Eu não lembro o seu nome, ou lembro, mas não posso pronunciá-lo ou mesmo escrevê-lo. Antes eu havia esquecido e certa ilusão de felicidade inundou minha vida pacata e tacanha; mas agora a memória do seu cheiro amadeirado, mescla do masculino ofegante e da delicadeza do touro adormecido, desestabilizou as certezas da alegria apalermada dos dias que correm sempre iguais. Antes de você eu ignorava o abismo em que estava atolado e o toque do meu no seu corpo provou inequivocamente que eu estava preso nas estrias do tempo. Saber não me fez melhor; ao contrário, derrubou o que havia de sólido e firme na areia dos meus dias. Demorei para fechar as portas e janelas abertas no meio da tempestade; atravessei madrugadas de suor frio e olhos fixos no teto, desejando que a dor passasse e tudo fosse apenas um longo campo verde com flores e silêncio; quis jogar minha vida na água corrente de um rio e voltar ao tempo em que havia tanto pela frente que minhas escolhas não significavam mais que erros ou inócuos acertos. Não pude voltar, ninguém pode. Abandonamos a época da loucura e nos aprisionamos novamente em nosso existir, distantes de qualquer conceito de lá e cá, atrelados ao limbo, sozinhos no escuro. Você sempre me julgou piegas demais e subestimou minha inteligência. E talvez tenha feito o mesmo, e nem posso dizer que você estivesse errado. Eu o superestimei, mas não guardo mágoa disso: a decepção deu toque de requinte ao vinho podre do meu senso de humor. Quando vi nos seus olhos o desprezo pelas tentativas de nos resgatar do esquecimento, tive raiva e ganas de lhe pular no pescoço e chacoalhá-lo até que você desaparecesse na poeira do que um sentia pelo outro. Será que fomos vulgares demais e agora pagamos por isso? Seria daí que vem esse descrédito em relação a mim? Para qualquer pergunta que me ocorre há um inequívoco não que me entorpece a boca, não, não, não. Dissemos não um ao outro, não dissemos? E o que veio depois foi aquela dormência gostosa da vida que se esfacela. Eu tinha um par de binóculos, você sabia? Estranho eu ser a única pessoa que conheço que diz isso, par disso, par daquilo. Cerquei-me de gente como nós éramos e mesmo assim me sinto uma ilha. Da ilha observo o mundo com os binóculos. Observava, melhor dizendo, pois os quebrei na pedra da lareira com a qual sonhamos um dia e não cheguei a construir. Depois eu conto por que fiz isso. Eu costumava observar uma mulher que ainda mora no prédio em frente. Estranhamente, me sinto incapaz de envelhecer, e acho mesmo que não envelheço. Continuo do mesmo jeito que você me conheceu, ainda se lembra? O tempo me melhorou um pouco, e seria perfeito se não houvesse esse gosto azedo que não me sai da boca e da alma. Mas talvez por não envelhecer, e confesso que não
invejo isso nos outros, tornei-me o observador privilegiado que analisa a velhice alheia. A mulher a que me referi foi uma dessas vitimas do meu sadismo geriátrico. Por acaso, a vi bem de perto no dia em que ela se mudou para o prédio em frente. Nós nos cruzamos na padaria, e pude sentir o cheiro acre das axilas suadas dela, talvez cansada de carregar caixas e arrastar móveis. Ela sorriu para a atendente e perguntou a que horas costumava sair o pão. Explicou, sem ninguém ter perguntado, que acordava cedo para correr. Curiosamente, sempre achei execrável pessoas que dormem demais, parece-me que estão desdenhando da criação do tempo e do fato de ser tão exíguo o que nos resta dele; por outro lado, antipatizo com essas pessoas transbordantes de energia que saem de madrugada para caminhar ou correr ou nada ou só para comprar pão. Não me pergunte, já lhe disse que a resposta é sempre não. Meu constante tédio ergueu suas plumas por um instante e observei a estranha com um misto de curiosidade e raiva. Querer saber mais não é novidade pra você, mas a raiva me intrigou. Supus depois, como sempre com razão, que o que me irritava era aquela crença de que as coisas ficariam bem para sempre. Você lembra da gorda na livraria, aquela bem jovenzinha que estava chorando quando almoçamos juntos na Paulista pela última vez? Ela brigou com o namorado na mesa ao nosso lado e você destilou veneno sobre a coitada. Lembra o que eu fiz? Toquei o ombro fofo dela e disse que gostaria de poder fazê-la acreditar que as coisas iriam melhorar, mas que elas não iriam, que seria sempre daquele jeito e que Deus havia sido sacana mesmo e que, enfim, seria sempre daquele jeito. Ela me incomodava, mas não como essa vagabunda sorridente na padaria. A gorda fatalmente cairia na real e talvez se tornasse mais e mais gorda até explodir e se vingar de todos com uma chuva de merda. A sorridente, ao contrário, jamais se ligaria das mazelas da vida e continuaria rindo, mesmo velha e cancerosa, mesmo com varizes supuradas e corrimentos vaginais fétidos. Passei a observa-la para ver sua decadência, saboreando minha imunidade ao tempo. Você talvez ache exagero, eu o conheço, é exatamente isso que está pensando agora e com certeza o tempo lhe pesou bem mais do que a mim; o fato é que antes de quebrar os binóculos, imediatamente antes para dizer bem a verdade, eu a observei derradeiramente. Sabia que quebraria os binóculos e quis espiar ainda uma vez. Ela estava sentada em uma cadeira, com as costas curvas, arrumando alguma coisa que me pareceu uma camisa. Era visível o cansaço, a idade, mas ainda assim persistia o sorriso. Raios! Como ela ainda acredita que seja possível a felicidade em um cubículo de quarto e sala, nessa cidade de fantasmas raquíticos, na presença de um homem como o que eu sempre achei ser seu amante ou marido, um sujeito cinza, desses que mesmo jovens têm o rosto flácido e que irritantemente parecem nos questionar sobre alguma coisa implausível. Tive ímpetos, algumas vezes, de esperar o sujeito no beco, ao lado do prédio deles, e surrá-lo só pra ver aquele olhar de indignação se esmigalhar entre sangue e lascas de dente. Mas eu nunca fiz isso, como você pode imaginar. Minha noção de conforto não se coaduna com essas investidas abruptas, não mais, pelo menos. Tenho a impressão, quase nítida posso dizer, de estar preso em um iceberg translúcido através do qual observo e hei de observar até a desintegração da última molécula de tudo. E sigo e vivo, sem, contudo, sentir a força daqueles dias. Há manhãs que me levanto e venho até aqui para recobrar tudo. Chego mesmo a escrever páginas e páginas reconstruindo cada detalhe do nosso primeiro encontro, do que aconteceu depois, de tudo que fizemos juntos e de como mudamos o mundo. Você me achava desequilibrado por dizer isso, que nós havíamos mudado alguma coisa, mas acho que fizemos muita diferença para aquelas pessoas que passaram por nós. Outro dia, encontrei um homem muito sisudo no saguão daquele cine poeira que lhe apresentei quando ainda não tínhamos pudores de sermos répteis mofarentos desses redutos do prazer anônimo. Era um sujeito realmente sério, que me olhava com censura - e, pasme, eu estava lá pelo filme, "Dr. Jivago", remasterizado - e ficou de me observando longamente. Acho mesmo que a primeira impressão dele é que eu fosse filho do sujeito que ele havia conhecido anos antes. Eu não me lembrava dele; aliás, só lembro de alguns poucos dentre aqueles homens todos. O fato é que depois de uns dois minutos me encarando, ele se aproximou e pude sentir aquele odor característico de senhores distintos, loção pós-barba e desodorante barato, Claude-Bergère, algo assim. Eu estava jovial, como sempre tentei ser, mesmo temendo parecer patético. Sorri e quis deixar a atmosfera o mais amigável antes de despachá-lo com a polidez de sempre. Os olhos dele tinham uma pele mole e arroxeada na parte inferior, e os dentes eram amarelos e sulcados. O lábio inferior era levemente caído, dando aquela expressão abobalhada de cãozinho Yorkshire. Senti pena e repulsa, depois uma certa indignação. Ele tocou meu braço e disse um olá menos sério que sua fachada fazia supor, e depois me perguntou se me lembrava daquela festa em que havíamos nos conhecido. Levei um tempo para processar a questão e conclui, pela idade dele, que devia ser aquela noite que ficou na minha memória como a noite do século, nossa noite. Expliquei que não lembrava, esquivei-me como pude, mas ele insistia, dizia que meus olhos ainda eram os mesmos, queria saber como havia me mantido jovem, parecia mesmo muito espantado. Comprei uma cerveja para driblar o assunto e disse que precisava entrar. Pelo espelho do saguão, pude ver que ele foi embora. Em casa, mais tarde naquela, fiquei matutando por que ele saiu e conclui que me encontrar, de algum modo, provou que a vida dele havia dado errado. Os anos correram para nós dois, mas ele se viu um ruína humana, escravo ainda daquele desejo que, na juventude, apenas iluminava o frescor da inconsequência, e que, na decadência, o fez ridículo e frágil. Você sabe que geralmente me deleito com essas coisas, esses efeitos que causo, ou acredito causar, mas nesse dia fiquei deprimido. Quis poder buscar por ele e abraça-lo e dizer que, sim, as coisas iriam melhorar, mesmo sabendo que não mudam nunca. Nesses episódios é sempre você que me vem a mente e é sempre seu sorriso maroto que toma a tela da memória, impedindo que tudo mais me contamine com o bolor das tristezas e das frustrações. Não sei mais nada de você, e evito saber. Não quero que você responda a essa mensagem, mesmo que a receba. Não quero saber se ainda pensa em mim, ou se teve filhos e está um senhor acomodado na poltrona de couro sintético da mediocridade. Guardo de você o sabor do beijo, a textura da língua morna e doce, o volume dos seus braços e o perfume da sua nuca. Sonho, desde antes de te conhecer, que acordo no quarto que ocupava na casa de minha avó, na infância, é sempre esse quarto. Sonho que, ao me levantar, não há mais ninguém no mundo, apenas eu. Ando pelas ruas e invado as casas que parecem ter sido evacuadas às pressas. Fico imaginando, no sonho, que houve uma tragédia, algo nuclear ou com zumbis ou com zumbis nucleares, sei lá. Entro nas casas, lojas, toco e abro tudo que quero. O conteúdo do sonho muda, os lugares, o que eu vejo e no que eu mexo. Há, no entanto, depois de nos conhecermos, uma casa cercada de árvores altas que é sempre o último lugar em que entro. Lá há uma mulher vestida de modo estranho, meio antiquada, meio etérea, que toca um piano, de frente para um jardim com uma piscina muito suja, verde de musgo. Posso sentir o ar denso e um peso sobre meus ombros. Penso que seja medo. Ando em cascas de ovos até o fim de um longo corredor, onde vejo um pequeno altar caseiro, uma mesinha alta, com toalha de renda amarelada e empoeirada, sobre a qual estão distribuídas velas e artefatos diversos, santos, relíquias e na parede sobre a mesa, uma foto apagada, em moldura antiga. Demoro para entender de quem é a imagem, mas sinto a familiaridade do riso largo e bonachão. Acordo desse sonho quando percebo que o rosto na foto é seu. Desde aquele tempo, eu soube em algum lugar na minha alma que jamais seriamos viáveis juntos, que estaríamos eternamente distantes, porque juntos éramos uma força bruta de masculinidade em estado de perfeição. Unidos, faríamos qualquer outra combinação humana perder a graça. Continuei no caminho em que estava, mas senti, desde sempre, que aquela euforia havia sido única, e que o ápice passara. Você me questionou várias vezes sobre minha percepção da realidade, criticou minhas escolhas e desdenhou do meu apego a esses fatos que talvez estejam gravados em você como episódios tristes de vulgaridade e inconsequência. Isso, mas não apenas isso, nos afastou, ou pelo menos foi o que eu preferi pensar no início. Hoje, mais maduro, entendo que você não era especial como eu havia imaginado, mas que através de você eu pude catalisar o lobo feroz que, dentro de mim, me torna, enfim, diferente dos outros. Sinto saudades e escrevo-lhe sempre essas cartas natimortas, mas meu lado racional entende que você já morreu. Estive na sua cidade, há alguns anos, assunto de trabalho, e procurei o endereço que, na época, era onde você morava com seus pais. Já não havia mais nada, e uma senhorinha, em uma praça, me explicou que empreendimentos imobiliários tinham mudado a fisionomia do bairro. Sentei na praça e li poemas de Whitman em sua homenagem. Li e reli, até que gotas gélidas de chuva me expulsaram dali. Fui para o hotel, tomei um banho e fui para um bar. Encontrei outro corpo para aliar à dor do meu próprio corpo e esqueci, por uma noite, o que realmente estava fazendo ali. Nada de novo; é o que venho fazendo desde sempre e já não sei dissociar as camadas que foram se acumulando de tantas e tantas vezes que voltei pelo caminhos que me levaram a lugares aos quais senti que não pertencia ou que simplesmente deixaram de me interessar. Outro corpo, outra chance. Esperei, com certo medo, o dia em que sairia sozinho da boate ou do bar, melancólico em relação ao que acabara; mas não acaba nunca. Mesmo agora, já cansado e amargo, há algo em mim que atrai esses corpos firmes e quentes para minha cama e para minha história. Algumas vezes, pergunto a eles o que os levou até mim, mas não há respostas conclusivas. Um dar de ombros, um riso, uma fala confusa. Nossas bocas se engalfinham de novo e somos engolidos pela noite. Chego a pensar que fui amaldiçoado o agraciado de algum modo com essa imortalidade relativa. Será que um dia hei de envelhecer de verdade e sentir o fedor azedo da decrepitude de meu corpo? Você com seu racionalismo e mente ancorada no porto das certezas, riria ao ler isso, mas me preocupa saber se, de fato, terei paz um dia. Os cachorros que levamos para passear aquela tarde, depois de nos conhecermos, morreram, um a um. Outros vieram depois deles, mas também já morreram. Sofri por cada um e mesmo agora penso neles com muita tristeza. Eram partes de mim que morriam, e de tantas vezes seguir o último cortejo, já não sei mais o quanto restou. Restei eu, agora só, sem cães, sem amigos, sem fé. O último amigo que ainda se lembrava de você, enlouqueceu. Não dessa loucura de hospício, mas aquela branda senilidade que iguala homens grandes a crianças. Fui visitá-lo e tentei ver borboletas na casa, mas não havia nada. Ele estava ali parado, caído em um sofá aceticamente branco, vendo televisão. Falei, falei muito. Não por ele, mas por mim mesmo. Seus olhos permaneceram estáticos e fui embora aliviado. Meu egoísmo triunfara e pude passar uma tarde desabafando e contando absolutamente tudo de mim, sem temer ser criticado. Fiquei mal por esse pensamento, mas depois passou. Esse talvez seja o grande problema: as coisas passam, não é? Não conto mais os anos e mesmo assim é sempre algo em que fico a pensar. O que eu sempre afastei da minha cabeça nao foi o fato de envelhecer e morrer, mas chegar a um limiar em que minha consciência me cobrasse por ter deixado passar o essencial. Nos dois perdemos muitas coisas pelo caminho. Você certamente viveu momentos diferentes dos meus, talvez tenha amado de verdade, perdido e ganhado na roda da fortuna, exatamente como eu, mas de maneira diferente. Somos, como lhe disse antes, rigorosamente iguais na sina de sermos eternos solitários, mesmo quando há a forte ilusão de não o sermos. Demorei para aprender isso e para deixar de lutar contra o que já estava determinado muito antes de mim, e seguramente muito além das minhas possibilidades de alterar os fatos. Pelo pouco que soube de sua vida, você nunca chegou a compreender como eu compreendi. De certo ponto em diante, preferi me afastar e não saber o que lhe acontecia, pois achei que não suportaria observar seu sofrimento de longe, impotente. Você tornou-se um espectro que por muitas noites vagou de um lado ao outro do meu quarto até que minha sanidade recusou-se a acreditar em sua materialidade. O que trouxe de volta o elain daquele tempo? Que chama adormecida voltou a sibilar como fogo fátuo pelos planaltos desérticos da minha alma? Eu estava pronto para morrer, ou viver eternamente, se fosse o caso, mas não para repassar diante de mim o que foi perdido. Eu lembro de tudo, não devo mais mentir, mas de que me vale? Lembro, todas as noites, as poucas noites que foram a única razão de tudo, para mim e para você. Mesmo que queira negar, que tenha alienado sua mediocridade com falsas premissas de felicidade, nunca mais houve tardes e noites como as do tempo que cogitamos dominar o mundo. Você pedia para eu lhe recitar poemas de Drummond e eu me extasiava com a ilusão de que, de fato, fosse importante ouvir aquelas palavras, ouvir como o eu do poema se sentia pobre, e como há um sentimento acerca do mundo maior do que nós dois. E não era nada disso. Você era bem menos do que eu acreditava e a verdade disso me afastou do desejo de qualquer outro vínculo entre a história do que poderia ter sido e a continuidade da nossa vida, então separados pela distância e pelo ódio. Eu sei bem que você nunca me odiou, mas e quanto a mim, alguma vez me perguntou se eu não havia lhe desejado mal? Desejei, sim; quis ver seu rosto destrocado pelos cães da rua, quis ouvir a notícia de que seu avião havia caído e que seu corpo fora encontrado carbonizado. Eu nunca esqueci que foi você quem assassinou minhas ilusões e me deu o conhecimento de mim, o mesmo conhecimento que, hoje, me mantém preso a esse corpo de diamante e fel, incapaz de envelhecer, incapaz de morrer. Por você, eu fui ao inferno várias vezes, e me senti morto, mas também me senti vivo. Se nunca tivéssemos nos encontrado, creio que eu teria me entediado muito mais, e por outro lado teria aceitado a vida insossa que levava. Você foi a virada da maré e nunca soube dizer se o que aconteceu depois me afogou ou me levou por doces mares. Na lembrança dos seus lábios de carne e pecado inflamados, velejei e naufraguei muitas vezes em mim mesmo. Eu era, mesmo, muito piegas; e ainda sou. É provável que você esteja morto, mas eu continuo abcecado por aquela ária de abertura de O guarani, do Carlos Gomes. Brindo você e nossas ruínas. Agora chove, ouço músicas que ouvi com você e já não me lembro mais por que quebrei os binóculos. Esperava poder lhe contar isso, mas não posso. As janelas abertas à frente dessa sacada aqui, a mesma em que você me contou sobre seus medos, agora me chama a observar e esperar.
sábado, 2 de abril de 2011
terça-feira, 8 de março de 2011
Pântano profundo e recomeço
Há o tempo das coisas e há o tempo do homem. Bicho sagrado, úmido de chuva e saliva e suor e sangue, avança na escuridão do eu e procura, ainda uma vez derradeira e é como se fosse sempre, a satisfação imaterial que alteia o horizonte e está longe, perto, longe, perto. A memória traz fragmentos de tudo, da cantilena da escola, da areia cinza do parque do desespero, o clique plástico da caixinha de aviamentos da avó, o cheiro de cabelo queimado por secador da tia sozinha que a cada sábado prometia a si mesma que não voltaria sozinha, mas que sempre chegava tarde, com o cabelo ainda queimado e tomava um copo de conhaque vagabundo para esquecer que a vida é ruim e que a semana pela frente renovaria a esperança de que no sábado seguinte, galega, fosse diferente, mesmo sabendo, no fundo que não seria. As gavetas da mente estão cheias desses insetos asquerosos que povoam a noite eterna da consciência com rastros viscosos do que eu preferia esquecer. Houve vazio demais entre os nós, o vento gélido balança as correias. O movimento feroz provoca sulcos no éter, mas o som não o acompanha e o descompasso converte-se em música nova. Releitura. Um rosto ressurge nas lápides submersas que vejo quando durmo. A morte é bela
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