O vento entre pela fresta da janela e sutilmente move o mármore dos lençóis, da noite que repousa na cama, ainda, perene, sempre estática no congelamento do instante, da memória. Ar rarefeito que penetra, infla. O som da tempestade antecede o cheiro que vem, sutil e sorrateiro, carregando terra e poeira e escombros de quando ainda não havia a tempestade. Os gonzos pendurados no vértice da casa balançam ferozmente, guincham anônimos, pois não há olhos que contemplem seu suplício: apenas se fazem ouvir, proféticos; a manhã não está clara, talvez nunca mais seja o tempo de sol e jardins verdejantes, talvez esse manto de cinzas pálidas seja a herança que restou, o estigma da noite que finalmente se fez última.
A saudade é uma criatura estranha, aracnídea, lenta como os vidros que escorrem nas vidraças da casa, nos compridos janelões pelos quais olho a cidade, a rua que desce, e desce, e nunca acaba, para sempre. Os rostos passam pela calçada e são como fantasmas; não distingo o ver do querer ver; e perdo-me no paganismo selvagem dos pensamentos, ainda uma vez os pensamentos. Circulo entre arvoredos centenários, milenários; mergulho até a raiz da raiz e os torrões de terra não me causam menos nojo, nem a lama suja menos meus cabelos molhados. Até quando, até que ponto? Os lambris sobem ziguezagueantes, ornando pilastras de sal e escuridão; meus olhos seguem a ascensão do templo e no alto vejo pombos em câmera lenta.
Desgarrei-me; estou sozinho na floresta e não resta mais nada do acalento das paredes em torno de mim. Deserto, gretas e langor. Não há espectros, nem brisa, nem luar; os lobos não uivam, nem as corujas chalreiam, solidão total. A manhã sem horizonte lembra a noite sem cavalgadas, sem valquírias enfurecidas; há apenas o vento que penetra o quarto e infla o lençol branco, macio; o vento que resgata o rosto perdido no infinito, que traz de volta a alvura da pele, o talhe do torso nu, perfeito. Olhos fechados, arquiteto jardins sem anjos, sem sebes; nele corremos a vastidão azulada do gramado proibido. Não há mais corredores, nem portas ou escadas; os espaços se abrem, livres em varandas eternas, desmedidas.
Deitado, acaricio o ar que o traz até mim; o vento que resvalou seus cabelos e trouxe uma molécula do teu éter, do teu suor, depositando-a na ponta do meu lençol. Fecho os olhos e venço as muralhas do dia que não queria amanhecer; uma parte de você vive energicamente colada ao meu corpo cansado. Levanto e com cuidado deposito teu átimo perfumado entre meus próprios cabelos; o tremor azul das lembrança me invade e outra vez recordo como meu corpo deslizou no seu e como minha boca buscou a sua e como não só o corpo explodiu em satisfação. Você me deu uma noite para lembrar e é com ela que entoa meu hino de guerra e é dela que faço meu escudo contra o ranço do dia.
terça-feira, 24 de março de 2009
quarta-feira, 18 de março de 2009
Tântalo polímata - terceiro movimento
Santa Amélia, Santa Ifigêmia, Santa Ismália. Algo assim, o nome do edifício. Construção antiga, poucos andares, com uma grande árvore na frente e jardineiras desordenadas nos estreitos corredores laterais. É apenas o que vem a memória quando penso no primeiro dia que fui visitá-lo e apertei o botão ao lado da plaquinha "o nome não importa". O teclado do interfone era também antigo, com longos e finos botões pretos saindo de um painel dourado, meio desgastado pelo tempo. Ele me atendeu e com um estalo a porta de vidro da frente se abriu. Havia apenas um elevador, daqueles velhos, ainda com porta pantográfica e carpete vermelho dentro, bastante puído e sujo. O prédio rescendia decadência, e quando a porta se abriu no terceiro andar essa impressão só piorou: as paredes tinham detalhes em gesso, com algumas partes despregadas e quebradas; o lustre original havia sido substituído por uma luminária fluorescente, o que inundava o espaço com uma implacável luz branca que, em intervalos regulares, falseava. Havia quatro portas no corredor, apenas duas iguais uma a outra. As outras haviam sido trocadas por modelos reforçados, com trancas na parte de baixo e de cima - além de decadente, o lugar deveria ser perigoso, foi o que pensei.
Tenso, considerei recuar e fugir dali; não sei explicar, hoje, a razão do vacilo, mas por um instante pensei em simplesmente voltar para a rua, entrar em meu carro e ir para qualquer lugar menos opressivo que aquele. Parei em frente à porta número 31 e bati, ignorando a campainha. Vi pelo buraco do olho mágico a sombra dele, que me observou por alguns segundos antes de abrir. Eu entrei e imediatamente relaxei. Ele sorriu quando me olhou de frente, e o seu sorriso, circundado pelo rosto magnético e mal barbeado, expulsou a angústia de antes. Ele estava especialmente alegre, e havia colocado para tocar um disco de Keith Jarrett, do qual falara em uma carta entusiasmada, semanas antes. Ele sempre ficava excessivamente alegre quando conseguia comprar algo que não era fácil de achar - algo semelhante à minha sensação diante dos objetos curiosos que eu recuperava das trevas alheias e restaurava.
O apartamento era composto por uma peça única, grande, com uma pequena cozinha que se individualizava por causa de um balcão baixo, e, ao fundo, perto da janela da varanda, um banheiro. Nesse cômodo espaçoso, havia uma cama, no lado oposto à porta do banheiro, uma mesa pequena de cozinha, um sofá surrado e estantes em todas as paredes, do chão ao teto, cobertas de livros desordenadamente distribuídos.
Tenso, considerei recuar e fugir dali; não sei explicar, hoje, a razão do vacilo, mas por um instante pensei em simplesmente voltar para a rua, entrar em meu carro e ir para qualquer lugar menos opressivo que aquele. Parei em frente à porta número 31 e bati, ignorando a campainha. Vi pelo buraco do olho mágico a sombra dele, que me observou por alguns segundos antes de abrir. Eu entrei e imediatamente relaxei. Ele sorriu quando me olhou de frente, e o seu sorriso, circundado pelo rosto magnético e mal barbeado, expulsou a angústia de antes. Ele estava especialmente alegre, e havia colocado para tocar um disco de Keith Jarrett, do qual falara em uma carta entusiasmada, semanas antes. Ele sempre ficava excessivamente alegre quando conseguia comprar algo que não era fácil de achar - algo semelhante à minha sensação diante dos objetos curiosos que eu recuperava das trevas alheias e restaurava.
O apartamento era composto por uma peça única, grande, com uma pequena cozinha que se individualizava por causa de um balcão baixo, e, ao fundo, perto da janela da varanda, um banheiro. Nesse cômodo espaçoso, havia uma cama, no lado oposto à porta do banheiro, uma mesa pequena de cozinha, um sofá surrado e estantes em todas as paredes, do chão ao teto, cobertas de livros desordenadamente distribuídos.
terça-feira, 17 de março de 2009
Tântalo polímata - segundo movimento
Quando eu era criança, tinha certeza absoluta que minha vida seria extraordinária, em todos os sentidos. Emprego perfeito, casa dos sonhos, carro de luxo, dinheiro para fazer extravagâncias e deixar as pessoas felizes. Foi assim que eu vi o mundo ajustado, sem ranhuras. Era assim que meu tio vivia, sóbrio, responsável, sério e, ao mesmo tempo, sempre bem, contente. Ele era advogado, tinha um carro bonito e sempre me dava uma nota gorda nos domingos que visitava nossa casa. Minha família não ia mal, nunca foi, mas também não éramos ricos - nos reuníamos aos fins de semana, fazíamos macarrão, maionese, carne assada, e simplesmente falávamos das mesmas coisas. As crianças, como eu, então, dos brinquedos, da escola, das encrencas; eles, os adultos, do passado, dos parentes, dos escândalos triviais de vizinhança. Cresci querendo ser meu tio e romper a mediocridade; em parte, construí essa vontade, em parte, imbuiram esse sonho em mim.
Eu cresci, e como a lógica da vida não respeita planos de pessoas absurdamente comuns, meu caso, as coisas não aconteceram exatamente como eu queria que acontecessem. Não há nada excepcional a ser mencionado: aspirações literárias frustradas, curso de Direito frustrado, concurso público de nivel médio, salário médio. Tudo mais que se possa falar de mim é vergonhoso e irrelevante. Preciso apenas reconstruir uns poucos passos que me levaram até ele, naquela sexta-feira chuvosa, no café de uma livraria.
Apesar das amarguras do não-ser, ou do "não-ter sido", eu me conformara em crer-me um homem feliz. Família por perto, apartamento próprio, trabalho estável, tempo livre para me dedicar às minhas paixões: ler, pedalar e garimpar objetos antigos. Relendo essa descrição, chego a rir de mim mesmo: que tipo de pessoa busca coisas velhas, sem valor, e as coleciona? Sei lá. Acostumei-me com os olhares de reprovação da faxineira e de minha mãe; depois de um tempo, elas pararam de reprovar e, até mesmo, de questionar sobre as novas aquisições. Pouco tempo ainda depois, a faxineira deixou de limpar os objetos menores e essa tarefa foi acrescentada aos meus hobbies. No geral, portanto, eu era um homem ilusoriamente pleno e, ao menos diante dos poucos amigos, um tremendo sortudo: sem crianças, sem esposa gorda, gastos menores que o salário, saúde e poucos problemas maiores que um chefe de seção neurótico e uma certa inveja de poucas pessoas - algo sobre o que não quero comentar. Assim eu vivia e assim me achava realizado. Até encontrá-lo na livraria.
Como não tivesse grandes compromissos financeiros, eu estabelecera um complexo sistema de premiação para mim mesmo, baseado no cumprimento de certas metas e, é claro, no intervalo de tempo entre um prêmio e outro, bem como na disponibilidade de recursos. Com meu salário, acrescido por pequenos serviços de revisão e tradução de textos, eu me presentava com um fim de semana por mês em alguma cidade maior, geralmente São Paulo. O bônus incluia viagem de carro, hotel em local central, almoço módico, porém jantar em local refinado. Cinema, talvez teatro; e uma visita à livraria com um polpudo limite de crédito, o que me garantia a leitura do mês todo, às vezes um pouco menos. Metodicamente, esperava a primeira sexta-feira após o pagamento, acertava minhas contas, comprava um presente para minha mãe e, do restante, retirava uma quantia razoável para fazer meu passeio sem peso na consciência. A semana em questão era sempre tensa, os dias não passavam, nem as horas. Eu mandava lavar o carro, calibrar os pneus; separava as roupas dois dias antes, pois na sexta, pela manhã, pedia para a faxineira passar as calças, camisas e camisetas de novo, de modo que ao sair do trabalho, por volta das quatro da tarde, bastava chegar em casa, tomar banho, pôr a mala no carro e cair na estrada. Alguns poucos amigos, sabendo desse hábito, já tinham se aventurado a insinuar um pedido de carona, ou mesmo a ideia de partilhar o quarto do hotel e algum programa noturno. Quando mais jovem, eu topava, até gostava; com os anos, tornei-me mais sistemático e repeli qualquer investida: era meu tempo, meu prêmio.
O dia em que o conheci começou como outro qualquer: gente demais na repartição, telefone tocando repetidamente, calor abafado, insinuando chuva. Almocei sozinho, dei alguns telefonemas que devia fazia algum tempo, liguei para minha mãe, perguntando se ela tinha gostado do elefante de porcelana que eu comprara numa loja exotérica. Comi uma bobagem qualquer em uma lanchonete, assim teria tempo para sacar dinheiro, passar em casa para pagar a faxineira e fazer a mala, alimentar minhas gatas e aguar as plantas. Fiz tudo de modo cronometrado e voltei à repartição cinco minutos antes do horário certo. Dei um jeito do chefe me ver pouco mais cedo, banquei o funcionário solícito, falei alto, circulei com passo firme, pareci nervoso e tenso. À hora do café, por volta das três da tarde, fingi dor de cabeça e estômago embrulhado. "Deve ser o calor e essas porcarias que você come", palpitou uma colega gorducha e solteira, talvez desejosa de cozinhar para mim por todo o sempre, amém. O fato é que colou: o chefe deu um tapinha nas minhas costas, me mandou embora e disse que traria folhas de sei lá o quê de sua chácara, para meu mal-estar. Agradeci com o melhor riso amarelo de minha boca ansiosa e saí, coração levemente acelerado.
Tomei banho, fiz a barba, arrumei o cabelo com mais cuidado que o normal. Revisei carteira, mala, bolsa de remédios (apesar da saúde perfeita, preciso andar sempre com certas drogas lícitas, apenas por segurança). O relógio marcava três e quarenta. Quase uma hora de antecedência. Desci para a garagem, deixei a chave na portaria para que a mulher do zelador cuidasse de minhas gatas no sábado e no domingo e, finalmente, lancei-me à estrada. Eu pensava sempre em tudo: viagem direta, sem paradas. Dois CDs especialmente gravados: cento e quarenta minutos de música até eu chegar no destino. Obcecado pelo gerenciamento do tempo, eu tinha mandado instalar um daqueles aparelhinhos que permitem passar diretamente pelos pedágios; era assim que eu garantia que, na última música do segundo CD eu já avistaria o Pico do Jaraguá, quando seria já possível sintonizar as rádios de São Paulo e receber notícias do trãnsito. Com o tempo, tornei-me perito em evitar engarrafamento e aprendi como me esgueirar por ruelas estratégicas até meu destino, perto da Avenida Paulista.
Cheguei precisamente às sete e meia na garagem do hotel. Fiz o check-in, deixei a mala no quarto, pendurei uma camisa que vestiria no sábado e saí de novo, a pé. Meu roteiro incluia cinema ou livraria na sexta-feira à noite, antes do jantar. Por razões misteriosas, mesmo passando vários filmes de meu interesse, preferi a livraria. Peguei uma folha cuidadosamente dobrada, na qual eu digitara os nomes do livros de que, ao longo do mês anterior, ouvi falar por amigos, ou sobre os quais havia lido em jornais e revistas. Minha cota quantitativa eram dez livros; nem sempre o dinheiro destinado a eles era suficiente e em nenhuma ocasião foi o bastante para exceder a marca dos dez.
Quando eu deixei o hotel, uma leve garoa começada a cair. O céu róseo, não sei se de nuvens, ou de poluição, me deixou feliz, bem-humorado. Eram apenas quatro quadras até a livraria. As próximas horas seriam decisivas, mas a vibração da cidade não deixou que eu intuísse isso; fui caminhando inocente do destino e, de certo modo, penso hoje que não podia escapar dele, de um jeito ou de outro.
Eu cresci, e como a lógica da vida não respeita planos de pessoas absurdamente comuns, meu caso, as coisas não aconteceram exatamente como eu queria que acontecessem. Não há nada excepcional a ser mencionado: aspirações literárias frustradas, curso de Direito frustrado, concurso público de nivel médio, salário médio. Tudo mais que se possa falar de mim é vergonhoso e irrelevante. Preciso apenas reconstruir uns poucos passos que me levaram até ele, naquela sexta-feira chuvosa, no café de uma livraria.
Apesar das amarguras do não-ser, ou do "não-ter sido", eu me conformara em crer-me um homem feliz. Família por perto, apartamento próprio, trabalho estável, tempo livre para me dedicar às minhas paixões: ler, pedalar e garimpar objetos antigos. Relendo essa descrição, chego a rir de mim mesmo: que tipo de pessoa busca coisas velhas, sem valor, e as coleciona? Sei lá. Acostumei-me com os olhares de reprovação da faxineira e de minha mãe; depois de um tempo, elas pararam de reprovar e, até mesmo, de questionar sobre as novas aquisições. Pouco tempo ainda depois, a faxineira deixou de limpar os objetos menores e essa tarefa foi acrescentada aos meus hobbies. No geral, portanto, eu era um homem ilusoriamente pleno e, ao menos diante dos poucos amigos, um tremendo sortudo: sem crianças, sem esposa gorda, gastos menores que o salário, saúde e poucos problemas maiores que um chefe de seção neurótico e uma certa inveja de poucas pessoas - algo sobre o que não quero comentar. Assim eu vivia e assim me achava realizado. Até encontrá-lo na livraria.
Como não tivesse grandes compromissos financeiros, eu estabelecera um complexo sistema de premiação para mim mesmo, baseado no cumprimento de certas metas e, é claro, no intervalo de tempo entre um prêmio e outro, bem como na disponibilidade de recursos. Com meu salário, acrescido por pequenos serviços de revisão e tradução de textos, eu me presentava com um fim de semana por mês em alguma cidade maior, geralmente São Paulo. O bônus incluia viagem de carro, hotel em local central, almoço módico, porém jantar em local refinado. Cinema, talvez teatro; e uma visita à livraria com um polpudo limite de crédito, o que me garantia a leitura do mês todo, às vezes um pouco menos. Metodicamente, esperava a primeira sexta-feira após o pagamento, acertava minhas contas, comprava um presente para minha mãe e, do restante, retirava uma quantia razoável para fazer meu passeio sem peso na consciência. A semana em questão era sempre tensa, os dias não passavam, nem as horas. Eu mandava lavar o carro, calibrar os pneus; separava as roupas dois dias antes, pois na sexta, pela manhã, pedia para a faxineira passar as calças, camisas e camisetas de novo, de modo que ao sair do trabalho, por volta das quatro da tarde, bastava chegar em casa, tomar banho, pôr a mala no carro e cair na estrada. Alguns poucos amigos, sabendo desse hábito, já tinham se aventurado a insinuar um pedido de carona, ou mesmo a ideia de partilhar o quarto do hotel e algum programa noturno. Quando mais jovem, eu topava, até gostava; com os anos, tornei-me mais sistemático e repeli qualquer investida: era meu tempo, meu prêmio.
O dia em que o conheci começou como outro qualquer: gente demais na repartição, telefone tocando repetidamente, calor abafado, insinuando chuva. Almocei sozinho, dei alguns telefonemas que devia fazia algum tempo, liguei para minha mãe, perguntando se ela tinha gostado do elefante de porcelana que eu comprara numa loja exotérica. Comi uma bobagem qualquer em uma lanchonete, assim teria tempo para sacar dinheiro, passar em casa para pagar a faxineira e fazer a mala, alimentar minhas gatas e aguar as plantas. Fiz tudo de modo cronometrado e voltei à repartição cinco minutos antes do horário certo. Dei um jeito do chefe me ver pouco mais cedo, banquei o funcionário solícito, falei alto, circulei com passo firme, pareci nervoso e tenso. À hora do café, por volta das três da tarde, fingi dor de cabeça e estômago embrulhado. "Deve ser o calor e essas porcarias que você come", palpitou uma colega gorducha e solteira, talvez desejosa de cozinhar para mim por todo o sempre, amém. O fato é que colou: o chefe deu um tapinha nas minhas costas, me mandou embora e disse que traria folhas de sei lá o quê de sua chácara, para meu mal-estar. Agradeci com o melhor riso amarelo de minha boca ansiosa e saí, coração levemente acelerado.
Tomei banho, fiz a barba, arrumei o cabelo com mais cuidado que o normal. Revisei carteira, mala, bolsa de remédios (apesar da saúde perfeita, preciso andar sempre com certas drogas lícitas, apenas por segurança). O relógio marcava três e quarenta. Quase uma hora de antecedência. Desci para a garagem, deixei a chave na portaria para que a mulher do zelador cuidasse de minhas gatas no sábado e no domingo e, finalmente, lancei-me à estrada. Eu pensava sempre em tudo: viagem direta, sem paradas. Dois CDs especialmente gravados: cento e quarenta minutos de música até eu chegar no destino. Obcecado pelo gerenciamento do tempo, eu tinha mandado instalar um daqueles aparelhinhos que permitem passar diretamente pelos pedágios; era assim que eu garantia que, na última música do segundo CD eu já avistaria o Pico do Jaraguá, quando seria já possível sintonizar as rádios de São Paulo e receber notícias do trãnsito. Com o tempo, tornei-me perito em evitar engarrafamento e aprendi como me esgueirar por ruelas estratégicas até meu destino, perto da Avenida Paulista.
Cheguei precisamente às sete e meia na garagem do hotel. Fiz o check-in, deixei a mala no quarto, pendurei uma camisa que vestiria no sábado e saí de novo, a pé. Meu roteiro incluia cinema ou livraria na sexta-feira à noite, antes do jantar. Por razões misteriosas, mesmo passando vários filmes de meu interesse, preferi a livraria. Peguei uma folha cuidadosamente dobrada, na qual eu digitara os nomes do livros de que, ao longo do mês anterior, ouvi falar por amigos, ou sobre os quais havia lido em jornais e revistas. Minha cota quantitativa eram dez livros; nem sempre o dinheiro destinado a eles era suficiente e em nenhuma ocasião foi o bastante para exceder a marca dos dez.
Quando eu deixei o hotel, uma leve garoa começada a cair. O céu róseo, não sei se de nuvens, ou de poluição, me deixou feliz, bem-humorado. Eram apenas quatro quadras até a livraria. As próximas horas seriam decisivas, mas a vibração da cidade não deixou que eu intuísse isso; fui caminhando inocente do destino e, de certo modo, penso hoje que não podia escapar dele, de um jeito ou de outro.
segunda-feira, 16 de março de 2009
Tântalo polímata - primeiro movimento
O nome não importa. Era isso que estava escrito na papeleta ao lado do botão do interfone, na rua. O edifício era bem localizado, rua valorizada, muitas árvores, sinagoga, pessoas bem vestidas, homens de terno preto e gravatas douradas, sempre douradas. Havia sempre o cheiro da urina dos mendigos no ponto de ônibus, e é claro, a urina dos gatos - mas essa tinha algo de poético dos telhados, do musgo, do tempo. Diante disso, o nome realmente não importa; e foi assim que nossa relação - não sei de de amizade, não se de ódio ou cumplicidade, começou quando fui encontrá-lo pela primeira vez em seu apartamento.
Tínhamos nos conhecido meses antes, no café de uma livraria, por mais implausível que isso possa parecer. Dois estranhos, gostos diferentes, livros diferentes, mesas diferentes; simplesmente aconteceu. Ele sorriu, balançou um livro do Bataille (que, de certo modo, dialogava com outro que estava na minha mesa) e eu sorri de volta, sem jeito. Nossa cumplicidade começou assim, literária, requintada. Tomamos nossos cafés e discutimos banalidades de vestíbulo; depois falamos muito de livros, de filmes, de trabalho. Ficou claro, desde logo, que seríamos amigos, mas amigos camaradas, e que trocaríamos cartas, mandaríamos livros com dedicatórias um para o outro, partilharíamos o que não podíamos partilhar com mais ninguém. E ficou claro que nossa amizade seria nosso segredo. No começo achei estranho, porque foi tacitamente que essa cláusula se unstaurou entre nós; depois de muito tempo entendi.
Conversamos à distância por meses, mas muito pouco por e-mail ou telefone. Ele falava pouco sem ser tête-a-tête (ele gosta esta palavra, gosta de dizê-la estalando a língua e rindo); preferia as cartas a qualquer outro meio, e assim nos correspondíamos tão estranhamente. Suas cartas vinham sempre em um envelope do Banco do Brasil, com meu nome digitado no papel por trás do plástico na face do envelope. Não lembro se ele me disse alguma vez como fazia isso, mas sempre ri dessa brincadeira - era o modo que ele achara de manter a confidencialidade de nossas cartas.
Semanalmente, trocávamos ideias sobre tudo que nos interessava, de livros a programas de televisão, de culinária a futilidades domésticas - nós dois temos gatos, e esse era nosso assunto fútil por excelência. Demorou até que ele se abrisse um pouco comigo e dissesse algo sobre sua vida pessoal - amor, sexo, angústias, medos. Uma tarde, antes de sair para meu treino diário na academia, recebi um envelope de outro banco, não me recordo qual, e havia uma carta muito breve, falando sobre um pulga descoberta em um edredon. Achei graça na hora, guardei a carta no meu escaninho de correspondência e fui treinar. Quando voltei, havia ligações dele em meu celular, várias. Liguei de volta e não obtive resposta. Liguei a noite toda, mas só no dia seguinte consegui falar com ele.
De fato, uma pulga aparecera do nada em seu edredon. Magra, sem sangue algum dentro (ele a estourara entre as unhas dos dedões). Fiquei mudo no telefone, pensando no que dizer e, de certo modo, duvidando de sua sanidade, mas ele logo desviou meu silêncio e disse que a pulga fizera com ele percebesse que estava muito sozinho, que sua existência era como a da pulga, perdida e faminta na imensidão de tecido branco, do vazio. Ele, então, fez uma pausa, pediu desculpas pela desabafo e disse que precisava sair, algo refenrente ao trabalho, e desligou.
Eu, que já ouvira coisas bem piores de amigos muito mais próximos e queridos, permaneci sentado na sala de meu apartamento uns bons trinta minutos, pensando na metáfora da pulga. Primeiro, a achei boba; depois, ponderei que para ele se expressar assim, de fato havia algo fora dos eixos - o que não me pareceu surpresa alguma em se tratando de quem era. Saí de minha inércia para ir trabalhar, mas antes fui cuidar de minhas gatas (só tenho fêmeas, coisa do acaso). Limpei a caixa de areia, troquei a água da vasilha e pus um pouco mais de ração. Parei na cozinha, conferi o que precisava ser comprado - pão, requeijão, granola, biscoito de chocolate, algo salgado para comer vendo tevê - e peguei minha pasta. Sobre minha mesa, entre a bagunça habitual de papéis, provas, livros, um volume amarelado que ele me enviara umas semanas antes, todo grifado, com o título "American drama". No dia que o recebi, coloquei na pilha sobre a mesa apenas vi que havia grifos - eu já conhecia o livro e sabia que era uma antologia do teatro norte-americano básico, Tenessee Williams, Eugene O'Neill, Arthur Miller. Agora, com a história da pulga, peguei o livro e decidi olhar.
Os grifos foram feitos a lápis, inicialmente, e destacavam falas angustiadas de diversas personagens. Por um instante considerei deixar para mais tarde a leitura, mas então vi uma página bastante rabiscada com várias setas, feitas com tinta vermelha. Um dos grifos chegara a rasgar um pouco a página de papel-jornal, bem abaixo do nome Blanche. Na fala em questão, Mitch, uma personagem da peça, tira um anteparo de papel ordinário de uma lâmpada e aponta a luz para o rosto de Blanche. A luz revela a pele envelhecida, a mocidade perdida; Mitch fica chocado e diz que ela deve ser realista e não fugir dos fatos, ao que ela responde odiar o realismo. Os grifos paravam nessa página, em cujo canto inferior ele rabiscara o homenzinho desesperado do Münch. Foi nesse dia que resolvi ir vê-lo, e foi quando descobri que o nome que eu nunca soube de verdade não importava.
Tínhamos nos conhecido meses antes, no café de uma livraria, por mais implausível que isso possa parecer. Dois estranhos, gostos diferentes, livros diferentes, mesas diferentes; simplesmente aconteceu. Ele sorriu, balançou um livro do Bataille (que, de certo modo, dialogava com outro que estava na minha mesa) e eu sorri de volta, sem jeito. Nossa cumplicidade começou assim, literária, requintada. Tomamos nossos cafés e discutimos banalidades de vestíbulo; depois falamos muito de livros, de filmes, de trabalho. Ficou claro, desde logo, que seríamos amigos, mas amigos camaradas, e que trocaríamos cartas, mandaríamos livros com dedicatórias um para o outro, partilharíamos o que não podíamos partilhar com mais ninguém. E ficou claro que nossa amizade seria nosso segredo. No começo achei estranho, porque foi tacitamente que essa cláusula se unstaurou entre nós; depois de muito tempo entendi.
Conversamos à distância por meses, mas muito pouco por e-mail ou telefone. Ele falava pouco sem ser tête-a-tête (ele gosta esta palavra, gosta de dizê-la estalando a língua e rindo); preferia as cartas a qualquer outro meio, e assim nos correspondíamos tão estranhamente. Suas cartas vinham sempre em um envelope do Banco do Brasil, com meu nome digitado no papel por trás do plástico na face do envelope. Não lembro se ele me disse alguma vez como fazia isso, mas sempre ri dessa brincadeira - era o modo que ele achara de manter a confidencialidade de nossas cartas.
Semanalmente, trocávamos ideias sobre tudo que nos interessava, de livros a programas de televisão, de culinária a futilidades domésticas - nós dois temos gatos, e esse era nosso assunto fútil por excelência. Demorou até que ele se abrisse um pouco comigo e dissesse algo sobre sua vida pessoal - amor, sexo, angústias, medos. Uma tarde, antes de sair para meu treino diário na academia, recebi um envelope de outro banco, não me recordo qual, e havia uma carta muito breve, falando sobre um pulga descoberta em um edredon. Achei graça na hora, guardei a carta no meu escaninho de correspondência e fui treinar. Quando voltei, havia ligações dele em meu celular, várias. Liguei de volta e não obtive resposta. Liguei a noite toda, mas só no dia seguinte consegui falar com ele.
De fato, uma pulga aparecera do nada em seu edredon. Magra, sem sangue algum dentro (ele a estourara entre as unhas dos dedões). Fiquei mudo no telefone, pensando no que dizer e, de certo modo, duvidando de sua sanidade, mas ele logo desviou meu silêncio e disse que a pulga fizera com ele percebesse que estava muito sozinho, que sua existência era como a da pulga, perdida e faminta na imensidão de tecido branco, do vazio. Ele, então, fez uma pausa, pediu desculpas pela desabafo e disse que precisava sair, algo refenrente ao trabalho, e desligou.
Eu, que já ouvira coisas bem piores de amigos muito mais próximos e queridos, permaneci sentado na sala de meu apartamento uns bons trinta minutos, pensando na metáfora da pulga. Primeiro, a achei boba; depois, ponderei que para ele se expressar assim, de fato havia algo fora dos eixos - o que não me pareceu surpresa alguma em se tratando de quem era. Saí de minha inércia para ir trabalhar, mas antes fui cuidar de minhas gatas (só tenho fêmeas, coisa do acaso). Limpei a caixa de areia, troquei a água da vasilha e pus um pouco mais de ração. Parei na cozinha, conferi o que precisava ser comprado - pão, requeijão, granola, biscoito de chocolate, algo salgado para comer vendo tevê - e peguei minha pasta. Sobre minha mesa, entre a bagunça habitual de papéis, provas, livros, um volume amarelado que ele me enviara umas semanas antes, todo grifado, com o título "American drama". No dia que o recebi, coloquei na pilha sobre a mesa apenas vi que havia grifos - eu já conhecia o livro e sabia que era uma antologia do teatro norte-americano básico, Tenessee Williams, Eugene O'Neill, Arthur Miller. Agora, com a história da pulga, peguei o livro e decidi olhar.
Os grifos foram feitos a lápis, inicialmente, e destacavam falas angustiadas de diversas personagens. Por um instante considerei deixar para mais tarde a leitura, mas então vi uma página bastante rabiscada com várias setas, feitas com tinta vermelha. Um dos grifos chegara a rasgar um pouco a página de papel-jornal, bem abaixo do nome Blanche. Na fala em questão, Mitch, uma personagem da peça, tira um anteparo de papel ordinário de uma lâmpada e aponta a luz para o rosto de Blanche. A luz revela a pele envelhecida, a mocidade perdida; Mitch fica chocado e diz que ela deve ser realista e não fugir dos fatos, ao que ela responde odiar o realismo. Os grifos paravam nessa página, em cujo canto inferior ele rabiscara o homenzinho desesperado do Münch. Foi nesse dia que resolvi ir vê-lo, e foi quando descobri que o nome que eu nunca soube de verdade não importava.
domingo, 15 de março de 2009
Traumnovelle em microescala
Há algum tempo, deixei de acreditar em coisas mágicas que simplesmente acontecem, do nada. Tornei-me calejado e um pouco insensível, talvez até mesmo desconfiado demais para perceber sutilezas do destino. Quando me dei conta disso, senti alívio: transição, mutação, evolução. Não mais decepções, não mais tardes de domingo à espera de algo desconhecido, imaterial, impalpável. Isso foi minha concepção dolorosa do amadurecimento e, como tudo que acontece inexoravelmente, acostumei-me à ideia.
Naquela noite, algo de fim de tarde, crepúsculo, desci a rua caminhando, calmo e, ao mesmo tempo, ansioso. Entraria, assim, desarmado, no labirinto do Minotauro? Era o mais plausível, afinal fora para isso que eu me preparara, era o que eu queria. Fascina-me o insólito que há nas fortes transições dos portais: de repente, da calçada penetra-se em um outro mundo, completamente estranho à vida basáltica da urbe, lá fora. Vapores, tons de vermelho mesclado à luz branca que se insinua, singela, por frestas e portas entreabertas. Penso em Dom Sebastião cavalgando através da neblina da madrugada e incorporo um tanto dessa inconsequência. Quero ser assim, sem medo, livre, imortal.
Entre o ser e o dever ser há vãos conceituais. O homem seria tão mais livre e pleno se tudo fosse claro, objetivo. Mas, não, nada é assim. O bicho primitivo é mais forte, sua cauda pesada nos arrasta para longe da superfície e acabamos transitando pelo tempo do lodo, do barro. Se não fosse tão primitiva a necessidade de entrar no incerto, nada me teria acontecido e a vida seria, ainda, como a de antes - talvez não exatamente igual, mas sem qualquer diferença realmente significativa. Por isso celebro o pântano em mim, o crocodilo e a rã, catedrais góticas da alma que, na noite do alumbramento supersticioso, dobraram sinos pela boa fortuna.
Atravessei os umbrais que separam os dois mundos e não pude deixar de pensar quão surreal era aquilo. Hesitei um instante, não mais que isso: instinto, quem sabe. Entrei. A neblina era bem menos densa que nas fantasias do jovem rei; minha madrugada crepuscular foi bem mais nítida e graças a essa nitidez meus olhos puderam achar outros olhos, mesmo quando todas as probabilidades indicavam que isso seria impossível.
O modo como aconteceu é tão vívido na minha memória como todo o resto, mas falar disso é como conspurcar uma epifania. Por outro lado, considero a possibilidade de, com o passar dos anos, a memória me trair e algo disso tudo se perder. Opto por registrar tudo e, assim, assenhorar-me da materialidade da lembrança.
Começou com um olhar de esguelho. Incrédulo parei, detive-me em contemplação e desejo: seria mesmo real, naquele espaço de interseção entre dois mundos, alguém como ele, perdido, pálido pela luz branca que rompia a escuridão? Observei por um tempo e depois me perdi. Nas incertezas do labirinto, a escuridão é o próprio caos e o que me restava senão o caos. Mas qual não foi minha surpresa quando sua mão me tocou e me disse que era de verdade, que não era sonho, que não era feito de sonho - ainda que esta última possibilidade não se tenha descartado por completo.
O que seguiu é difícil de descrever ou narrar; o fluxo onírico foi complexo - música, calor, suor, estalos, ruídos, desejo. A carne não exige reparações, não cobra os pecados que, na verdade, não são pecados. A alma dentro dela é outra coisa, e teria sido uma equação simples se, em algum instante, meus olhos não tivessem se perdido nos seus olhos. Imensidão de mar incerto; vagas marolas silenciosas; valquírias e tempestade.
O resto foi explosão e o ato em mim ecoa, rompendo uma forma de noite que se instalou quando eu perdera minha fé. Não sei se a fé voltou, mas lampejos verdes, de um verde muito claro, atravessam a escuridão.
Naquela noite, algo de fim de tarde, crepúsculo, desci a rua caminhando, calmo e, ao mesmo tempo, ansioso. Entraria, assim, desarmado, no labirinto do Minotauro? Era o mais plausível, afinal fora para isso que eu me preparara, era o que eu queria. Fascina-me o insólito que há nas fortes transições dos portais: de repente, da calçada penetra-se em um outro mundo, completamente estranho à vida basáltica da urbe, lá fora. Vapores, tons de vermelho mesclado à luz branca que se insinua, singela, por frestas e portas entreabertas. Penso em Dom Sebastião cavalgando através da neblina da madrugada e incorporo um tanto dessa inconsequência. Quero ser assim, sem medo, livre, imortal.
Entre o ser e o dever ser há vãos conceituais. O homem seria tão mais livre e pleno se tudo fosse claro, objetivo. Mas, não, nada é assim. O bicho primitivo é mais forte, sua cauda pesada nos arrasta para longe da superfície e acabamos transitando pelo tempo do lodo, do barro. Se não fosse tão primitiva a necessidade de entrar no incerto, nada me teria acontecido e a vida seria, ainda, como a de antes - talvez não exatamente igual, mas sem qualquer diferença realmente significativa. Por isso celebro o pântano em mim, o crocodilo e a rã, catedrais góticas da alma que, na noite do alumbramento supersticioso, dobraram sinos pela boa fortuna.
Atravessei os umbrais que separam os dois mundos e não pude deixar de pensar quão surreal era aquilo. Hesitei um instante, não mais que isso: instinto, quem sabe. Entrei. A neblina era bem menos densa que nas fantasias do jovem rei; minha madrugada crepuscular foi bem mais nítida e graças a essa nitidez meus olhos puderam achar outros olhos, mesmo quando todas as probabilidades indicavam que isso seria impossível.
O modo como aconteceu é tão vívido na minha memória como todo o resto, mas falar disso é como conspurcar uma epifania. Por outro lado, considero a possibilidade de, com o passar dos anos, a memória me trair e algo disso tudo se perder. Opto por registrar tudo e, assim, assenhorar-me da materialidade da lembrança.
Começou com um olhar de esguelho. Incrédulo parei, detive-me em contemplação e desejo: seria mesmo real, naquele espaço de interseção entre dois mundos, alguém como ele, perdido, pálido pela luz branca que rompia a escuridão? Observei por um tempo e depois me perdi. Nas incertezas do labirinto, a escuridão é o próprio caos e o que me restava senão o caos. Mas qual não foi minha surpresa quando sua mão me tocou e me disse que era de verdade, que não era sonho, que não era feito de sonho - ainda que esta última possibilidade não se tenha descartado por completo.
O que seguiu é difícil de descrever ou narrar; o fluxo onírico foi complexo - música, calor, suor, estalos, ruídos, desejo. A carne não exige reparações, não cobra os pecados que, na verdade, não são pecados. A alma dentro dela é outra coisa, e teria sido uma equação simples se, em algum instante, meus olhos não tivessem se perdido nos seus olhos. Imensidão de mar incerto; vagas marolas silenciosas; valquírias e tempestade.
O resto foi explosão e o ato em mim ecoa, rompendo uma forma de noite que se instalou quando eu perdera minha fé. Não sei se a fé voltou, mas lampejos verdes, de um verde muito claro, atravessam a escuridão.
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