terça-feira, 10 de julho de 2012

De volta...

Faz quinze meses que não escrevo; silêncio. Por quê? Pensei em escrever antes, mas faltava a voz, o tom certo, o espírito certo. Agora, espero pelo check-in em um hotel em Copacabana, os olhos deslizando sobre uma cama de areia sonolenta me estimula a escrever para não padecer no tédio. Percorri o Face Book antes de começar esta postagem. Vi dezenas e dezenas de fotos de um filme fofo, sobre dois robozinhos que se apaixonam. Fico pensando no que nos tornamos, ao mesmo tempo que penso sobre tudo que me aconteceu. O mundo é grande, diz Drummond, mas não tão grande. Sensibilidade e hipocrisia moralista andam de mãos dadas e quase tudo se desfaz em tristeza. Tenho sono e o odor floral da limpeza do hall do hotel me embrulha o estômago. É um nojo físico e simbólico. O teclado duro, com a tecla de espaço falhando, obriga-me a voltar e voltar e voltar. Um sinal? Talvez. Mas eu não quero voltar; nunca voltei atrás e não é agora que pretendo começar. Não porque meus atos sejam calculados ou porque eu me ache acima da possibilidade do erro, mas nesse momento a falibilidade da justiça humana é tão esmagadora quanto inútil. O que se perde, e que é perda de verdade, não tem nada a ver com o vil metal. Paradoxalmente, as questões materiais melhoram exponencialmente e perder torna-se um estranho ganhar. O que me foi roubado é muito maior, mais importante. Há três semanas atrás eu era menos livre, tomado por responsabilidades e obrigações e cobranças, mas havia o calor humano de pessoas que eu amo e sempre amarei, mesmo que de longe. Hoje, a liberdade, o tempo, mais dinheiro, melhores oportunidades... e impera a saudade da concha pesada. Nada volta; e esse caso não será exceção. Talvez, no fundo, essa metamorfose tenha sido meu ponto de mutação, a passagem necessária para outro momento da vida que me trará mais felicidade. Talvez. Sinto-me injustiçado e isso, automaticamente, quase anula as benesses que vieram com a mudança. Mesmo com as melhores oportunidades que se descortinam quase todos os dias, ainda me lembro do momento da maior humilhação e crueldade. E dói por não fazer sentido, ou porque eu me recuse a ver o único sentido plausível. A culpa que empurram sobre minha cabeça é falsa, ímpia, e mesmo que fosse autêntica, ainda seria infinitamente menor que outras culpas que simplesmente passam impunes. Devo render-me e simplesmente absorver a compensações burocráticas que me indenizam pelo disparate, como paliativo vulgar para um dano inegociável. Não tenho o que fazer e aceito, e anestesio esse sofrimento canalizando minhas energias em outras prioridades. Escrevo, pesquiso, caminho rumo à nova vida que me espera em outra esfera. Mas há a saudade, há o lado humano que transcende a objetividade dos benefícios que a situação me trouxe. Eu sei que logo vou recostar minha cabeça no travesseiro e os sonhos vão me levar para longe, onde o som e a fúria vão encobrir uma outra fúria, maior e mais dolorosa. Em breve estarei de frente para o mar da Baía de Guanabara, respirando a mesma brisa marítima que comoveu Drummond, ou que inspirou Machado e Vinícius. Por instantes, horas, dias talvez, eu simplesmente esqueça. Mas seguramente tornarei a fechar os olhos e lembrar do tempo que era mais feliz no meu sacerdócio de guiar meus filhos postiços por caminhos pelos quais ninguém mais poderá levá-los.