sexta-feira, 29 de outubro de 2010

Crônica de uma derrota anunciada

Os sons estão todos mesclados. Vaias, protestos de indignação, choros e gritos. Não houve surpresa alguma e, mesmo assim, uma sensação estranha lhe percorre o corpo. O suor nas axilas forma círculos na camisa empapada, um cheiro de velhice que ele nunca havia percebido agora se faz insuportável. Tudo que ele quer é sair dali e voltar para casa. Deixar aqueles meses todos de viagens intermináveis, planos maquiavélicos e reuniões que, desde o começo, ele sabia serem inúteis. Fecha os olhos e o vozerio parece esmorecer, como em viagem de ácido. Ácido. Há quanto tempo essa época não lhe vinha à cabeça e tudo que ele queria agora era abandonar esse corpo caído e voltar para Paris, para Buenos Aires, para Santiago. Qualquer seria melhor que São Paulo, hoje.

Homens e mulheres olham para ele com um tipo estranho de comiseração. Seria ele tão patético assim? Onde estaria a carranca que fazia os assistentes de campanha tremerem? Não há resposta alguma em sua cabeça. Nem perguntas, nem nada. Há, talvez, algum desejo intrincadamente simples, mas que naquele instante seria vergonhoso demais realizar. Lembra-se, de repente, de um boteco na Augusta, na velha Augusta, que já não existe mais. Fechou. Lembra de outro, na Praça Roosevelt, mas agora há tapumes na praça e ninguém mais gosta dos bares, em parte por culpa dele. Dentre todos os seus desejos, o mais premente é sentar num daqueles bares, pedir uma dose de conhaque e acender um cigarro. Que ironia, um cigarro. Justo ele, que acabara com o cigarro nas mesas de bar querer, agora, nessa situação, fumar um cigarro, justo um cigarro, desses bem vagabundos, Camel (talvez), num boteco.

Fumar havia se tornado, junto com o conhaque e a punheta noturna, parte do seu universo de prazeres secretos. Gostava de chegar em casa ou no quarto do hotel, trancar-se no banheiro e cagar fumando. Relaxante e pleno, sentir os restos do dia escorrerem por seu esfíncter flácido enquanto tragava com parcimônia aquele único cigarro diário. Nos últimos dias, porém, estava constipado e sua barriga doía. Fumar se tornara um desprazer sem o cagalhão a lhe sair do corpo; agora, no entanto, um tremor nas tripas lhe anuncia que voltaria a cagar normalmente, e a vontade de se sentar na privada com um cigarro é incontrolável. Como sair dali, porém?

A derrota parece distante e não importa mesmo. Sério. Ele sente que apesar de não ter sido em vão, a tristeza pelo resultado é sem sentido. O que aquelas pessoas estão pensando? Por que não voltam pra suas casas e vão foder com seus parceiros ou parceiras, ou sozinhos, na escuridão solitária de um apartamento de quarto e sala? Ele tem a esposa. Coitada. Ela tinha sonhado muito com o título, com a fama, com as revistas lhe perguntando sobre a nova decoração da residência oficial, com as viagens ao exterior. Compras. Meus Deus, as compras. E agora ela está ali, sentada de frente para a mesa do bufê, alisando a renda da toalha, com o olhar vazio, sem saber como abordá-lo.

Ele lamenta por ela, e talvez por alguns outros. Não, na verdade, não lamenta. Começa a sentir raiva e aumenta sua vontade de cagar. Que porra de protocolo, que nada! Decide arrumar um cigarro ali mesmo e sentar a bunda murcha na louça fria e mijada do banheiro do comitê central. Chega perto de um rapaz encarregado de algum trabalho braçal e vê que há um maço enrolado na manga de sua camiseta. “Meu filho, você ta fumando aqui? Aqui dentro”, pergunta ácido, meio desolado, meio bravo. “To, não senhor, toma, só tem um mesmo, pode jogar fora”, responde o outro, com medo.

Ele se afasta e é como se houvesse um enxame de abelhas africanas no salão principal. O televisor gigante ligado, as falas atropeladas e os celulares e aparelhos fixos tocando sem parar. Merda. Será que estão prestando atenção nos seus movimentos, no modo como subtraiu o cigarro e o isqueiro antes de jogar o maço vazio no chão? Com sorte, não. Agora resta chegar ao banheiro, que fica nos fundos, depois de um corredor comprido, iluminado por duas lâmpadas fluorescentes que piscam de modo apavorante, como em um filme de terror. Não encontra ninguém no caminho. Entra e percebe que a tranca da porta estava quebrada. Tinha sido por causa de uma correligionária filha da puta que desmaiara no banheiro, de fome. Gorda que acha que ficar sem comer um dia faz milagre. “Porra de gorda, manda ela pra Barretos”, pensa ele. Mas não pragueja. Abaixa as calças marrons e pela primeira vez em anos repara nas suas pernas esquálidas, na pele molenga da parte interna das coxas e nos pelos que ficaram bem rarefeitos. “Velhice é uma droga”, pensa. Joga o pau cabisbaixo para dentro do vaso, mas antes cobre a louça de dentro com papel higiênico. Já havia pegado uma pereba na cabeça do pau por causa dessa mania de só conseguir cagar com o pau pra dentro do vaso.

O chão tem uma poça de mijo meio seco, pestilento. Mas naquele momento não importa. Um peido sonoro anuncia a primeira cagada e ele acende o cigarro. Fecha os olhos e traga, profundamente. “Derby, que merda. Podia não ser tão ruim”. Anota mentalmente que precisa pagar um extra pro rapaz do cigarro. Contrai o cu e deixa o primeiro pedaço cair na água. Uma pontada na barriga e lá vem outro. Traga de novo e pensa no que vai fazer dali por diante. Haveria outra chance? 2014? Não, nesse ano, se ela não estiver popular, o outro, barbudo do caralho, volta e fode tudo de novo. Traga uma terceira vez, sente outro cagalhão sair e reflete que é hora de se aposentar, dar palestras, fazer oposição branca, qualquer outra coisa. Lembra de como comentaram que tinha sido apenas um rolo de fita crepe, mas o que ninguém considerou foi como o acertou, como acertou seu ego, sua frágil autoconfiança que desmoronava lentamente e quando a fita lhe atingiu fez doer algo interno, indetectável na tomografia, que ele, aliás, nem queria fazer.

Está tudo acabado. Daqui oito anos ele estaria velho demais, feio demais, caquético, quem sabe. Falta um tanto do cigarro, mas um nojo lhe sobe à boca. Joga o cigarro aceso no vaso e sente ânsia com a fumaça que sobe, do cigarro se apagando na louça encardida. Não tem papel higiênico, só aquelas folhas cinza de enxugar as mãos. Duas folhas bastam é o que está escrito. Ele ri de lado, e puxa um bolo delas, só para ter o prazer besta de entupir o vaso. Levanta as calças e vai fazendo bolas com as folhas de papel, jogando-as, uma a uma, sobre a bosta cor de manteiga rançosa. Pura vingança infantil na cabeça meio caduca de um velho. Ironia. Pensa, com maldade, na semelhança entre a faxineira do comitê e a outra, aquela que lhe fizera enfiar a viola no saco. “A Dilma pode ter levado, mas a outra, a vagabunda parecida com ela, vai ter que enfiar a mão na minha merda”, pensa ele, enquanto abre a janela para arejar o cheiro de cigarro e sai do banheiro.

sábado, 24 de abril de 2010

Tempo de revés

Hoje, sozinho e sem rumo, sinto todas as minhas fraquezas tomando assento. O caos se instala e eu quase desapareço sob ele; o que sobra de mim é pouco mais que um sopro, mas ainda não terminei. Persiste a dívida que carrego e atravessarei essa noite amargando o que lancei ao solo. De certo modo, muito antes disso tudo, eu já sabia o que estava sendo edificado. Outras noites, outros leitos vazios, outros olhos pregados na escuridão do quarto. É cíclico e não me surpreende que esteja sendo exatamente como eu havia previsto ou como previram para mim. Equilíbrio, apenas.

Plantei péssimas e venenosas sementes; é irônico que da mais doce delas e esteja colhendo tão amargo fel. Bem, ironias são assim, não se deve entendê-las de todo. Penso em quanto eu preciso de algo que não ouso dizer, não quero pronunciar. Essa necessidade me perpassa, abre em mim um sulco profundo que meu ódio não fechará facilmente. Estou acuado e isso me assusta. Como irei repor a ordem no equilíbrio sutil dos contrapesos? Não consigo me concentrar. Há vida pulsante demais fora daqui e isso me ultraja e ao mesmo tempo me fascina. Basta estender os dedos e o visgo embaçado dessa imundície me tocará e aliviará meu coração. Mas até quando?

O tempo deixou de ser meu amigo, sua amenidade e gentileza não me granjeiam mais com a cortesia do momento que se alonga e se alonga, dando a impressão da infinitude. Essa ilusão eu perdi, como sinto que estou perdendo tudo. A sublime existência invencível esvanece e a hora fatal se aproxima. O que me resta é a sobra do que da vida alheia consigo alcançar. No amor e no carinho eu acabei optando, ignorante das circunstâncias, por essa condição inferior. Tornei-me, enfim, patético e não posso ao menos contar com a compreensão de quem quer que seja. Cercado por uma estranha forma de bestialidade, não tenho meios de opor barreiras ao silêncio que se instaura. Resta-me a subversão, claro; essa magnífica especialidade há de permanecer enquanto eu mesmo não cair definitivamente. Com ela, e só com ela, percorro essa sombra que torna a floresta escura.

O ímpeto me propõe a saída mais simples e quase largo tudo. Não há mais grandiosidade entre as feras de hoje e só o cheiro pulsante que recende a leite e que me mantém aqui neste braço de mar. Não, não devo mentir; é mais que isso. Eu bem que gostaria que fosse apenas carne e sangue, mas não é. Transcende e me prostra, me enfraquece. De todas as derrotas que eu poderia me orgulhar de ter vivido, eis-me diante da mais ridícula. Tendo ultrapassado barreiras mais árduas, caio bem aqui, aos pés desse Tadzio incapaz de entender a si mesmo e de me entender ou de entender o quão maior essa chance poderia ser para nós dois. Ironia, claro.

Sozinho, nem mesmo sua voz me consola. Sozinho e ferido, melhor dizendo. Não tenho forças agora para me levantar e me conforme em me arrastar para fora do tédio que corrói a lembrança. Como disse, ainda não chegou a hora do término e em breve voltarei; temo apenas que um pouco da doçura se perca, já que eu não merecia essa noite de castigo. Amanhã novas possibilidades descortinarão essa angústia pungente; por hora, fico com a cicuta amarga e vou bebendo na cadência de gotas espaçadas; a madrugada que ainda tenho pela frente será longa.

terça-feira, 13 de abril de 2010

Do amor que não ousava dizer o seu nome

Será possível falar que existe um “amor moderno”, ou um amor na modernidade, opondo-o a um suposto amor do passado? Shakespeare, Camões e outros do mesmo nível diriam que não: a natureza do sentimento amoroso é essencialmente a mesma, o que muda é o modo de encarar a diversidade de cores dele – mudam-se os tempos, mudam-se as vontades. Talvez, a hipótese mais plausível seja a de que as relações entre as pessoas tenham mudado, ora tornando mais simples falar em amor, ora não.

Quando a questão é o amor entre duas pessoas do mesmo sexo, mas principalmente entre dois homens, o assunto é ainda bastante delicado. Hoje, a existência inegável de um meio gay consolidado e de uma sociedade já maturada na tolerância ajudam um pouco a trazer essa questão à baila, porém ainda há um longo caminho entre a aceitação de que dois homens fazem sexo e a crença (porque chega a ser uma questão de fé) de que uma família homoafetiva seja uma possibilidade saudável no seio da heteronormalidade.

Um primeiro ponto a ser trabalhado é exatamente a flexibilização desse olhar padronizador que conclama os modelos patriarcais e machistas e só concebe a relação amoroso como uma dualidade relativa, na qual há sempre um pólo feminino e outro masculino. O approach entre homens e mulheres é, claro, diferente do que acontece entre dois homens ou duas mulheres; são protocolos sociais diferentes. O homem heterossexual até chega a idealizar a mulher-objeto na qual baste “chegar” e pronto, sexo na certa. Todavia, mesmo consideradas as atualizações no software da moralidade hetero, a mulher fácil demais continua sendo desprezada (não só por homens, mas também por outras mulheres – vide a polêmica do Caso Geisi) e, não raro, paga por sua liberalidade sexual. Entre gays as regras do jogo erótico são outras.

Há muitos espaços em que dois homens se encontram e podem chegar a algo a mais. Antigamente, havia as praças e banheiros públicos, em razão da clandestinidade e o repúdio ao individuo mais feminino. Hoje, a tolerância foi institucionalizada por lei e o desrespeito reduziu-se às piadinhas bestas, nunca feitas na cara, daqueles que zombam pelas costas de todos, não apenas de gays. Assim, andar de mãos dadas com o namorado num shopping pode ser, e é, perfeitamente normal; e caso haja algum comentário mais invasivo, será análogo ao que escuta aquela pessoa mais gordinha que veste roupas curtas ou justas demais – um eco da voz social querendo dizer o que é ou não adequado (mas um dizer que já não goza de nenhuma legitimidade).

Homens, portanto, podem se conhecer e travar contato em basicamente qualquer lugar, mas ainda resta uma diferença fundamental em relação aos rigores heterossexuais: a abordagem. Homens e mulheres seguem, em termos, uma cartilha de boa conduta que prescreve diversos movimentos, como uma dança de pavões e que sobrevive até hoje. Mulheres querem saber quem são os homens com quem vão sair, o que fazem, onde trabalham, de onde são. Homens querem a “capivara” da mulher, a fim de melhor avaliar as possibilidades. Em suma, entre heteros, são personagens que se enroscam, e não pessoas, com seus respectivos corpos. Entre gays, o corpo é o códice; fim e meio unidos numa única entidade que importa. Em baladas HT, é impensável, por exemplo, que uma advogada saia com um garçom que esteja ali em noite de folga; ou que um médico leve para seu apartamento uma atendente de telemarketing sem com isso achar que ela é menos séria que uma professora universitária. Héteros consideram nome e sobrenome; gays farejam corpos e é na química do desejo que esses corpos se entregam a outros corpos, numa democratização inigualável e surreal, digna das bacantes de Eurípedes.

Isso, no entanto, não pode e nem deve ser julgado como promiscuidade gratuita ou libertinagem. Gays têm suas razões de ser, em parte porque a sociedade heteronormativa erigiu muralhas que nos deixam apenas estreitos corredores de passagem na vida. Enquanto heteros contam com a vida inteira para a construção da felicidade, foi só recentemente que se começou a falar em casais homoafetivos envelhecendo juntos, com direitos e garantias, inclusive a de ter filhos. Um gay, antes, estava relegado a viver intensamente a juventude e depois esperar: a velhice solitária, a degeneração e a morte. Isso explica as loucuras das nights fervidas e a total entrega: o amor acontece onde é menos provável, deixemos então acontecer – é como muitos, depois de refletir, acabam se justificando.

Com as novas perspectivas que vão se construindo para que a sociedade acolha homens e mulheres que optam por viver com pessoas do mesmo sexo, novos discursos se constroem em torno do amor homossexual. O principal dele é o da aceitação do casal gay, e não mais apenas do gay sempre sozinho, amigo e acessório de heteros bem resolvidos. Hoje, aliás, é muito comum a situação inversa: o gay super bem casado, feliz, que carrega a tiracolo a amiga ou amigo hetero, que sofrem por não achar sua cara metade. Cabe, nesse caso, a pergunta: por que será? E a resposta, talvez, sinalize o que desde sempre foi óbvio: há uma intensidade diferente, uma coloração diferente no amor gay. Dois homens amam-se intensamente no ritmo de uma sinceridade que se mantém sempre acima das conveniências que muitas vezes juntam homens a mulheres, e vice-versa. Na última versão do Big Brother, em 2010, o participante Serginho, gay assumido, afirmou categoricamente: o amor gay é muito mais forte. Talvez nem seja uma questão de intensidade, mas de qualidade. Gays amam as pessoas por quem se apaixonam; os heterossexuais, nem sempre.

Muita polêmica ainda resta quanto às questões práticas da vida afetiva de dois homens – e nesse ponto as lésbicas já se resolveram melhor que nós – tais como o casamento (com garantias e proteções do Estado) e adoção. O burburinho em torno da mobilização do Poder Público é maior que a efetivação por parte deste de medidas efetivas que tragam alguma novidade que os gays, por si só, já não tenham conquistado sozinhos, através das brechas legais. A compreensão, a aceitação honesta (e não apenas a tolerância polida), isso talvez seja algo a se construir, mas não à base de imposições, e sim pela prática de um diálogo aberto que traga à arena de debates o quanto a convivência amistosa entre pessoas (independentemente de suas preferências sexuais) pode ser positiva. Nessa utopia, quem sabe menos distante do que se presume, não haverá mais rótulos, nem para os indivíduos, nem para o amor.

domingo, 4 de abril de 2010

Constrição e descompasso

Será agora a virada da maré? Terei forças para, uma vez mais, superar o desconcerto de tudo e sobrepor nova camada de tinta nas já espessas paredes desse apartamento? O que os dias me trazem é o mau presságio de notícias que não quero receber. Eu, sempre imune e trancado às intempéries, agora ouço os estalos do madeirame frágil sob o qual me escondo do que não quero aceitar. Ironia do destino, talvez. Alguns já me falaram em punição; predisseram que meu fim seria a ruína que a outros já causei (alegam que causei, pelo menos). Não posso, ainda, tomar posição quanto aos fatos, mas ponho-me atento aos sinais.

O amor é uma condição, nem uma benção, nem uma maldição, nem mal ou bem; puramente uma condição que se nos é imposta - mesmo que muitos busquem por ele, logicamente. Acontece, tal como outros acometimentos cotidianos, triviais. Vem e se instala; dia a dia se metamorfoseia, cria longos e fortes braços, sempre (invariavelmente sempre) estrangulando, envolvendo mais perigosamente, uma das partes. É assim, verdade universal, imutável; ou então, não é amor. Muito do que carrega esse nome é, em verdade, sentimento de natureza diversa. O amor, como a morte e outras casualidades que surpreendem o homem desde que fatidicamente nos levantamos de nossa bestialidade primordial, é tal e qual o incessante jogo da existência, buscando seu equilíbrio no descontínuo (para nós, mortais, incompreensível) dos acontecimentos.

A vida sucede a morte, ou o oposto; o amor, o desamor. Na superação da lira do poeta, que estranho é o amor que não sossega a coisa amada, mas por quê? De mãos dadas e rodando, os amantes marcam bem a natureza paradoxal do apaixonamento. Num instante, uma força descomunal une dois corações, mas basta um pequeno descuido e há todas as tendências do universo conspirando para que a separação seja a mais drástica possível. E mesmo que, na prática, as vidas sigam os mesmos caminhos, é raro quando os corações se mantêm unidos. Se fosse apenas o amor, pudera; mas há todo o resto.

A roda da vida é inclemente. Ora aqui, ora ali, somos sempre alguém nesse patíbulo circular. Amamos intensamente quem não merece uma querela esquálida de nós; somos, não raro, os patifes que recebem todas as expectativas apaixonadas de uma alma sinceramente amorosa e que nos seria eternamente leal, mas então não ousamos. Não se trata de sermos bons ou maus, mas sim de estarmos constantemente na latitude e longitude erradas; desajustados, colhemos e perpetuamos o sofrimento da ingratidão e do vazio, independentemente do que o esboço de qualquer ética possa nos dizer. Somos assim e, deveríamos ter um instinto de gratidão quando a ignorância disso nos afeta. De minha parte, navego nessas águas porque não há solução melhor do que seguir navegando. Antevejo cada curva perigosa que se projeta muito além ainda do meu campo de visão, e talvez por isso não possa ser leviano, agora, e me queixar. Não culpo nem mesmo o destino, eu sabia como seria desde o início. Isso me deu, e com sorte ainda me dê, meios de protelar o inevitável, ou não. Sigo adiante e não quero que absolutamente nada venha antes da hora; ao contrário. Sigo até que a noite caia sobre mim e não haja mais redenção. É possível que seja hoje, mas também pode ser que não seja. O que me tranquiliza, se é que posso pensar assim, é que no fim de tudo terei a meu favor o fato dessa dignidade desde sempre e, sob os escombros, poderei cruzar meus braços acima do coração e empunhá-la como a espada que acompanha o guerreiro em sua jornada derradeira. Então as águas se acalmarão e seremos apenas eu e as profundezas infinitas do nada.