terça-feira, 11 de agosto de 2009

Voyage autour de ma chambre

Qual é a parte do diabo? Olhando para a projeção dos pequenos orifícios da persiana no teto, é o que eu me pergunto agora, cruzando o oceano de tédio que me separa do dia que vem caminhando, sem nunca chegar. Deitado, sem sono e sem ânimo objetivo, meu corpo entorpece-se em ondas parciais, ora uma perna, ora os lábios superiores, ora um dos olhos. É repentina e assustadora a sensação da queda, ou da iminência da queda, e me seguro na invisibilidade na madrugada, me questionando o que, disso tudo, cabe ao diabo, o que levará, afinal, a escuridão e o abismo?

Percorro cantos sombrios da mente, buscando ressuscitar sensações escondidas em memórias doces, mornas. Nem sempre foi inverno nessa câmara escura; houve o tempo da brisa açucarada que vinha do mar secreto do cerrado, tempo da chuva e do cheiro de café, do som dos sapatos de solado duro no assoalho da casa velha, do perfume de flores nas fronhas engomadas pela mulher da trouxa na cabeça. Houve um tempo, mas passou. E o que veio depois, quero saber agora, o que? Que vazio nos levou, e me levou no mais, ao vértice escuro da sede que nunca se sacia, da fome, da raiva, do ranger de dentes angustiante, da aflição?

Imóvel na cama, concentro-me na ponta de meus dedos, que tocam o tecido macio do lençol. O som do piano ancestral penetra quarto, em movimento de arremedo, como ondas de choque que vem e vão. Nos meus olhos fechados, vejo a dança caótica de pequenos pontos luminosos que vão formando espirais; sinto o gosto acre da pele suada, eriçada pelo calor de outros corpos, e meu corpo todo vibra, treme e também sua, um suor frio e viscoso, veneno destilado, expurgado. A manhã galopa e eu aqui, dando voltas na arena da saudade, desejando um tempo que não posso controlar, à mercê do acaso, preso ao fatalismo irreverente de uma paixão que me aquece e me corrói.

Um sentimento de revolta sitia minha mente; desejo louco de romper com tudo, quebrar as antigas paredes e suas infinitas camadas de tinta. Por quanto tempo pude sobreviver ao ar putrefato de tantas memórias que ainda não vivi e vão se acumulando nas teias de aranha das arestas desse quarto? Na quietude do sono que me prostra, uma revolução se processa, projetos, planos para o dia que há de nascer; serei capaz de romper a crisálida do medo, ou só me resta a modorra acinzentada da insônia secular?

Como um crocodilo, afundo na tepidez do lago, senhor majestoso dos domínios da minha própria solidão. Olho o infinito escuro das profundezas, e sinto as impressões deixadas por cada instante feliz que habitou meu mundo; cada lembrança boa, cada beijo inesquecível, cada paixão que fez os sinos tocarem, cada adeus cheio de lágrimas, cada vez que amanheci cavalgando através do véu da noite, vindo das batalhas das quais saí vitorioso. Deslizo sorrateiro por esse museu aquático e vacilo entre o lodo do fundo e a luz da margem. Valerá a pena emergir e arrastar mais e mais felicidades empalhadas para o breu da memória? Entrego-me ao fluxo e o torpor se faz mais forte que a determinação do pensamento. Vou me desligando, como se tênues fios de seda fossem se rompendo entre meu corpo imaginário e as paredes viscosas da alma. O rodopio cessa e uma água escura e fria vai subindo em direção a mim, silenciando tudo.

sexta-feira, 7 de agosto de 2009

La bonne rêve

Eu não saberia repetir a combinação exata de vodca, fadiga e rivotril que me nocauteou tão deliciosamente bem numa noite de quinta-feira, particularmente morna, no inefável começo de agosto. Sendo sensato, não adiantaria querer reproduzir tudo, pois as noites mágicas são sempre - e isso é uma lei - únicas. Uma boa vida pode ser repleta de delícias e gozos, mas sempre particularíssimos. Um bom beijo nunca se repete, a música que se solidifica em torno dos amantes não causa o mesmo efeito duas vezes, a descoberta de uma nova paixão causa, sempre, reações distintas. Os deuses, sádicos e benevolentes num misto que só a eles cabe compreender, nos agraciaram com os sonhos, único artifício (e mesmo assim, um artifício fortuito) através do qual as tênues raízes do presente podem penetram nas lembranças e trazer de volta, por breve que seja, o que ficou vitrificado na memória.

Eu o conheci no submundo - pelo menos era assim que eu pensava a masmorra vaporosa na qual me meti naquela noite. Não sei porque fui parar lá; havia saído para beber, dançar, beijar, me divertir, e é fato que fiz tudo isso. Cansado, com o corpo moído pelo álcool e pelos excessos da festa, tudo me levava para minha cama. Talvez tenha sido a brisa da madrugada, ou o miado de um gato em algum telhado, ou ainda o súbito perfume de uma flor noturna. O carro guiou-se pelas artérias cinzentas da urbe insana e súbito estávamos passando ao largo pelo Aqueronte, entrando nos domínios nebulosos do caos e do desejo - ora mais caos, ora mais desejo.

Não foi a primeira vez, e clamo aos céus que não tenha sido a última. Desci os círculos, atravessei corredores, senti o hálito morno das criaturas milenares que habitam tais profundezas. Mil vezes eu faça a travessia, mil vezes sentirei o peso do ar, a solidez da atmosfera, dos cheiros assépticos do vapor branco e dos corpos que circulam em seu interior. Não se trata de medo, nem de culpa ou pudor; mas de apreensão. Lançando-me na incerteza da escuridão do labirinto, até quando sairei triunfante disso? Quando chegará o dia em que serei destroçado e nunca mais voltarei? Prefiro não pensar.

Essa noite veio-me, ontem, em sonho - com vodca, cansaço e psicotrópico. Não exatamente a parte underground, mas o depois. Nas profundezas da escuridão, um réptil mais ou menos ancestral que eu me achou, e, juntos, emergimos do pântano. Poderia ter sido breve: tesão, orgasmo, riso sem graça; mas não foi. Tinha que ser maior, mas apaixonado, mais forte. Eu queria que fosse mais, naquele dia eu precisava que o noite me abraçasse mais apertado e um coração batesse no compasso do meu nome. Eu pedi e tive isso; seu riso largo, sua mão segurando a minha, nossas bocas se fundindo, um último beijo na veia aberta da big apple latina, em meio ao trânsito de zumbis incapazes de compreender a beleza de dois homens desconhecidos se beijando na rua.

Naquela noite, eu deveria ter ido dormir com ele, encaixado em seu corpo, sentindo o cheiro doce de sua nuca e pedindo ao infinito que aquela fosse a última coisa de que eu me lembrasse no momento da morte. A vida, porém, não colabora e não pude ir, acabei nem dormindo. Tomei um banho e peregrinei pela cidade, pensando nele, no seu corpo, na sua boca, em sua história. O que veio depois não interessa; teve sua magia e imortalizou-se por outras razões, mas não foi com o que sonhei.

Em meu sonho, vivi a noite que não tive com ele. Nessa realidade paralela, ideal, eu o levei para meu apartamento, e entre beijos e carícias, nos despimos, devastados pelo cansaço do corpo e pelo sono. Ele, meigo e risonho, deitou-se de costas para mim e pediu um copo d´água que estava no criado-mudo. Bebi do copo e passei-lhe a água em minha própria boca. Seus beijos, então, tornaram-se ávidos e suas últimas forças acabaram num abraço, mais enlace que abraço, e ele pegou no sono encostado em meu peito. Deitei-o de lado, de costas para mim, e me encaixei em seu corpo curvado, como um bebê. Estávamos deitados sobre o lado direito de nossos corpos, de modo que, antes de eu também pegar no sono, fiquei com a cabeça apoiada em meu braço, olhando seu rosto, tocando de leve o contorno pueril de seus olhos, nariz, sobrancelhas. Vencido pelo sono, aninhei-me ao seu corpo e desapareci na ternura infinita e inocente daquele abraço. Foi então que acordei.

quarta-feira, 5 de agosto de 2009

Crônica do escombro amoroso

Hoje, enquanto tomava o café-da-manhã, bati os olhos em velho volume de contos de Tchecov, um livro que foi difícil de encontrar. Publicado na antiga coleção Jackson, contém a única tradução em português do conto "La Cigale", talvez o melhor do autor. É uma história de adultério, algo trivial para qualquer bom autor do século XIX, mas fascinante sob vários aspectos. Já li o conto dezenas de vezes, por isso apenas perceber o livro ali foi o suficiente para me levar a pensar, uma vez mais, em algo que havia decidido deixar de lado.

Há algum tempo me fizeram uma pergunta agressiva, daquelas cujo emissor já sabe (ou acha que sabe) a resposta.Inqueriram-me se eu seria realmente capaz de amar, uma vez que sou um adúltero contumaz. Na hora eu ri da situação e não me dei ao trabalho de explicar o meu ponto de vista; não seria proveitoso diante da bestialidade de quem formulara tamanha falácia. Todavia, ficou-me a impressão de que as pessoas, em geral, não compreendem nada, ou quase, do apaixonamento e do amor. A reflexão permaneceu em minha mente por alguns dias, e agora, diante de Tchecov, e da saudade da maresia verde de olhos que me abandonaram, deixei-me levar na elaboração do que proponho ser uma crônica do escombro amoroso.

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Não me lembro ao certo o instante exato em que me apaixonei pela primeira vez, mas sei que foi aos catorze anos. Depois dessa, outras tantas paixões vieram e cada uma foi uma fratura terapêutica da alma, formando calosidades úteis que me blindaram contra as veleidades mais comuns dos amantes de primeira viagem. Quando abandonei a crisálida do amor platônica, minha armadura de frustrações impediu que eu me ferisse na maior parte das vezes. Feri-me, por certo, e a armadura endureceu, temperou-se na forja impiedosa das noites de solidão e esquecimento, das ligações sem retorno, dos olhares não correspondidos. A cada batalha perdida uma nova marca, uma nova cicatriz. Como apregoava o revolucionário argentino, endureci-me, sem, contudo, perder a ternura. Não me tornei frívolo, nem refratário; quanto mais despenquei penhascos abaixo, mais me inclino para olhar as profundezas de novos abismos e acho maravilhosa a sensação de planar na insegurança - tenho sempre a sinestésica percepção da mãe que sai do álbum de retratos e toca píano no caos.

O resultado prático disso é bem simples; conquanto seja, no mais das vezes, um problema, já que a solidão não é uma alternativa válida para homens como eu. Talvez eu seja um tolo com ares de fidalgo; talvez o erro todo seja meu e o mundo esteja pleno dessa razão insossa que chamam de bom senso. Sinceramente, não sei. O fato é que sempre me apaixonei cronicamente, vivi essas formas de amor embrionário com toda a força que me foi possível, sem critérios.