terça-feira, 8 de março de 2011

Pântano profundo e recomeço

Há o tempo das coisas e há o tempo do homem. Bicho sagrado, úmido de chuva e saliva e suor e sangue, avança na escuridão do eu e procura, ainda uma vez derradeira e é como se fosse sempre, a satisfação imaterial que alteia o horizonte e está longe, perto, longe, perto. A memória traz fragmentos de tudo, da cantilena da escola, da areia cinza do parque do desespero, o clique plástico da caixinha de aviamentos da avó, o cheiro de cabelo queimado por secador da tia sozinha que a cada sábado prometia a si mesma que não voltaria sozinha, mas que sempre chegava tarde, com o cabelo ainda queimado e tomava um copo de conhaque vagabundo para esquecer que a vida é ruim e que a semana pela frente renovaria a esperança de que no sábado seguinte, galega, fosse diferente, mesmo sabendo, no fundo que não seria. As gavetas da mente estão cheias desses insetos asquerosos que povoam a noite eterna da consciência com rastros viscosos do que eu preferia esquecer. Houve vazio demais entre os nós, o vento gélido balança as correias. O movimento feroz provoca sulcos no éter, mas o som não o acompanha e o descompasso converte-se em música nova. Releitura. Um rosto ressurge nas lápides submersas que vejo quando durmo. A morte é bela

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