for velado naquela mesma mesa? Talvez no dia em que o marido for embora e não houver guerra ou manto sobre o qual descontar as tristezas da solidão? Ou talvez, quem sabe, se o coração dessa mulher for menos nobre do que se imagina, no dia em que seu fogão for cimentado e der lugar a uma caixa de lata e botões? Ou mesmo quando não houver mais lençóis e toalhas da Ilha da Madeira e tudo o que restar nos baús seja apenas a lembrança, mofada e decrépita lembrança daquele primeiro dia quando tudo, ela e a casa eram jovens e não desconfiavam de nada.
*****
Volto da vertigem e estou parado na rua, mais triste do que antes, com o coração pesado e angustiado. O drama do tempo me atravessa, me mastiga. Minha mortalidade é ofensiva e me desespera menos pela perspectiva da morte que pela idéia do processo de infelicidade, tão cruelmente oposto ao do nascimento de uma casa. O tempo que nos despovoa me assusta e o frio do cair da tarde me faz colocar as mãos nos bolsos e me apressar. O céu de inverno se pinta de cores indefiníveis e traz consigo a noite; é hora de voltar, mas para onde?
Minha geração não constrói mais templos, ainda que alguns de nós tentem, devo confessar. Tudo o que temos é imediato, é o que está mais próximo. Somos, quando muito, caracóis de uma época de caos e incertezas, habitando conchas conceituais. Volto e o retorno me soa tão metafórico e desesperador... Meu templo é este corpo, minha moeda e minha espada, minha clave de crueldade e poder sobre todos os outros e também sobre mim, por mais paradoxal que pareça.
O destino ao qual os passos me levam é menos o lar que o refúgio. Escondo-me por sob os escombros de um mundo projetado apenas em mim mesmo, razão pela qual me sinto mais honesto em considerá-lo minha toca que minha casa. Nesse lugar onde deposito os produtos de meus crimes, habito em constante capitulação, negando e negando tudo através da busca pelo que já não é mais, pelo que já não pode me pertencer mais. E foi ao retornar a este universo paralelo dentro de meu apartamento que entrei no elevador com Pátroclo e subitamente reencontrei as razões da minha guerra.
Este foi meu ponto naquele momento, nada mais. Ao entrar naquele elevador, numa tarde qualquer, não importa, esse foi o pensamento que me veio, simples: o cheiro do seu corpo. É aqui que começa minha história, ou talvez termine a minha verdadeira história, não posso dizer ao certo.
Primeiro movimento – hino dos mortos
Apesar de ser março e o calor dos dias anteriores não permitir nenhuma evidência do outono, o frio chegou com a neblina noturna e a chuva da manhã. O barulho das gotas metálicas na janela do quarto despertou primeiro A., que dormira com a cabeça voltada para os pés da cama e pôde sentir o ar fresco que passava pelas frestas quando o vento soprava com mais força. A luz no quarto era cinza, talvez azul, mas seus pensamentos o levaram a considera-la especialmente triste naquela manhã. P. enrolara-se no edredon e seus pés, descobertos, estavam frios. A. tocou-os com a ponta do nariz e teve vontade de não estar ali, simplesmente desaparecer. Lamentando não ter hábitos escapistas, como o cigarro ou o álcool pela manhã, levantou da cama sem fazer barulho e foi ao banheiro.
Era incrível como a sensação de frêmito nos flancos causado pela mijada matutina tinha o poder de lhe dar sanidade e paz. “Eu existo porque mijo”. Pensava e ria sozinho. Bobagens. A pia e o aparador bagunçados, frascos abertos, restos de coisas indecifráveis coladas na superfície de cerâmica manchada da pia, pêlos, fiapos de algodão. A. preferiu não pensar nisso hoje, talvez nunca mais.
Não gostava de andar nu pela casa, mas não era ainda hora de se vestir. Caçou uma bermuda no mancebo atolado de roupas – outra coisa sobre a qual não pensar – e desceu para a cozinha. “Descer” é uma tremenda força de expressão, mas ele, que fora criado em um sobrado antigo, numa rua em ladeira, em algum lugar distante, sentia-se reconfortado em pronunciar, ainda que apenas em sua mente, tais palavras. Descer para a cozinha. Foi, provavelmente, a primeira evidência que P. teve sobre as idiossincrasias de A., mas a esta altura P. não sabia o que era uma idiossincrasia, tampouco A. se importava com as opiniões do amante.
No apartamento compacto, a cozinha limitava-se a uma faixa funcional e A. buscava apenas a mesma caneca de sempre e o vidro de café solúvel. Em outros tempos, sua dignidade pessoal o levaria a uma padaria, ou mesmo em uma dessas lojas de fast coisas que hoje servem algo curiosamente designado como café. Hoje, porém, era diferente e o vidro de café solúvel, mesmo com a validade expirada, teria que servir.
De volta ao quarto, A. recostou-se no batente, espreguiçando-se enquanto tomava a lavagem amarronzada na sua xícara de estimação. O apartamento era antigo e sobre a porta ainda havia uma espécie de abertura com treliças cobertas de pó. “Preciso de outra faxineira”, pensou A., esfregando os dedos sujos de pó na parte interna da bermuda. Seus olhos, então, encontraram o corpo de P. se contorcendo em despertar lento, felino, lascivo. A. apaixonara-se meses antes por este modo de se contorcer com que P. se alongava depois dos exercícios. Viram-se pela primeira vez em um parque, e depois os encontros tornaram-se mais e mais freqüentes, em lugares diferentes, inusitados. No saguão de um edifício comercial trocaram olhares de cumplicidade e os telefonemas vieram depois, coisa intermediada por uma amiga. Natural, ambos eram, cada um a seu modo, estranhamente tímidos e reservados com relação a essas coisas de aproximação e relacionamentos.
A primeira vez que o celular tocou, A. estava dirigindo e não quis atender, não sabia quem era e a música que estava tocando no rádio era mais envolvente que a perspectiva de uma chamada por engano ou algum serviço de telemarketing. Sua cabeça dividia-se entre a mínima atenção necessária ao trânsito e algo que estava lendo. Muito tempo depois, pensando sobre o episódio, lembrou-se que o livro em questão era Morte em Veneza, e que ao tocar o telefone um certo arrepio lhe percorreu as costas. E então tudo fez sentido, como tinha que ser.
P. entrou na vida de A., e não o contrário. O contrário, aliás, jamais aconteceu ou viria a acontecer. Não houve muita discussão quando P. mudou-se para o apartamento do amante, gradativamente, como o avanço de uma febre que amolece o corpo; A., distante das questões banais do cotidiano, sempre imerso nas coisas maiores, viu a metástase do amor nas coisas novas que, dia após dia, passaram a dividir lugar com as suas. A invasão era paga com a graça do espreguiçar de gato safado de P., seu sorriso alvo de quem ainda não tem assombrações e seus olhos... seus olhos.
P. era, quando mais jovem, atlético, não forte ou musculoso demais, mas apenas atlético. Seu corpo refletia a beleza equilibrada de um dançarino, com braços e pernas proporcionalmente definidos e que se desenhavam sob a calça jeans e a camiseta que costumava usar. Ao contrário dos pares de sua geração, P. exercia sua cota de futilidade em outras coisas, pequenas delicadezas consigo mesmo e com as pessoas mais próximas. A., no entanto, achava que era a graça de seus movimentos, nem másculos demais, nem afetados, que o destacava na multidão. Ao se aproximarem pela primeira vez, no entanto, P., tímido, manteve a cabeça baixa, olhando de lado e apenas rindo abafado. A., menos nervoso, talvez pela experiência da vida, achou curioso o gesto do outro e carinhosamente ergueu seu queixo com as pontas dos dedos. O que emergiu foi um rosto cândido como A. jamais vira antes em outro homem; algo intraduzível que mesclava uma claridade angelical a traços comuns, nem grossos, nem finos. Os olhos, no entanto, azuis como o céu de julho no cerrado, atravessaram A. de ponta a ponta. Acostumado a ser guiado pelo desejo, A. sentiu uma vontade imensa de abraçar o rapaz e nunca mais solta-lo, como se retê-lo entre seus braços fosse trazer algum tipo de redenção ou paz. Os olhos de P. foram, assim, a ponte para o amor entre eles.
A. tentou defini-los em um parágrafo, certa vez, quando conversavam sobre outras definições de olhar. P. ressentia-se de certa indiferença de A., um constante isolamento e sisudez que não permitia que o amor fosse, mesmo em situações mais afetuosas, traduzido em palavras. A., ante o comentário, ergueu os olhos de um livro e disse, mais doce do que jamais fora com o outro antes: “seus olhos sempre foram poesia para mim, só não sei tirar esses versos do meu coração, mas eles estão lá, sei disso”. P. contentou-se e pediu para que A. falasse mais, ainda que não fosse sobre ele. Deitou-se ao lado dele no tapete da sala e, de olhos fechados, ouviu A. falar sobre os mistérios e a magia do olhar.
Assim era que se amavam e se doavam um ao outro. Naquele dia, no entanto, A. observava o amante, namorado, marido – os rótulos eram tão sem sentido quanto o foram desde o começo – e sentia apenas um grande vazio no peito. Depois de todos os anos que passaram juntos, o que restara de P. deitado naquela cama eram apenas lembranças de um amor que passara e não fora capaz de tirar A. de sua letargia amaldiçoada, de sua esfera de egoísmo eterno na qual a matéria parecia sempre transcender o espírito e que esteve sempre fechada a P. Com os anos, vieram os efeitos de tempo e os olhos de P. se embaciaram, ou A. se fechou para sua magia, não é possível saber; o fato é que e a poesia desapareceu – a única razão para dividirem o mesmo teto desapareceu e somente A. sabia disso.
A névoa da manhã, chuva fina e constante e fria do outro lado da janela. P. imóvel, plácido e ignorante, alienado em sonhos que A. jamais quis penetrar. Os sons do lado de fora não ousavam invadir o labirinto de dentro e nada se mexia. Roupas espalhadas pelo chão, almofadas jogadas sobre o tapete, uma xícara adormecida sobre a mesa. O cenário convidava a imobilidade e A. recostado na porta, olhava para o longo caminho de pêlos que subiam de seu púbis até o umbigo, lisos e grossos, ordenados. Os pensamentos não se firmavam, assim como as vontades e as decisões, e a sensação de impotência transmutava-se em mantra, junto com a chuva e a imobilidade do quarto. Quadros dentro de quadros e as múltiplas formas desse feitiço dançavam com os dedos a brincar no rastro de pêlos.
A. pensava em gatos nesses momentos. A imagem da firmeza felina diante do antigo muro encimado por cacos de vidro verde, o caminhar elegante, determinado e, ao mesmo tempo insano. D. Sebastião cavalgando pelo nevoeiro em Mafra, olhos fechados e braços abertos. De volta aos gatos, apenas lembranças. Já não havia mais gatos na casa e isso era triste. A. parava, então de pensar neles e se sentia obrigado a retomar o curso da vida. Era hora de acordar P.
Aproximando-se da cama, A. via a curva das costas de P. que desciam, como um rio constante e robusto, dividindo-se em um delta de poucos e louros pêlos, formando as duas covinhas acima dos glúteos, ainda firmes como anos antes. A mão fria de A. percorreu a coluna, sutilmente massageando os músculos lombares do amante adormecido. P. espreguiçou-se e, incomodado, pedia por mais tempo, mais sono. A. subiu a mão fria e apertou mais fortemente os músculos dos ombros de P., como um consolo ou uma condolência. Instintivamente, talvez, P. abriu os olhos e toda a dormência tinha ido embora, algo nele dizia que o assunto era sério.
- Bom dia – disse A. suave, mas sem carinho – quer café?
- Hum? Café? Não, não. Quero água, por favor.
A. entregou o copo que estava no criado-mudo e massageando a própria nuca, continuou.
- Preciso conversar com você. Quer tomar um banho primeiro?
- Que foi? Aconteceu alguma coisa? Minha mãe ligou?
- Não, fica tranqüilo, não é nada com a sua família, nem com ninguém. É comigo.
- Aconteceu alguma coisa com você? Ta tudo bem?
- Toma seu banho, eu vou fazer algo pra gente comer, ta?
- Você... você vai terminar comigo?
A. nesse instante sentiu a determinação esvair-se e tudo o que restava de pé em seu templo de determinação e verdades eram os olhos de P., sem doçura, mas também não mais embaciados como antes; apenas os mesmos olhos de quando, alguns anos antes, o cão deles morrera.
- Não, claro que não. Toma seu banho e desce para comer algo. Quero te levar a um lugar.
Nesse momento, P. abraçou A. e lhe dando um beijo no pescoço, apertou seu corpo com tanta força que alguns ossos estalaram. Não havia como não ceder e a chuva fina deixava a manhã ainda mais fria. A. foi para a cozinha, mas não quis fazer nada. Iriam sair e comer algo em uma padaria. Olhando no canto vazio onde antes ficava a tigela de comida do último gato, pensou que apenas eles, os gatos, eram capazes de coabitar sua solidão. E decidiu-se: era hora de sair e trazer outro gato. P. certamente não faria objeção, não agora.
Fim do primeiro movimento.
Segundo movimento – flor de carne em sábado sagrado
O som da serra elétrica cortando a madeira era como um canto desesperado que se tornada mais e mais agudo até que a taboa finalmente estivesse partida. O mesmo ruído, repetidas vezes, ecoava por toda a casa e foi o que despertou A. em seu escritório. Por todos os lados, empilhados ou em caixas de papelão, seus livros e demais pertences que ficavam adstritos àquele espaço sagrado no qual ninguém mais era admitido para uma estada maior que uma conversa ou um breve recado.
No começo, mas apenas no começo, não havia esse ciúme pelo espaço privado dessa Alexandria reencontrada no cômodo menos iluminado da casa velha que A. comprara logo quando se mudou para *****. Já naquele tempo, os vizinhos tentaram alertá-lo de que não era um bom negócio. “Muito cupim”, “encanamentos e fiação que são uma tristeza!”, “assombrada”. A. ignorou tudo isso, queria a casa desde o momento em que a vira por dentro.
A vinda para a cidade tinha sido algo inesperado. Depois de anos lecionando, a editora que publicou seu livro lhe fez a proposta. O editor-chefe, décadas de carreira sólida, estava muito doente – câncer no fígado. Não havia corporativismo nesse negócio, nem dinastias a serem respeitadas. A. fora indicado por razões que não vêm ao caso e a direção do grupo administrador da editora aceitou de pronto. O salário era bom e as condições de serviço idem. A. não titubeou; era mesmo hora de deixar São Paulo para trás e, apesar de sua juventude ainda estar longe do fim, a sensação de velhice diante de tudo pedia esta retirada estratégica.
A nova cidade remetia a um tempo de antes, antigo, não apenas em anos de história como também em sua alma de cidade. Ruas, praças, igrejas, edifícios, tudo exalava um odor mofento que lembrava a A. o porão encantado da casa de seus avós em Minas. No pé da serra, os dias de sol pleno eram raros, e toda manhã um manto leitoso se espalhava pela cidade, invadindo cada frincha com o toque da umidade e do frio trazidos quem sabe de que mundo mágico distante ou próximo.
A. viera um mês antes de assumir na editora, essa fora uma exigência que fizera para poder de desligar dos compromissos anteriores e fazer os devidos ajustes de sua mudança. O primeiro plano era uma casa pequena, talvez um desses chalés pré-moldados que se multiplicam hoje pelas cercanias de cidades serranas, e que já naquele tempo apareciam como alternativa para os desgarrados como A. Tirando os livros e outras pequenas concessões materiais, não havia muito o que acomodar, nem grandes exigências além da tranqüilidade e de um certo isolamento.
As opções não eram muitas, mas A., de fato, não se preocupava. Queria andar pelas ruas e captar os odores de tudo, das árvores, do musgo que cobria os muros, das pedras antigas dos calçamentos de paralelepípedos que ainda resistiam perto da igreja e do mercado. As pessoas, essas não o interessavam particularmente, ainda que fosse enigmático o modo como parecessem ignorar a aura mística de imobilidade que cercava cada objeto imóvel por ali. Impressionou-o, particularmente, a inexistência de qualquer referência material à contemporaneidade dos tempos, nenhuma edificação que tenha sido erguida nos últimos cinqüenta anos pelo menos, nenhum letreiro luminoso, nada de estruturas metálicas ou telhas de zinco. O único sinal que evidenciava a coerência temporal eram os postes de concreto unidos em seus topos por fios de aspecto oleado negro, grossos e paralelos. No mais, mesmo o posto de gasolina ainda funcionava em uma esquina cortada angularmente por uma edificação bizarra, semelhante a uma bocarra na qual os carros, um a um, entravam e eram atendidos em bombas de aspecto bastante antigo. Padarias, açougues, “pharmacias”, o hospital e as duas unidades escolares ainda se pareciam bastante com a imagem dos filmes antigos.
Todo o resto de necessidades modernas, de aparelhos celulares a supermercados e clínicas de ortodontia, ficava ao lado, em uma outra cidade, maior e sem charme algum. A editora de A., inclusive, ficava neste outro centro, mas a maioria dos empregados morava em *****, fosse por questões de comodidade e tranqüilidade, fosse porque a cidade moderna não parecesse em nada com um lar.
A. tinha pouco menos de trinta dias para resolver pendências de aluguel, coisas velhas no apartamento a serem jogadas fora ou doadas, questões trabalhistas na universidade, despedidas e outras formalidades que o desanimavam um pouco. Optara por uma saída bem simples com relação ao seu apartamento: reuniu tudo o que pretendia manter de seus bens dentro do escritório conjugado com a biblioteca – peça que compunha o maior cômodo do apartamento – e contratou uma empresa de pequenos serviços domésticos que iria se incumbir de jogar fora ou dar o restante das coisas, pintar, realizar os pequenos concertos e limpar tudo. A mesma empresa iria, ao sinal de A., encaixotar suas coisas e livros e fazer o transporte até *****. O tempo que lhe sobrava, então, era para aderir sua existência peculiar e solitária ao novo lar, ainda indefinido.
Algumas coisas se acertaram desde o início, como a padaria (na verdade confeitaria) que ficava ao lado da Agência dos Correios e que guardava o charme particular de um Tortoni, algo bastante incomum em uma cidade de dimensões tão modestas no interior. A. entrou pela primeira vez no lugar e logo se sentiu como uma espécie de Borges arrastado das malhas do tempo. Externamente, era uma edificação antiga, dois andares em pé direito alto, sendo o primeiro todo envidraçado, e o segundo marcado pelos janelões altos, de madeira pintada de branco e verde, com vidros transparentes e detalhes de vidros coloridos no alto. Na parte inferior, os vidros não mostravam muito da parte interna, pois cortinas de renda e tecido branco bloqueavam a visão. Entrando, porém, pela porta de folha larga e maçaneta de bronze impecavelmente polido, dava-se em um salão amplo, de mesas pequenas e redondas que ficavam mais ao fundo. Na frente, o espaço vazio servia aos clientes que entravam para comprar pão, leite e outros gêneros de padaria [continuar]
Terceiro movimento – Réquiem
O reflexo dos faróis dos carros no asfalto molhado formava uma imagem caótica e alucinante aos olhos de quem viesse andando de olhos baixos pelo calçamento largo da Oscar Freire. Era sábado e a chuva dera uma breve trégua nessa noite de final de março. Frio calmo na transição do outono, não há anjos que sigam mais ninguém pelas copas das árvores de antes. A matéria sólida transporta-se em blocos também sólidos e flui nos trilhos imaginários da rua. Uma música que vem de uma loja curiosamente aberta remete a sonhos frenéticos de delírios noturnos e éter. Outro carro passa e o arremedar da consciência se torna mais e mais intenso.
A. emerge misterioso e sozinho de uma esquina suspeita, como, aliás, as são todas em uma cidade crivada de Bacamartes menos ciosos que o mais notório deles. Ele caminha com a mesma atitude de derrota de um certo ex-janota décadas antes, sujeito distinto que se suicidou no Trianon porque lera em algum lugar que os americanos não iriam mais comprar o precioso café de suas fazendas. Raciocínio já agudo e curiosa opção pelo local. Não existe meio de se viver em São Paulo sem um puto no bolso – muitos putos, melhor expondo a questão. Pena que ninguém tenha visto seu cadáver, que foi devorado por abutres tebanos, reminiscências de reis ilegítimos e profanos que perderam a razão nos labirintos do próprio poder. Hoje, uma única árvore em todo o parque ainda guarda a lembrança desse dândi imaculado, paria antecipado dos dias atuais. O resto de nós, apenas sentimos esse sopro funesto que se confunde com o cheiro de musgo das pedras e nos conformamos com a possibilidade do asco, sempre.
O fluxo de pessoas leva-o para a frente e para trás e as vitrines luxuosas são apenas emblemas de seu mundo de escuridão. Havia um sebo na transversal seguinte, mas A. sabia que já dera lugar a um instituto de depilação. Sebos na Augusta não são raros, mas a pornografia barata chocava-o. O melhor talvez fosse comprar uma cueca nova, sensual e ostensiva. Antes ele não imaginava que uma cueca pudesse ser ostensiva; depois de uma noite de anfetaminas e uísque nacional, já sem camisa em uma boate, ouviu de um rapaz musculoso que a sua cueca era quente e que seria legal descobrir o que ela guardava. A. terminou aquela noite em um quarto e sala no Arouche, feliz apesar de tudo, por descobrir que mesmo depois de tantos anos ainda podia acordar ao lado de um garoto daqueles. Estudante de jornalismo, politizado, tatuagem do Che no deltóide (em seu tempo não se usavam essas terminologias) e iPod ao lado da cama. Anos antes, muitos mais do que A. queria lembrar, naquele mesmo bairro, talvez passando pela frente desse mesmo edifício, ele lutou por um país melhor e nem fazia idéia de que seus sonhos morreriam, que ele se tornaria um capitalista do pensamento e que após deixar quase um salário mínimo no caixa da boate, faria sexo com um rapaz quase dez anos mais jovem.
Sem arrependimento, vestiu a cueca, a dita, e se olhou no espelho do banheiro. De fato, era excitante para ele mesmo descobrir que a linha subindo do púbis ao umbigo continuava no mesmo lugar, sem barriga, pele firme, poucos pêlos, peito quadrado de nadador. Era ainda um homem atraente, talvez um pouco cansado no rosto, nos olhos, mas ainda assim bastante capaz de se divertir.
No banheiro, espalhados sobre uma prateleira estreita de vidro, vários frascos com elixires mágicos para A. Cremes com efeito lifting, para o contorno dos olhos, controle disso e daquilo; e o rapaz não tinha nem 25 anos. Não havia por que reprovar; A. sentiu ternura pelo consumismo narcisista do outro e decidiu que ele mesmo se cuidaria mais. Precisa de mais cosméticos e mais cuecas sensuais. Ir às boates e tirar a camisa foram aquisições mais antigas.
Em plena Oscar Freire, não era fácil escolher em que loja entrar para comprar a cueca adequada. Buscou qualquer uma, mas havia um nome em sua cabeça. Algo lido em uma revista, já não se recordava – nem era um hábito seu fixar-se nestes aspectos da vida prática: que marca de cueca é o blockbuster do underwear world. Lembrava que era algo relacionado à Austrália e a modelos lindíssimos cobertos de areia. Pensando bem, areia era repugnante.
Parou na loja da Calvin Klein e suspirou. Anos antes, em Nova Iorque, vira esse nome pela primeira vez, em um mega letreiro na Broadway. O modelo, musculoso – da Era pré-musos anoréxicos – ostentava uma descomunal potência sexual adormecida sob o tecido branco, mais evidente que a nudez. Nunca usara uma cueca dessas, mas sabia o impacto que o barrado insinuado um pouco acima do cós da calça tinha. Em algum lugar lera um texto de Marx dizendo que o feio, revestido de poder econômico, deixa de ser feio – e esse nem era o caso de A. A feiúra, para o famigerado barbudo, não é senão o elemento que impede que o possuidor deste atributo seja bem recebido por outras pessoas. Nesse sentido, o dinheiro (e como uma cueca pode representar isso, meu D´us) quebra a barreira e o suposto feio não suscita mais, pelo menos na prática a mesma repugnância. O feio deixa de ser feio.
A. escolheu um dos modelos mais caros – e nem era tão caro assim – e decidiu que seria seu único investimento. A mesma calça Levis velhona, surrada de tantas raladas que alegra-lhe a memória; a mesma camiseta cinza, presente infeliz para alguém que sua muito, mas que naquela noite seria de pouca valia. A noite era de hora em diante uma nova noite. Uma noite sem amanhã realmente amanhã. Para um homem dos seus trinta e poucos anos, essa era uma perspectiva ousada. Mas o que havia ainda a perder?
Dez anos de ideologias falsas que foram ruindo sem qualquer pudor. Nem mesmo os livros estagnados na estante ainda dizem o mesmo de antes. Aquela brochura do Sade, presente de um tio libidinoso e fanfarrão, ficara anos sem ser lida, apenas uma referência necessária, mas nunca realmente lida. Com a degeneração de seus sonhos, A. abriu a porra da brochura e se espantou com a dedicatória, não a do tio, mas a um anônimo (homem pela letra) que dedicara o volume ao homem. “Depois do que passamos nesse fim-de-semana, não posso mais te ocultar a verdade; demorei a concluir isso, mas Sade estava certo: o homem moderno assume essa triste condição quando se dá conta de que há o sexo, e mais nada”. Foi uma leitura reveladora: na semana seguinte, Alfredo Sirkis, Eduardo Galeano, Gilberto Dimenstein e até mesmo o Sérgio Buarque de Holanda estavam em uma caixa de papelão (A. fez questão de escolher uma caixa de um produto com nome em inglês), no maleiro do quarto menor. Em seu lugar, a literatura erótica coletada dos recantos ocultos de armários, guarda-roupas e baús. Política, putaria, porra, pau, pussy, podrear, pelado, pêlos, púbis, pica, pinto, perversão, piranha, todos itens lexicais iniciados por “P”, a mesma consoante de pão, Pôncio Pilatos, pedra, Pedro, Paulo, Palestina, Paz. Nesse rumo, voltar para o hotel, raspar os pêlos, vestir a roupa sensual e buscar sexo anônimo em um templo de beleza física era apenas uma tendência natural.
Uma da manhã, na Consolação, há disputa por táxis. Gays perfumados e empoados de masculinidade muscular convergiam trejeitos em frente ao saguão do hotel. A. viera com seu carro, mas não sente piedade alguma a ponto de oferecer carona. Uma leve garoa cai sobre a cidade (continua)
quarta-feira, 25 de fevereiro de 2009
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